Auditório Conselheiro Manoel Cabral Machado

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Na segunda-feira 24 de novembro, por especial consideração de sua Presidente, a Conselheira Maria Isabel Carvalho Nabuco d’Ávila, o Tribunal de Contas de Sergipe homenageou o seu primeiro Presidente e fundador, o Conselheiro Manoel Cabral Machado, denominando um pequeno auditório com o seu nome.

A presente homenagem acontece vinte e cinco anos após a passagem de Cabral Machado por aquela corte de contas, quando sua lembrança e seus feitos não se apagaram na memória dos homens.

Cabral Machado foi um homem de méritos tão amplos e superiores que a erosão do tempo, pode suscitar a indiferença ressentida, a insciência consentida e a ignorância displicente e olvidadiça, mas sua imagem sempre cresce em grandeza e brilho, a cada reflexão que se faça da sua ação.

Que não me confundam, por pressa, menosprezo ou alinhavo rasteiro, tratar-se de um panegírico de um filho dirigido ao pai. Não! Trata-se de uma constatação intima e pessoal de quem conviveu com sua ação e atuação. Um homem público de notável valor, alguém cujo agir está a desafiar os de ontem, de hoje e de amanhã. Alguém que suscita o incômodo também, porque cala os medíocres e os desprovidos de melhor valia.

Assim, eis que chega agora, quase três anos depois do seu falecimento, quando já estaria a fazer bodas de prata da sua aposentadoria e afastamento, a primeira homenagem daquela corte onde foi seu primeiro Presidente, presidência ocupada por três vezes, seu organizador administrativo e funcional, balizador primo das linhas mestras da sua atuação, e de onde saiu sem que lhe detectassem abusos escusos, deslizes funcionais, julgamentos parciais e menos ainda compadrio e nepotismo; tudo o que mais incomoda aos que não se elevam na comparação do agir.

Mas, Cabral Machado era assim; fizera-se exemplo; de cultura, seriedade e correção, alguém em quem seus pósteros pudessem se espelhar. Assim viveu, serviu e partiu. E ao seguir por aposentação e falecimento restou um homem bem difícil de imitar, suscitando a conveniência do olvido e do esquecimento.

Ora, como esquecer um homem vitorioso em campos tantos onde se inseriu? Poder-se-á negar-lhe o Bacharel em Direito, jurista referido e respeitado, o professor destacado de gerações, o político notável em correção e fidelidade, o orador vibrante em argumentação e conteúdo, o gestor estatal, eficiente e zeloso com os parcos recursos públicos, a quem se referia como ”o sangue do povo”, o intelectual, o ensaísta, o poeta escritor, o letrista adolescente de “Luar de Capela”, o membro viril da Academia Sergipana de Letras, da Academia Brasileira de Ciências Sociais, o autor de vários livros, pareceres e estudos, o detentor de vários títulos e comendas, o professor examinador de doutores daqui, dali e de além-fronteiras desses brasis, o professor fundador de quatro faculdades, Ciências Econômicas, Direito, Filosofia e Serviços Sociais, núcleo da futura Universidade Federal de Sergipe, de onde foi um dos primeiros eméritos, esquecer alguém cuja ação foi reconhecida, até pelo governo francês que o condecorou com o título de “Chevalier des Palmes Academique”?

Enfim, Cabral é alguém difícil de comparar e superar, sobretudo por sua descendência que é bem exigida por isso, uma coisa sem sentido, desde a nossa infância, e que não cabe a ninguém.

E nesta observação filial e íntima, revejo meu pai um homem eminentemente pacífico e conciliador, enfrentando a truculência para defender correligionários da perseguição política de então, sendo ameaçado de morte por contingências políticas, vaiado monumentalmente na Assembleia Legislativa, na posse de um governo dito de mudanças, que iniciado na fraude das urnas se caracterizaria pela intolerância e violência.

