Arlington e o futuro da América.

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Dissemos no artigo anterior, que os Estados Unidos, uma vez vencendo definitivamente os ingleses em 1812, viveriam tragédias fratricidas e se tornariam imperiais e intolerantes, mundo afora.

Anteontem abraçando parentes no Quénia, ontem bebendo cerveja preta cercado de sorrisos num PUB irlandês, e hoje continuando a sorrir entre afagos de carinhos do jovem Príncipe William e sua esposa Kate Midleton, o casal presidencial Michelle e Barack Obama perpassa aquela imagem descontraída, amável e confiante, prenunciada pelo historiador Simon Schama, como nova face para o futuro da América.

Mas, a verdadeira face Ianque nunca fora tão amável, por formação e origem, quando seus interesses de mando, império e liderança suscitaram discordância ou obstáculo. E, por esta tradição intolerante, firmou-se nos últimos duzentos anos como o povo que melhor aprendeu a mais conhecida lição de Maquiavel: “Entre ser amado e temido, é melhor que o príncipe seja amado. Mas, como não se pode ser amado sempre, que o príncipe nunca deixe de ser temido”. Lição pragmática e objetiva que se estende num corolário cruel e letal para o próprio príncipe, porque ser temido não é ser odiado. E o príncipe não pode ser odiado.

Ora, desde sua formação os Estados unidos vêm mostrando ao mundo não uma cara amorosa como parece ser o sorriso de Obama. Sua história de resolução de conflitos revela uma face senão odienta, mas temida, assustadora até.

Todavia, a unidade das treze colônias não ensejava tal temor, mesmo porque a independência americana só se concretizou apoiada pela França que reuniu homens e recursos na sua velha luta contra o inimigo inglês, tentando expulsá-los de suas colônias na América, a fim de mantê-los restritos em sua ilha.

Uma guerra perdida pela França, mas que resultou um projeto forte de país, porque a União nascente ousou atingir mais longe, conquistar Toronto e cercar Quebec, bem usando o soldo e a pólvora francesas, um sucesso destacado do General Richard Montgomery, que só não conquistou o Canadá, porque fora morto em batalha, e seus comandados resolveram debandar.

E a conquista do Canadá só não aconteceu, segundo relatos de Aaron Burr, mistura de herói astucioso, vilão perigoso e fanfarrão inamistoso, mas que se glorificara como herói-combatente naquela campanha de 1975, pela excessiva indecisão e morosidade do Coronel Benedict Arnold em deflagrar o ataque final a Quebec, só o fazendo em 31 de dezembro, quando inverno inviabilizava qualquer sucesso.

Em verdade, “naquelas latitudes ao norte, no Canadá e na Rússia o inverno é terrível” explicita o ficcionista e historiador Gore Vidal, traçando os feitos de Aaron Burr, criando-lhe pensamentos e palavras, entre as quais uma constatação que seria verdadeira em outras situações, afinal “Quando consultado de modo democrático, o soldado americano invariavelmente prefere bater em retirada”.

E a história americana apresenta uma série de generais intrépidos e afortunados e muitos outros, excessivamente cautelosos e medrosos, que somente se lançam contra o inimigo quando está verdadeiramente ciente da sua minoridade de recursos.

No primeiro campo, destaca-se entre outros, o general Winfield Scott, herói de 1812 contra os ingleses, vencedor de várias incursões contra a nação indígena Cheroquee (1832-1835), conquistador do México em 1837, sendo comandante Geral do Exército Unionista de 1841 a 1861, já na Presidência de Abraham Lincoln, e outros como o próprio Aaron Burr, cercado de misterioso folclore, onde tentou reunir os estados conquistados numa União do Oeste com a Louisiana, movimento separatista do qual fora acusado e banido como traidor, tentara se tornar também imperador do México, e terminou por sujar para sempre o seu currículo, por matar Alexander Hamilton num duelo.

Um feito terrível, porque Hamilton, cumprindo promessa escrita de véspera, atirara primeiro, errando propositalmente o tiro sem mirar o adversário, tendo este atirado depois, baleando-o mortalmente.

