Algumas insolências.

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Nestes tempos de sufoco em meio à mudança do meu domicílio, estou sem paz e tempo para escrever. Em todo o tempo estou tratando de reforma, pelejando com pintura, encanamento, eletricidade, e poeiras de toda espécie, tentando proteger e acomodar meus livros, de modo que nenhuma disposição me resta pra escrever algo que seja interessante.

 

Tentarei discutir sobre alguns temas, manifestando algumas insolências impertinentes, ousando posar de inconsequente ou, o que é pior, assumir a pecha de intolerante por ignorante, inconsciente e horripilante.

 

Falarei também de boas intenções equivocadas.

 

Comentarei esta mal-intenção inferida de promover castrações não doridas. Direi também das minhas incongruências ao constatar um noticiário crescente de crimes de pedofilia. Enfim, tentarei externar meu pessimismo diante da incapacidade do Estado de gerir a convivência dos humanos.

 

Preliminarmente, desejo convidar os leitores a visitarem na internet o seguinte endereço: http://tvuol.uol.com.br/permalink/?view/id=pode-passar-a-mao-no-gatinho-ele-e-manso-04023064C0B11366/user=r71k1ntkdfex/date=2009-08-30&&list/type=tags/tags=1049/edFilter=all/

 

Os que conseguirem entrar no site acima verão uma cena ilustrativa do que eu pretendo discutir a título de insolência. Trata-se de um filmete de 23 segundos apenas, em que alguns jovens estão agradando um leão, tentando demonstrar que com carinhos, bons hábitos e palavras mansas, até um leão vira gatinho de pelúcia. E o leão que nunca se “desleoniza”, mostra que ao humano agrado, prefere por bom petisco a carne humana, suprema heresia do nosso modo de pensar. Afinal, é lícito ao homem ser o predador por excelência dos outros viventes, seja rastejante, voador ou nadador, tenha couro, couraça, com escama ou carapaça; um imenso manancial para o sonho de chefs de cuisine e gourmets. O homem ser comido, jamais!

 

No filme, o leão, como bom gourmand, quase engole o braço do sujeito tolo que o agradava. E o filme se torna exemplar, só para mostrar o debate entre o instinto inerente ao ser, e a tolice dos que pensam poder com a manipulação do dever ser, modificar e alterar o próprio ser, mediante a educação norteada numa pedagogia de excedente ingenuidade.

 

Em longo prazo, diz a Bíblia, falando de parúsia, com de um reino de pelúcia, com Isaías 65:25 e outras algaravias “Os lobos e os carneirinhos pastarão juntos, os leões comerão palha como os bois, e as cobras não atacarão mais ninguém, lobos e ovelhas viverão em paz, leopardos e cabritinhos descansarão juntos. Bezerros e leões comerão uns com os outros, e crianças pequenas os guiarão”.

 

Ah! Mais isso só acontecerá num prazo bem longo, num sonho distante, inalcançável! E em longo prazo, só uma certeza existe: em um não longo prazo, todos seremos átomos e moléculas imutáveis em combinações degradantes ou degradáveis, e no máximo, seremos lembrados por um feito ou um malfeito. E é desagradável falar deste realismo inconteste do humano; missão do homem é ser superado, e depois esquecido.

 

Feliz aquele que ao pensar assim, contempla a sua realidade sem apegos inúteis, afinal é sempre possível findar morto atropelado por um carrinho de chica-bom, uma suprema ironia para Nelson Rodrigues, ou morrer na contramão atrapalhando o tráfego, como o verso final na Construção de Chico Buarque de Hollanda.

 

Mas eu quero falar de outras insolências. Quero falar da castração química: Por falta de fórum qualificado, leio na Internet, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) não votou na quarta-feira (16) o relatório do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) sobre o Projeto de Lei 552/2007, que modifica o Código Penal e estabelece a diminuição de pena para autores de estupro, atentado violento ao pudor e abuso sexual de crianças e adolescentes que se submeterem a tratamento químico hormonal que reduz a libido.

Segundo este relatório, o condenado deverá se submeter voluntariamente (o grifo é nosso) ao tratamento durante o período de livramento condicional (cumprido fora da prisão). O tratamento será tentado depois que uma comissão, formada por psicólogo e psiquiatra, fizer atendimento psicossocial no período de reclusão. O uso do hormônio começa antes da soltura. Em caso de reincidência, a pessoa volta à prisão e perde o direito de diminuir a pena.