Neste tempo sou uma criança ainda, e estou a ver meu pai, magrinho, físico frágil, uma cabeça pequenina, monumental, mas precisando viver armado, com o revolver na cintura, diariamente, para exercer o seu múnus de Deputado Estadual, ora líder de governo ora de oposição.

Cabral Machado discursando na Assembléia Legislativa nna décado de 1950.

Eram tempos terríveis, inesquecivelmente temíveis! Lembro inclusive, de alguns fatos que bem denotam aquele tempo.

Numa viagem a Ribeirópolis, meu pai vai sozinho (quem foi junto?) participar da audiência de julgamento do rumoroso caso Ceará. Junto a Cabral, uma mala enorme, cheia de livros, em viagem longínqua num carro de aluguel, os carros de praça de então.

É Cabral que nos conta sem acrescentar ou repor: “Ribeirópolis estava deserta, com janelas e portas fechadas. Nas ruas estreitas desfilavam homens armados, jagunços vários como se um confronto estivesse marcado. Se houvesse um atentado seria difícil, impossível mesmo, encontrar alguém que testemunhasse o feito. E, se o fato fosse consumado, tudo seria entendido como um acidental acontecido fruto dos ânimos exaltados, afinal esperava-se um grande tiroteio, com os Passos querendo vingar a morte de seu parente Josué, e os acusados Cearás, alguns presos e outros fugindo, ameaçados de justiçamento”.

Do outro lado, Cabral apenas. Quem estava junto dele? A história não fala de ninguém; só seus livros apenas, digo eu! Que me desmintam os circunstantes e a memória daquele tempo, porque de resto ficou a sua consigna de insegurança, perante a autoridade policial, pedindo garantias de vida e o necessário desaforamento do julgamento. Restando-lhe o inesquecível e folclórico comentário ouvido e referido por uma sertaneja que o encarara com desprezo e motejo: “Mais parece um tuberculoso!” E a vaia sequente por gracejo, vero aplauso descontente.

Descontentamentos à parte, Cabral sempre fora um homem afirmativo. Ariosvaldo Figueiredo, grande historiador sergipano, talvez porque não gostasse bastante, nunca o percebeu assim, mas sem lhe encontrar maiores defeitos, achava-o um homem “medroso, que treme de medo quando se fala em Deus e da Igreja Católica”.

Ledo engano; os agnósticos entendem os teístas e tementes a Deus como homens menores, quando os anima a fé, o toque de Deus sentido e recebido, bem aceito e propagado; sua profissão de vontade por valoração da vida. Coisa de crente e descrente, inerência e essência de cada ser.

Certa feita, ainda em tempos odiosos, uma passeata estudantil fora programada contra o Diário de Sergipe, passando um esquife do Jornal, em cortejo de galhofa pela frente da nossa casa, na Rua de Pacatuba. O motivo era a insatisfação com uma matéria ali publicada denunciando o descalabro no Colégio Atheneu.

Cabral era então um dos Diretores do Jornal e por conta disso o caixão de defunto amanheceu na calçada da nossa casa, um dilema para os nossos vizinhos.

Em outra oportunidade um Secretário de Educação tirado a valentão, inconformado com um editorial do Diário de Sergipe vai a Assembleia Legislativa e quase agride Cabral, não o fazendo porque funcionários e contínuos o impediram.

O curioso é que o Diário de Sergipe tinha dois Diretores, Cabral Machado e o também Deputado Pedro Barreto de Andrade, homem de destacada braveza e respeitada valentia. O Secretário de Educação valentão, longe de procurar satisfação com Barreto, foi agredir Cabral. Queria, incutindo o medo, calar-lhe a voz?

