As crianças e os livros

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Lembro da primeira vez que li um livro do Gabriel García Márquez. Um livrinho fino com umas ilustrações bonitas de Carybé que achei na simpática biblioteca de meus pais – modestamente chamada “estante de livros”. Achei bonito o inusitado título escrito na capa com letras brancas: “A incrível e triste história de Cândida Erendira e sua avó desalmada”. Foi um susto. Li de uma vez só, ávida de uma forma de contar tão diferente de tudo que conhecera. Tinha então uns onze ou doze anos e recordo de ter ficado com febre e algum mal-estar depois dessa leitura. Caí doente de amor.

Passei por essa mesma sensação de arrebatamento profundo outras vezes depois com autores muitíssimos diferentes como Virginia Woolf e João Antônio, mas também histórias que se contam ao redor do fogo e não estão escritas. É que cada um deles me mostrou um mundo diferente dentro da literatura e de mim mesma. (Outro dia me apresentaram um livro imenso com contos do povo Kamaiurá, que vivem no Alto Xingu, que me tirou o fôlego e me fez adoecer um pouquinho também.) Literatura é uma paixão que revira tudo dentro da gente.

Quando adolescente, fugia das aulas para ficar na biblioteca da escola e a diretora não sabia o que fazer comigo. Às vezes ela reclamava, às vezes ela fingia que não sabia – no fundo, acho que ela também um dia gostaria de ter feito o mesmo. Os livros eram muito mais interessantes do que as aulas de matemática. Mãe diz que eu não gostava de ler até os dez anos, quando me arrebatou Monteiro Lobato e seu Sítio do Pica-Pau Amarelo. Andava pra cima e pra baixo com Reinações de Narizinho debaixo do braço.

Livros roubam nosso coração. Outro dia, uma criaturinha linda, de três anos, chegou pra mim com o livrinho na mão: lê pra mim. Claro. Li, uma historinha muito bonita sobre saudades infantis e, talvez ele não tenha percebido, também sobre a morte e as distâncias insondáveis. No fim, ele estava encantadíssimo e pediu pra ler de novo. Acho que li umas três vezes seguidas só nesse dia – depois, eu e outras pessoas leríamos o mesmo livro mais incontáveis vezes para ele. Foi arrebatado. A alma ainda miúda ficou colada naquela história colorida e algo triste.

Uma outra, a quem dei um livro desses bonitos que fazem saltar o cenário em que se passa a história, passou hora e meia brincando e quando chegou o tempo de dormir, pediu pra levar o livro pra cama também. No outro dia, saltou cedo do dormir e saiu correndo a armar novamente a brincadeira de ler. Uma terceira, quando cheguei à sua casa, enfiou sua mão na minha e saiu me puxando: vem ver meus livros! Arrumei todos pra te mostrar. Livros são encantadores de crianças.

Segredei às mães e pais delas: plantaram uma semente boa e difícil no coração desses pequenos e pequenas. Porque livros são exigentes também: exigem horas e horas de dedicação exclusiva e amor incondicional. Exigem um pouco de solidão e algum isolamento. Exigem, principalmente, não ter preconceitos. Porque, às vezes, pode acontecer de sermos arrebatados por um desses livros que, dizem os “autorizados”, são subcultura. (Mas quem pode dizer o que se deve e o que não se deve ler?)

A literatura é assim mesmo: rouba-nos a sensatez, o juízo, o coração. E quando nos rouba os pequenos corações ainda em infância. É coisa muito definitiva.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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