 

Ah! Como este noticiário se encaixa na mordida do leão descrita acima. Querem com atendimento psicossocial preceituar a ingestão de drogas para inibir a libido criminal do estuprador e do que abusa de menores. Querem que o estuprador contumaz fique impotente, incapaz de consumar coitos, preceituar-lhe o contumaz da velhice, em muitos sonhos e poucas realizações.

 

Ora, a castração química está na ordem do dia como panacéia universal. Há uma certeza da eficiência destas tais drogas de inibição de libido? Não há efeitos colaterais ou excedentes rebotes quando em final de tratamento?

 

E aí eu me volto para o leão abocanhando o braço no filmete educativo. Tanto o leão como o estuprador nocivo têm que ficar no seu habitat ou então trancados na jaula bem vigiados. Como não há habitat para o estuprador nem para o pedófilo, muito melhor do que pensar na administração consentida de drogas brochantes é aplicar o noticiário de Japaratuba nos anos cinquenta.

 

A história é verdadeira e eu a resumo: Sabedor que um adolescente houvera “abusado” de uma sua filha menor, um pai amarrou o ofensor castrando-o a fio de faca; igual a como se faz com porco, salgando o saco com sal grosso para não inflamar.

 

Contam os antigos que o menino não merecia tanto, afinal fora coisa de jovens e para tais incursões o casamento resolvia a questão. Mas, passados quase sessenta anos o fato foi esquecido mal lembrado e pouco repreendido.

 

Se a castração química é agora bem recebida por alguns setores dos direitos humanos, porque não utilizar a capação a macete, pura e simples em praça pública? Não haveria necessidade de prisão, não se criaria novos dependentes químicos, e a capação em praça, perante o vulgo, serviria também para aqueles de saco poupado, preservassem o seu, com recato e apreensão; uma insolência eficiente e definitiva.

 

Mas sem deixar a capação, falemos de outra insolência. Saiamos da capação a macete e adentremos na pedofilia. Por pedofilia entende-se qualquer abuso contra a infância, incluindo a tolice de inserir a adolescência como ameaçado pelo adulto. Digo tolice porque nem sempre o que está na lei é o bom e o certo. Considero a atual menoridade penal uma tolice nas nossas leis. Tornar o adolescente inimputável nos seus erros, chame-me de intolerante e inconsequente, tem sido um desserviço à educação da nossa juventude. Que o digam os professores que inseguros ministram aulas a quem os desafiam por impunes e detentores de afagos desmedidos.

 

Embora todos saibam que não há educação sem ordem e respeito, o jovem, enquanto jovem é convidado a delinquir, a se permitir exceder barreiras e limites, porque lhes não é reservado qualquer restrição em sua criatividade.

 

Aliás, falando em amarras de criatividade nos novos tempos, não podemos falar em uma simples repreensão muito menos punição ou castigo. Porque mandar o menino repetir sucessivamente um erro ortográfico se isso é pedagogia nociva do passado? E o mundo continua a punir e castigar quem não se capacita e não se comporta em urbanidade, aumentando também a tarefa da polícia, sendo requisitada para tudo; até para manter a ordem na escola. Que terrível!

 

E ainda há muita gente que crê na missão de um conselho tutelar para apascentar falos e vulvas, quando a sociedade, no rádio e na TV, tudo vê e aceita, e acha bom e normal, a transa no namoro, do ficar e não ficar. E achar que o adolescente que sabe tudo e já faz de tudo, usando camisinha por estimulado, ou sem ela, carne na carne, o que só assim é sujo e condenado?

 

Pensar que o tesudo estimulado irá obedecer a um conselho tutelar, só porque é menor adolescente? Ora! Deixemos de bobagem, de perda de esforço em demasia. Amparemos quem realmente necessita; a criança e não o adolescente que há muito deixou de ser criança.

 

Um pouco desfocado do tema, estou a lembrar o que dizia minha avó: “Quem aos vinte não barba, aos trinta não casa e aos quarenta não tem (dinheiro), não barba, não casa e não tem”.

 

Se a regra dos tempos atuais está mudada, direi em inferência insolente da inexorabilidade acima, que quando o púbis se enegrece e os fluidos se tornam gozos, a educação e os bons hábitos só são bem recebidos quando os mestres se exemplificam como regra de conduta.

