As contradições do Sintese

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O Partido dos Trabalhadores está há mais de cinco anos na Presidência da República, há quase oito anos na Prefeitura de Aracaju e há pouco mais de um ano no governo de Sergipe. No aprendizado democrata, uma gestão ou duas é tempo insuficiente de assimilação do poder para um agrupamento que nasceu na oposição ao regime militar, cresceu em duas décadas e conquistou o governo combatendo justamente o poder — e quem o representasse no momento, fosse de direita, liberal, social-democrata ou a denominação tivesse.

Partido que tem na raiz da formação o contraditório, o debate quase autofágico, o PT chega a ser discrepante quando está no poder. Seus braços sindicais são certamente a ponta mais visível dessas divergências comportamentais. Ora batem, ora beijam. Ora bajulam o governo e de repente se despersonalizam, como aconteceu com a CUT em relação ao governo Lula, ora endurecem com os governos dos companheiros, para mostrarem ao público que têm coerência e continuam os mesmos ou para dizerem a si mesmos que se mudarem o jeito agressivo de ser vão acabar sucumbindo na poeira do capitalismo globalizado.
 

UMA RELAÇÃO DE AMOR E ÓDIO EXPLÍCITA permeia o relacionamento do sindicato dos professores, o poderoso Sintese, com o governo do petista Marcelo Déda. Esse sentimento conflitante exacerbou agora, na campanha salarial. Os sindicalistas que têm como estrela-guia a deputada licenciada e secretária Ana Lúcia Menezes exageram na reivindicação, calcada menos na “revisão salarial” superior a 32%, e mais no modo como confronta o governador.

O sindicato tem todo o direito, e o dever até, de buscar melhorar a situação salarial dos filiados, apesar de que o reajuste solicitado seja discutível. No ano passado, fazendo um cálculo inteiramente aleatório, o Sintese chegou à conclusão de que seria bom reivindicar logo 30% de reajuste salarial, a título de recuperação das perdas acumuladas nos governos passados. Como o governo deu um reajuste — pequeníssimo — inferior a 3%, a conta prosseguiu: 30 menos o reajuste concedido mais a inflação do ano passado igual a 32,43%.

Um pensamento lógico, mas bastante simplório, deve mover os neurônios do pessoal do Sintese: se este é o governo pelo qual lutamos, então é justo que agora atenda a tudo o que os governos passados não atenderam e nos conceda aquilo a que temos direito. Ou seja, é agora ou nunca, galera!

 

MAS NEM SÓ DE POLÍTICA SINDICAL VIVE O SINTESE. O sindicato é um forte braço armado da política eleitoral, já fez Ana Lúcia deputada estadual, Iran Barbosa deputado federal e agora, seguindo a sucessão dos presidentes ungidos nas urnas, precisa fazer Joel Almeida vereador de Aracaju. Para isso conta com o contingente de 22 mil votos dos filiados. Se um terço deles votarem em Joel, elegem-no vereador.

Por isso a desgraça do Sintese seria ter o governo Marcelo Déda como aliado perfeito, atendendo a todos os seus desejos. Se o sindicato sempre foi de briga, se frutificou na luta contra os governos que passaram, vai mudar agora a estratégia que sempre deu certo?

Recentemente, o Sintese publicou um texto desconexo intitulado “O governo Marcelo Déda não vai calar a voz dos educadores”. O texto em si não fala nada sobre o governador, fala de uma assembléia com a categoria e reafirma pontos que considera discordantes na gestão do secretário José Fernandes de Lima, agora ungido inimigo número um da categoria. Mais nada. Mas por que diabos então aquele título? Estaria o governador tentando cercear o sagrado direito dos professores à livre expressão do pensamento? Nem Venâncio Fonseca, nem Augusto Bezerra, os mais destacados deputados da oposição, acreditariam nisso.

 

SOMENTE NESTE ANO, AS ESCOLAS FECHARÃO as portas pela segunda vez. Os professores voltam a paralisar as atividades nesta terça-feira, dia 22. Desta vez é greve por tempo indeterminado. Eles alegam que não conseguem nem dialogar, quanto mais concluir um acordo com o secretário Lima. Engraçado é que nos dois anos da gestão de Lindberg Lucena, último secretário da Educação do governo João Alves Filho, não houve uma greve sequer.

Não bastasse tudo isso, recentemente os professores aplaudiram o deputado Venâncio Fonseca, líder da oposição na Assembléia Legislativa e que, antes do governo Marcelo Déda, jamais recebeu um cumprimento cordial de um sindicalista do Sintese. Quanta mudança.

O que torna a divergência ainda mais confusa é que a líder máxima da categoria, Ana Lúcia, que admite trabalhar na surdina “pelos professores”, faz parte desse mesmo governo, ocupando a pomposa Secretaria da Inclusão, Assistência e Desenvolvimento Social. Competente professora de carreira, ex-secretária da Educação de Aracaju, ela tem todas as qualificações para assumir a Secretaria de Estado da Educação. Mas perguntem se ela aceita?

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