Ainda Brokeback Mountain – Araripe Coutinho

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Ainda Brokeback Mountain

 

 

Ninguém imagina que Ennis Del Mar(Heath Ledger), um caubói, possa ameaçar o parceiro de morte se ele o trair. Mais ainda: possa realmente se apaixonar pelo parceiro de trabalho Jack Twist(Jake Gyllenhaal). Se no “Cisne” de Salusse “que o cisne nunca sozinho nade, nem nade nunca ao lado de outro cisne”, o amor é levado até à mais profunda solidão na falta do outro, no diálogo de Ennis Del Mar com Jack Twist não é diferente. A homossexualidade é mesmo uma pista de mão única. O grande problema do gay é que o outro quase nunca responde ao seu apelo, mesmo amando, ele nega, porque a cultura é mesmo de extermínio, de desolação. O gay é uma afronta à família, porque os pais ensinam tudo errado. Tem suas filhas engravidadas muito cedo, mas não ensinam antes o preço que elas pagarão por pais ausentes, solidão e criação. Há uma geração inteira sem pais. Com o gay é bem mais abrupto o destino – não há resposta familiar, nem religiosa, nem do ser amado. Daí a importância do filme de Ang Lee “O Segredo de Brokeback Mountain”. Ele não só discute sentimentos arrebatadores e únicos como põe na mesa o amor como algo que nos devora sem precisão. Aparentemente, os dois protagonista do filme, não são gays na aparência. Eles seguem trilhas comuns, casam, constituem família, lar. Mas se vêem acossados por um sentimento que nasceu quando eles pastoreavam ovelhas na montanha de Brokeback. A necessidade de ser viril, homem com o chapéu e cintos de boiadeiro – imagem dos EUA desde a década de 60, quando estourou os filmes do velho oeste, contrasta com o grande amor vivido internamente pelos atores de Brokeback Mountain. Ao mesmo tempo que é abissal e selvagem, o filme é educativo e imperioso. Ang Lee é mestre nisso e se o gay agoniza e chafurda na lama pelo seu amor negado, não é para sempre.

A homossexualidade não é objeto de desejo apenas. É fruto de afetividade negada na infância. Ou não. A consciência culpada de que falou Dostoievski. O filme de Ang Lee é para se assistir longe de preconceitos. E nem cabem. É tão intenso, que nos faz ao menos viajar para longe de nós mesmos.

“O Segredo de Brokeback Mountain” está além da paixão de dois homens. Ele vai no nervo dos sentimentos devassadores e devastadores. Apesar de se  acreditar que o homem só sente aquilo que se manda sentir – ele quase sempre desaba quando não dá ouvido ao seu coração. E se coração aqui é uma palavra gasta, porque é apenas uma bomba comprimida de sangue que bate – ele nos faz  comover-se diante da interpretação dos dois atores, da mulher de Ennis, Alma e do drama vivido pelos dois.

Há um diálogo visceral que nos faz tremer. Ainda que estejamos tão bem resolvidos com nossa mulher e filhos e  amantes. Jack Twist- “nós poderíamos ter uma boa vida se vivêssemos juntos, uma vida boa de verdade! Ter o nosso próprio lugar. Mas você não quer isso, Ennis! Então o que temos agora é apenas a montanha Brokeback! Tudo que construímos está aqui, porra(…) Você contou as poucas vezes  que nós estivemos sozinhos nestes 20 anos e o quanto você me manteve preso? E agora você chega, me pergunta sobre o México e diz que me matará se eu não te der o que você quer. Você não tem idéia do mal que isso faz. Eu não sou você…não consigo só vir aqui e transar uma ou duas vezes por ano! Você é muito mais pra mim Ennis…Queria saber como faço para me livrar de você.”

Ennis Del Mar: “bem, por que você não faz isso? Por que você não me deixa ser apenas eu, hein?  É por causa de você, Jack, que estou deste jeito. Eu não sou nada…e não estou em parte alguma.”

Mais que um filme com tema de amor entre homens, “O Segredo de Brokeback Mountain” nos enche de beleza pela fotografia e lágrima  e  a constatação do preço que se paga quando o desejo é negado. Num mundo de deficiências e agiotagem de sentimentos, “Brokeback Mountain” é a certeza de que a arte redime o homem. E está aí para isso: sem clichê, pôr o dedo na ferida e redimensionar o homem para o que ele tem de mais precioso e único: ele mesmo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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