De outra feita, quando Cabral discursava na Assembleia desfilando o rosário de descaso e violência espalhado por todo Estado, o Deputado Euclides Paes Mendonça o interpelou, desafiadoramente: “Vossa excelência não fala de Itabaiana, porque se falar de Itabaiana, eu lhe arrombo!” Imediatamente Cabral fala do sofrimento de Manoel Teles, de Jason e tantos outros correligionários mourejando na Itabaiana Grande, sob o governo Leandro Maciel. Euclides escuta calado. Dirá logo depois em seu comentário simples de sertanejo: “Este doutor Cabral Machado é muito inteligente. Se eu fosse Governador ele seria meu secretário”.

Um fato bisonho talvez. Que dirá então de outra vez em que Cabral foi apanhado sozinho à noite, às 20 Horas talvez, numa saída necessária ao prédio dos Correios, em que foi abordado por um homem que se dizia contratado para assassiná-lo, mas que não o iria fazer porque o ouvira discursar na Assembleia Legislativa e gostara bastante? Seria folclore? Seria invenção? Que o digam os surrados, perseguidos e assassinados de então.

Por tantas coisas assim, Cabral teve seu período de viver armado com um revolver na cintura. Saberia ele disparar um tiro, pergunto-me, eu que nunca o vira mirar um alvo?

Eram tempos difíceis. Até eu mesmo senti na pele o que era a luta política. Certa feita, eu criança ainda, fui declarado persona non grata numa carona de automóvel. Um tempo em que os automóveis eram escassos, e eu gostava de pegar uma punga de carro, nem que fosse do Educandário Brasília, vizinho à Capitania dos Portos, onde eu estudava, à Praça Camerino, em demanda à Rua de Pacatuba onde morávamos. Eram poucos metros de gozo infantil.

Acontece que o boquirroto de agora se regozijou então, em vendo no carro um exemplar do Diário de Sergipe. “Meu pai é Diretor desse Jornal!” Gritei sorridente e ditoso ‘Quem é seu pai?’ Perguntaram-me. Maior orgulho não havia: “É o Deputado Manoel Cabral Machado!” Seguiu-se um silêncio sepulcral. E uma criança nunca percebe no silêncio um descontentamento ou uma maldade implícita. Mas a maldade explicitada viria e permaneceria, já no outro dia, por emissário bem instruído: eu estava proibido de entrar naquele carro, porque ali não gostavam de meu pai. Um início de conclusão que, por extensão, ali também não gostavam de mim.

Mas Cabral Machado era um homem de não guardar ódios. Achava-se protegido por Deus. Viveu longamente, para ver feitos desfeitos e desconsertos refeitos.

No episódio do enterro e do caixão de defunto, na própria vizinhança do tempo, entre o que seria o sufrágio de sétimo e de trigésimo dia, um dos promotores do enterro falece de causas naturais, e um grande escândalo no Atheneu demite o seu Diretor. Era a urucubaca voltando rápido qual bumerangue.

No episódio da agressão tentada pelo Secretário valentão, quarenta anos depois é Cabral que o liberta da cadeia, mediante habeas corpus de sua lavra, enquanto assessor da Presidência do Tribunal de Justiça. Não seria uma oportunidade notável de encontrar-lhe motivos denegatórios? Não! A liberdade foi concedida sem delongas de procrastinação. O valentão fora preso por violência incabível. E assim estou a revê-los conversando, dois velhos então, um o quase agredido, sempre ciente e consciente de sua ação, e o outro, o propenso agressor, senão mui arrependido e envergonhado, restando agradecido.

O mesmo se deu comigo também com os proprietários do carro de onde fui banido. O tempo nos colocou todos juntos, sem lembranças explicitadas; meu pai, eles e eu, todos amigos e companheiros no Rotary Club de Aracaju.

Falando agora de outro contexto, comum e rotineiro neste país, há quem safadamente explicite não ser errado no manuseio do mel, que os operários lambam os dedos. Ora, quem recita este chiste tão jocoso, quer afirmar que o locupletamento dos recursos públicos deve ser a regra, a necessária cobrança de uma gratificação merecida.

