Araripe Coutinho

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Conheci Araripe Coutinho na Igreja Catedral, num tempo em que ali era Pároco o Monsenhor Claudionor de Brito Fontes.

Nesse tempo, Araripe estava saindo da adolescência. Gostava de rezar, de circular pela Igreja, participar dos atos litúrgicos, liderar inclusive um grupo de crianças, ou adolescentes mais jovens, como coroinhas, acolitando Missas, preparando Procissões, enfim ajudando o Pároco nos eventos religiosos.

O meu conhecimento se deu por apresentação do próprio Monsenhor, afinal um grupo de casais passara a assumir diversos trabalhos pastorais na Catedral.

Naquele tempo, muitas décadas se passaram, o Monsenhor Claudionor se fizera vitorioso, renovando a comunidade paroquial e resistindo à decadência natural dos centros das grandes metrópoles.

Havia inserido o Movimento “Encontro de Casais com Cristo” no seu trabalho pastoral e isto fizera renascer a ação evangelizadora naquela Paróquia que começava a padecer do abandono de fiéis tão comum às capelas-mães e prelazias das grandes urbes brasileiras, tendo como causa principal o crescimento da cidade, o esvaziamento do centro, enquanto ambiência de melhor residir.

O centro da cidade e o entorno da nossa Catedral se tornavam a largos passos no local que hoje é; inóspito, decadente mesmo, um verdadeiro mercado de pulgas, camelôs, comerciantes marginais, barracas imundas ofertando artigos de péssima qualidade, muitas idas e vindas de passantes, um ótimo lugar para o crescimento de atividades tão inúteis, quão marginais, sem falar na insegurança e fedentina, inerentes aos entornos dessas multidões.

Por outro lado, a Igreja começava a perder seu discurso salvífico, cedendo terreno às discussões intermináveis, onde valia mais a pregação sociológica, em excessivo apreço secular, desprezando-se o sacro e o rito em nome de um não confessado agnosticismo, em certezas que nenhuma dialética ousaria confirmar como dogma.

Foi, portanto, neste tempo de ação na Catedral que conheci Araripe Coutinho. Neste tempo ele deveria ser um ginasiano, um aluno do curso Colegial, e já chamava atenção pelo brilho nos olhos que externava.

Era um brilho diferente, um olhar de admiração, de deslumbramento, e porque não dizer também de cobiça, um insaciável desejo de possuir, de apoderar-se do ser seu circunstante em toda essência e profundidade.

Logo Araripe restou conhecido, ficando bem amigo de todos que frequentavam a Igreja.

Alguns como é natural, percebiam nele como dom real uma inteligência que sobressaia no diálogo.

Era o artista se empolgando e se inflamando num fogo onde não se via nem flama, nem chama. Uma espécie de Van Gogh, sem rabiscar a tela do impressionismo que o deslumbrava.

Outros o observavam em descrença. Era o velho desapreço natural; ociosidade com que brindamos os que não nos são iguais em gestos e poses, e até aqueles que nos incomodam por fugirem do ordinário, do simples adorno de cenário.

E Araripe já suscitava tal julgar desconcertado, um prenúncio que bem se revelaria em dissonância comum ao ordinário.

No fundo já era alguém que dominaria o vário e sua desorganização entrópica, para conseguir sintetizar no caos,  até por necessidade de criar e sobressair perante o ordinário.

Porque o ordinário é a regra, é a cota natural da sobrevivência, tudo aquilo que horizontaliza desejos e vontades, espectro que media a vida, em satisfação ou descontentamento, pântano onde a imensa maioria flutua e submerge, com pouca vida e até vida nenhuma.

Se sobrenadar a tal charco já é difícil, difícil mesmo é se tornar extraordinário, sobremodo no seu caso, menino pobre, sem corte nem cauda, sem destaque até mesmo no invólucro inserido.

Mas Araripe não se pensava limitado assim. E não parava. Estava sempre uma máquina movimentando mancais em muitos ruídos e movimentos, espécie de Ode Triunfal imaginada por Fernando Pessoa.

Fez-se poeta em temática de muito fogo e paixões extremadas.

Teria sido mais um poeta fingidor enquanto cronista social e entrevistador televisivo?

Que dizer de seu sorriso final até no Programa de Jô Soares, um medíocre que o debochou como tantos, que só lhe viam o invólucro, sem adentar no seu conteúdo?

Dir-se-á que fora um exagerado. É verdade, fora assim! Agradava-lhe aparecer diferente, inusitado, sempre caloroso, e extremamente amoroso, mesmo quando a vida lhe reservava os dissabores tão comuns das incompreensões e desapreços.

Ele, sempre um poço inesgotável de gentilezas, traduzidas até com muitos beijos e afagos desconcertantes ao comum e ordinário.

Exagero também quando resolvera “conspurcar” a dignidade vetusta do Palácio Museu Olímpio Campos, com a sua nudez de anjinho barroco.

Um exagero pouco verdadeiro, afinal em tanta pudicícia desnecessária, aquele local bem certo testemunhara cenas de pior luz, em tantos conciliábulos e reuniões de deslustrada memória.

Hoje tudo é passado. O poeta extremoso, rebelde também no cuidado de si próprio, partiu e ninguém soube dizer como e porque.

Sofreu uma queda, disseram os que lhe eram próximos.

Foi essa queda ocorrida num evento social ou na própria residência na orlinha do bairro industrial? A resposta restou mistério.

Eu mesmo nunca mais o encontrara e pouco poderia dizer a respeito.

Da última vez que o vi, já se vão alguns meses, encontrei-o imenso. Engordara demais. Estava ofegante, confessou-me estar convalescendo de infecção resistente. Isso, porém, não lhe diminuía a alegria, afinal estava no seu ambiente preferido, uma dessas festas sociais, quando podia abraçar e beijar todos, sem exceção.

Soube de seu falecimento pelos jornais televisivos.

Não fui ao seu velório, nem ao seu sepultamento. Nem mesmo fui à Missa de Sétimo Dia.

Senti-me incomodado com o seu passamento tão rápido. Uma perda também para mim.

Por outro lado achei-me desobrigado de ali estar, afinal não gostaria de vê-lo imóvel numa horizontalidade que não era a sua.

E se havia alguém a manifestar os meus pêsames, era a mim próprio também.

Ouvi, porém, muitos testemunhos em pranto verdadeiro.

Neste sofrimento, seja destacado o pronunciamento gravado com a cantora Amorosa, por notável representação de muitos que nada disseram, nem ali estiveram junto ao ataúde do poeta, mas que foram conquistados pela sua exótica maneira de ser, tão afável, quão querida, com seus beijos molhados inclusive, a fazerem falta em ternura e simplicidade.

Que Deus o mantenha num lugar pleno de brilho e beleza! Amém!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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