 

Assim, se os pais vêm falhando, não há leis e conselhos tutelares que mantenham os jovens no bom proceder, e a historia da humanidade continua sem mudanças: Do sexo repetido por gozo e variação de parceiros, a realidade debochada confirma; primeiro faz-se por gostar, depois se dá só para os amigos. E como os amigos bem divulgam e bem mais crescem, surgem os presentes bem concedidos; um almoço, um jantar, uma noitada, um prenúncio de remuneração azeitada e bem aceita. E em passos progressivos a teúda vira manteúda, sempre de velhos de pouco conteúdo, só porque ninguém ouviu falar de fechaduras e chaves incompatíveis.

 

Incompatível é constatar na realidade que se espera muito mais da educação do que ela pode dar sem a necessária admoestação e punição.

 

Vejamos, por exemplo, o nosso trânsito cada vez mais caótico, porque cada motorista se orienta de acordo com a sua conveniência e comodidade. Isto é falta de educação? Não! É falta de administração de quem gere o trânsito. Se há uma sinalização estabelecida, seja de limite de velocidade, de impedimento de estacionamento, um semáforo, um sentido obrigatório, um impedimento de embriaguez ao volante, etc, e não há a coibição do infrator, o malfeito irá crescer.

 

Ninguém pode esperar bom comportamento no trânsito só com boas iniciativas educacionais. Para o motorista infrator, só há uma solução; multas pesadas, com apreensão de veículos, inclusive. Pensar que marcar pontos na carteira resolve o problema; é besteira. Melhor seria não se exigir carteira e punir rigorosamente civil e criminalmente o condutor infrator. Por que não tomar o carro do contumaz malfeitor do volante? Tem muito carro nas ruas e estradas. É preciso que haja muita ordem no fluir de veículos motorizados.

 

Que falar das motos, uma praga que está crescente, sobretudo porque desrespeita mais ainda qualquer regra do trânsito, avançando sinal, atalhando irresponsavelmente os carros, espremendo-se entre eles, ampliando inclusive a criminalidade acobertada por capacetes que impedem a identificação do condutor, sem falar em placas de dígitos diminutos só legíveis em pouca distância?

 

Que falar também, entre outras insolências, deste projetado meio de transporte em motos, sem pensar, que em nome do preço menor, nossa edilidade está mercadejando, a troco de voto irresponsável, com a segurança do passageiro?

 

São coisas deste tipo que estão deixando o trânsito insuportável, suscitando o pedágio urbano. Sem falar na quantidade crescente de automóveis sem garagens, urgindo a utilização de parquímetro em toda cidade, sobretudo na frente dos condomínios da classe média enriquecida neste governo Lula. E ainda, por suprema insolência, falam mal do Lula e seu excelente governo.

 

São muitas insolências para falar e discutir. Muito papo de mesa de bar. Do pré-sal ninguém sabe dizer nada. O privatista quer xingar o nacionalista, porque não contempla o seu passado entreguista de lesa pátria.

 

O discurso udenista de corrupção e mar de lama, tema recorrente no nosso noticiário, calou-se de repente, mas está latente. Logo, logo retorna; é o alcalóide preferido dos leitores dos jornais paulistas e da revista Veja.

 

E não há pessoa pior que o leitor de Veja, quando lá se noticia um escândalo. Porque o leitor de Veja acredita em tudo o que lá está e folheia sequiosamente a revista. E o leitor de Veja não é nada. Tire-lhe a Veja e eis mais um troglodita descabeçado sem assunto para conversar durante toda a semana. A não ser que fale de futebol ou outro besteirol, como a Argentina ter restado menor só porque ficou de fora da copa do mundo, justamente quando conquistou o mundial de tênis.

 

Ah, mundo imundo de chuteiras banindo tênis! Igual aos chutes dos ditos formadores de opinião, que se crêem donos do mundo, iluminados detentores da sabedoria incontestável, diante do qual, governos e potentados devem se curvar para lhes ler as bobagens, quando em verdade são tão falíveis, quanto passíveis, como eu próprio, pequenino, tentando não ser asinino, pensando por mim mesmo sem admirar o cabotino.

 

Mas deixemos o asinino e o cabotino. Deixemos as insolências por agora. O que foi é o que será. Diz a Bíblia em sabedoria milenar. O resto é conversa; boas conversas, inclusive com o leão mastigando o braço que o acariciava.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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