Aprendendo a lição

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"Estamos cientes que estas pequenas lições são como gotas d’água no Oceano. Mas, compreendemos também, que os mares seriam muito menores se lhes faltassem estas pequenas gotículas.”

Há ocasiões em que fico impressionado ao constatar o quanto o ser humano é incoerente. Sem que perceba, ou mesmo percebendo e, às vezes, até querendo, ele é contraditório, gosta de transgredir, de fazer diferente daquilo que deveria ser feito.

É tão gritante essa situação que, a meu ver, chega a ser uma moléstia social. Por quê? Porque, infelizmente, atinge todos. É claro que há uma gradação quanto ao alcance das, digamos, “infrações”, uns fazem mais e outros menos. Ainda bem. Não dá para fazer um nivelamento. Qualquer generalização que abranja o todo é arriscada e pode levar a equívocos.

Mas que a satisfação em transgredir existe e parece “agradável”, podemos perceber com muita facilidade. E, não é necessário irmos longe, pois, normalmente, essas transgressões são aprendidas durante a formação de cada um, desde o ambiente familiar, dentro de casa, com os pais, irmãos, tios e parentes… Potencializa-se, com certeza, nas escolas, nos convívios sociais e, num crescente, amplia-se com o tempo no amadurecimento. Toda a sua construção depende basicamente disso: convívio, “oportunidades”, falta de controle e, sobretudo, impunidade.

É claro que não há uma uniformidade de procedimentos. Como dito acima, uns praticam pequenos e outros grandes delitos, que vão desde uma simples atitude do filho que, por birra, desrespeita uma determinação paterna, até a corrupção, ao assalto, roubo, latrocínio…

Este aprendizado adquirido na convivência do dia a dia, acrescido da falta de disciplina, do respeito e até do temor, posto que a impunidade se estenda por todas as camadas social, incentiva, aos que querem, a fazer, como se diz na gíria “o que lhe der na telha”. Aquele que ontem, deliberadamente, desrespeitou as determinações paternas pelo simples prazer da desobediência, e da falta de diligencia do pai, que não teve a clarividência necessária para, naquele instante, educar seu filho, explicando, com lucidez, avisando que tal atitude não deveria se repetir, por não ser o correto, etc. Amanhã, sem dúvida, repetirá desrespeitando a escola, a sociedade, o Estado, a Deus e ao que aparecer pela frente. Pois, além de não ter sido trabalhado, na época própria, se considera inimputável e superior a tudo e a todos.

Respeitar? Para que? Por quê? Direito alheio como: vaga de idoso? Faixa de pedestre? Sinal de Trânsito? Dinheiro do erário publica?  Pagar imposto? Respeitar a vida e a paz do outro? Dá a preferência? Conviver com as diferenças? Não dirigir alcoolizado? Entre muitos outros, serão desrespeitados também. “Quero nem saber, “meirmão”, num dá nada “mermo”! Para que fazer o certo, então? Se agir errado me dá tanto prazer e nem uma aporrinhação? É triste, mas, é também verdade, uma realidade cultural: Joga-se lixo nas ruas com a mesma naturalidade com que se trafica animais silvestres, drogas, armas e influências; suborna-se e se é subornado com a mesma singeleza com que alguns políticos e gestores públicos se locupletam com o que não lhes pertence, servindo-se do poder que exercem para enriquecerem com o que não é seu; a composição: bebida, volante e irresponsabilidade tira a vida ou mutila pessoas com a mesma simplicidade com que é puxado o gatilho de uma arma apontada para qualquer um. Dessa vulgarização, lamentavelmente, o que sobra é isso: a banalização da vida, do direito, da ordem, da propriedade e da lei.

Devemos entender também que, em alguns aspectos, esta é uma cultura muito nossa. Pelo menos é o que podemos constatar do que vemos e temos notícias de outros povos. Facilmente percebemos a diferença que nos separa. Pelo visto, gostamos mesmo é de “levar vantagem em tudo, certo”?

Já fiz várias experiências para comprovar essa diferença, entre o que se pratica aqui e lá fora. E, para minha decepção, constatei que há, de fato, muita diferença.

Este costume de ver as coisas sempre pelo lado equivocado, ou seja, de encontrar sempre uma solução mais vantajosa para qualquer situação, mesmo que esta não seja a mais correta, leva-nos, por muitas ocasiões a, logo de cara, achar uma fórmula, repito, às vezes errada, de levar vantagem.

Citarei apenas um exemplo, para clarificar o que quero dizer: há muito tempo, lá pela década de noventa, eu morava vizinho a um casal, ele estadunidense e ela brasileira. Certo dia, numa conversa sobre a aquisição de um terreno que ele havia feito, numa movimentada avenida desta capital, mostrou-me a planta de situação daquele imóvel e eu, de imediato, com o meu olhar ainda deseducado, fui logo percebendo e sugerindo uma ação, que, para ele, era totalmente equivocada, mas, para mim, até então, era a coisa mais correta do mundo. Foi uma bela lição o seu posicionamento e a sua resposta à minha propositura.

Aconteceu assim: a área que ele havia comprado era a única em toda a avenida, que ficava recuada uns quinze a vinte metros da calçada. Todos os outros imóveis, incluindo um, onde funcionava, na época, um grande banco, estavam alinhados com a guia do meio-fio.

Na minha santa ignorância, achei que estaria fazendo-lhe um grande bem, dando-lhe um conselho para que invadisse aquela faixa de terra que dividia e afastava a sua propriedade da avenida, pois, com aquele acréscimo, ele valorizaria, muito mais, a sua aquisição. Por isso fui logo indagando:
– Por que você não avança e se apossa desse terreno está na sua frente?

Ele, inteligentemente, respondeu:
– Porque eu só comprei até aqui. Esta é uma passagem para as ruas que ficam por dentro e ao lado.

Eu ainda contra argumentei:
– É só você deixar a passagem para os moradores das casas ao lado e construir uma loja no restante, é bastante grande e vai ser muito melhor aproveitado assim.

E ele respondeu:
– Mas, quando eu adquiri o imóvel só paguei por este que aí está com recuo e tudo, o outro não está à venda. Não posso, portanto, simplesmente invadir, não é correto.

Mas, o bobão aqui ainda achou de dizer:
– Entendo você está acostumado com outros valores, mas, não esqueça você está no Brasil e aqui todo mundo faz isso…

A sua resposta, além de curta, não poderia ter sido mais coerente:
– Mas, isso tem que mudar.

PENSE NISSO

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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