Ano novo, vida velha, ano velho…

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“Estava à-toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar tocando coisas de amor…”.

A banda, Chico Buarque de Holanda.
 

Eu era ainda adolescente quando Chico Buarque compôs a Banda. Na minha rua tinha uma velha e simpática senhora que morava em um enorme casarão colonial e costumava a passar os fins de tarde em uma das suas varanda olhando a rua. Essa venha senhora chamava-se Belinha, era muito risonha e simpática, durante todo o dia desaparecia escondida no seu belo e tradicional casarão, todavia, toda tarde vestida com roupas bem joviais, coberta de jóias, penteada e perfumada a Belinha aparecia na sua bela varanda e sua presença parecia que iluminava a nossa rua. E, quem não gostava da Belinha? Dos jovens aos velhos todos a estimavam, pela sua simpatia e leveza.

Toda tarde Belinha, de tradicional e rica família pernambucana, colocava uma almofada na varanda e ficava até tarde da noite sentada observando a rua, cumprimentado as pessoas, conversando com os que paravam para cumprimentá-la. Dando adeusinhos para uns, enviando beijinhos para outros. Assim, a Belinha passava todas as suas tardes, de segunda a segunda.

Toda vez que escuto a música do Chico, automaticamente me lembro da Belinha, do seu riso e da sua simpatia. Mas, Belinha passou quase toda a sua vida na janela, assistindo a banda passar, como se estivesse à-toa na vida, sem intervir, sem mudar nada. Apesar da sua graça e simpatia, Belinha era uma cidadã que apenas agia como observadora, não intervia em nada, não se envolvia em nada, apenas vivia silenciosa e calmamente.

Quando falamos em processo criativo, definimos uma atitude não mobilizadora chamada “agir como expectador[1]” ou seja, o indivíduo apenas observa as coisas acontecerem, não intervem, não questiona, não age, nem muito menos reage. Literalmente é um mero expectador e, de forma carinhosa, eu diria: “uma atitude Belinha”.

Essa semana que passou, em um almoço de fim de ano, observei alguns jovens conversando em um restaurante famoso de Aracaju, quis apenas observar, não para ser apenas mais um observador, mas, principalmente, para aproveitar o momento e acompanhar o pensamento deles. Foi ai que perplexo constatei que – ainda hoje, em pleno século XXI, ainda existem muitos “Belinhos e Belinhas” espalhados entre nós. E o pior de tudo é que parece que grande parte deles não sabe o que está acontecendo – de verdade – no país, ou não querem saber e, acredito que até têm raiva de quem sabe; aliás, nesse momento quero até me perguntar se há algum ser humano que saiba.

Mas qual será a causa dessa apatia pela cidadania, por que será que as pessoas não querem saber verdadeiramente o que está acontecendo no país? Acredito que esse atitudinal não está tomando conta apenas dos jovens, muitos adultos estão atacados pela maléfica e destruidora “síndrome do expectador”.

Às vezes, quando escuto ou assisto na TV alguns políticos falando, a “síndrome Belinha” também – quase que – toma conta de mim, e muitas e muitas vezes até mesmo me recuso a ouvir o que eles estão dizendo, as causas que estão defendendo, ou o partido ao qual estão subordinados. Infelizmente, entre eles, parece que a “síndrome Belinha” não os ataca, são todos imunes. Prometem, esperneiam, dizem que farão transformações fenomenais, que mudarão a cara do Brasil, que irão trazer marcianos e venusianos para nos ajudar a transformar o Brasil e por ai vai…

O pior de tudo é que como temos muitos atacados pela “síndrome da Belinha” as pessoas acreditam piamente, correm atrás, dizem que tudo está diferente, que o país está saindo da miséria, ai escuto a mídia falar nos milhões que são dados as pessoas sem empregos, quando na verdade o que esperávamos eram que empregos fossem gerados, que as pessoas pudessem trabalhar pela sua a própria sobrevivência e não a “institucionalização” da miséria…

E, infelizmente, estamos de certa forma dando oportunidades a milhões e milhões de Belinhas e Belinhos, que ao receberem parcos minguados reais no fim do mês, mesmo sem trabalhar, estão acreditando que a vida está melhorando e continuarão ainda por séculos e séculos como a minha amiga Belinha, olhando a vida passar… e vivendo apenas como um expectador.

Coisas do “país Brasilis”….Ano novo, vida velha, ano velho…nada muda…se não corrermos atrás…

Fernado Viana
Presidente da Fundação Brasil Criativo
fernando@fbcriativo.org.br

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[1] Denominação de Leão de Carvalho, Ilace.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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