Morria simploriamente, talvez o homem mais notável depois de Washington, porque fora de inspiração e criação hamiltoniana a organização da unidade do estado nascente, viabilizando o nascimento de um exército e de uma marinha regulares, a constituição de um corpo de funcionários e administradores e um sistema de arrecadação a permitir um tesouro forte. Não fosse assim, os Estados Unidos fragmentar-se-iam na primeira crise.

Se a tentativa separatista de Burr resultara-lhe apenas um processo de traição, a eleição de Abraham Lincoln em 1860 deflagrou um movimento separacionista, até então inusitado, a impossibilidade de uma separação sem traumas resultou numa das guerras mais terríveis por sangrenta entre irmãos.

A motivação assumida foi a rejeição à política abolicionista, pensada pelos aliados de Lincoln, inconformados com o vergonhoso sistema escravagista do homem negro.

A motivação verdadeira, porém, fora a insatisfação dos estados sulistas, sentindo-se prejudicados no convívio da União.  Neste particular, seus líderes entendiam que a federação iniciada pelas treze colônias como fruto de vontade em um pacto de unidade, podia ser fragmentada também, se houvesse uma nova vontade, que quebrasse tal pacto de unidade.

Lincoln, porém, por promessa de posse Constitucional, quando já vários estados tinham formalmente se desligado da União, da Flórida à Carolina do Norte, incluindo o Mississipi, o Alabama, a Geórgia, a Louisiana e depois a Virgínia, “jurara preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos”.

E a guerra seria um empreendimento difícil, afinal até o mandato iniciado era uma incógnita. Lincoln fora votado apenas nos Estados do Norte, e, mesmo assim obtivera votação tão exígua, 40%, que o tornava refém dos demais candidatos e partidos. Uma fraqueza que poderia estimular não só um golpe parlamentar, como até aventuras militares, não fosse sua paciência, habilidade e firmeza, sabendo lidar com a vaidade dos homens, seus sonhos e suas misérias e virtudes.

Cemitério Nacional de Arlington, local onde se situava a fazenda do General Confederado Robert Lee. Neste campo ficava o jardim onde a esposa de Lee cultivava rosas.

Se Gore Vidal traça em Lincoln sua caminhada resistente aos golpes da guerra e às escaramuças de seu gabinete, o exército Unionista revelaria uma falência notável de Generais, cuja safra melhor de West Point preferira aderira aos estados confederados, como Jefferson Davis, e o General Lee, considerado o mais notável expoente da tropa americana.

No comando em chefe das tropas unionistas estava o velho herói Winfield Scott, inteligência lúcida e bom estrategista, mas que, obeso, idoso e doente aos 75 anos, já não tinha o mesmo vigor, não podendo mais cavalgar e acometido pela Gota, deslocava-se com extrema dificuldade.

É substituído pelo General George McClellam, que restaria na história como inepto, medroso, excessivamente defensivo e sem ousadia de avançar, diferente de outros como Ulisses Grant, o comandante vitorioso da guerra, William Sherman, o general impiedoso que arrasou Atlanta, célebre cena de “E o vento levou”, e Montgomery Meigs, o intendente geral dos exércitos de Lincoln, o militar que não estava na frente da batalha, mas era o responsável pelo abastecimento e municiamento das tropas, sem os quais não haveria vitória.

De Meigs, seja destacada uma ação que bem representa a força do militar americano.

Por tradição antiga, os romanos salgavam as terras pertencentes ao inimigo, para que inférteis restassem a título de exemplo. Em lição análoga, Montgomery Meigs, em 1864, quando a guerra era ainda uma incógnita, fez desenterrar 26 soldados da União, que haviam sido sepultados no antigo cemitério de escravos da fazenda do General Confederado Robert Lee em Arlington, e mandou enterrá-los à frente do pórtico da mansão, justamente nos jardins onde a Sra. Lee cultivava suas rosas.

A fazenda de Lee, como lembrança e desafio à unidade americana, abriga desde aquela data, o cemitério nacional de Arlington, onde os heróis americanos têm sido enterrados e reverenciados, quando abatidos nas muitas guerras acontecidas em sua história.

Por acaso a lição de Arlington sinaliza uma suavidade para o futuro da América?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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