Nunca foi o caso de Cabral Machado, enquanto gestor público, Secretário da Fazenda e de Governo no primeiro Governo José Rollemberg Leite, da Educação no Governo Celso Carvalho, e no Tribunal de Contas onde pontificou por quinze anos, sem ali deixar maus julgados e rastros de compadrios e nepotismo.

Ou seríamos nós seus filhos, parentes e colaterais, tão inúteis e inservíveis para receber benesses deste afilhadismo assaz comum da república? Ah! Como deve incomodar lembrar um homem como Cabral Machado?!

AH! Mas Cabral Machado era um homem de Direita. Foi Secretário de Educação no tempo da Revolução, no tempo do Governador Celso Carvalho, aquele que substituiu Seixas Dória, violentamente apeado do poder!

Pois é! Os homens de bem têm que ousar servir o Estado, sobretudo quando este está na iminência da violação. Só os homens de caráter e coragem se contrapõem à decadência das instituições, porque no momento da crise o covarde se escafede ou cede ao vulgo que se impõe.

Assim, sem ousar bancar herói, posando de resistente no gogó ou guerrilheiro inconsequente, Cabral assumiu o timão para impedir a perseguição, moderando excessos e contendo exageros. Uma tarefa assaz difícil, porque na ausência da ordem e da lei, os espíritos mesquinhos se alimentam em risos de hiena.

Hoje tudo isso é passado. Da luta política e do debate ideológico, a esquerda de então vem mostrando uma prática tão vazia, diante de tantos ideais professados e hoje remidos, e tantas demonizações de mau concerto e preconceito, que até para estes Cabral se coloca como exemplo vertical de dignidade sem jaça.

Cabral Machado se despedindo do Tribunal de Contas em 1986. Nesse discurso final verbera contra a sagacidade dos corruptos: "Pode-se enganar o Tribunal de Contas, jamais a Deus".

O que para muitos é um assunto sem graça, algo que não suscita encômios nem vende jornais.

Mas, destacável por agora, foi a decisão notável da Conselheira Presidente Maria Isabel Carvalho Nabuco d’Ávila em nomear um pequeno auditório, pouco mais que cem cadeiras, com o nome de Cabral Machado, conseguindo quebrar um jejum de olvido que já completara Bodas de Prata.

Por alongamento necessário e consignação de valia real, direi que uma tradição dos grandes povos é a reverência dos seus antepassados.

Países como a França, de história traumática em ódios centenários de farto sangue derramado, possui os seus heróis em conflito. Os do partido do rei louvam São Luís, o Luís IX, e Henrique IV, o rei protestante para quem Paris bem valia uma Missa. Os adeptos da República louvam “o incorruptível” Robespierre e Saint Just, radicais sanguinários de um lado, e Danton com Desmoulins, moderados indulgentes do outro; todos devidamente degolados pela navalha revolucionária. Já os do partido do império reverenciam Napoleão acima de todos. Isso em tempos mais remotos, porque no passado mais recente o destaque fica com Charles De Gaulle, o libertador da pátria perante a suástica nazista, e o grande defensor da unidade europeia.

Do lado inglês é longa a lista de heróis desde Nelson e Wellington até atingir Churchill o velho buldogue.

Os Estados Unidos, por exemplo, tem Washington, Hamilton e Jefferson como “pais fundadores” da grande nação americana. A eles também se juntam figuras como Lincoln, que consolidou a União, consignando-a federalista, mas una, e que jamais se fragmentaria, como exemplo para o mundo. De lá para cá, Barack Obama é o 44º Presidente. Alguns notáveis como os Roosevelt, outros de pouco destaque, alguns bisonhos e até corruptos, cachaceiros e venais, nada deixando por inspiração e modelo.

Diferente destes países, o Brasil reverencia pouco e não se espelha em ninguém. De Pedro I, e seu arroubo e grito sobraram acusações de autoritarismo em excedente atuação picaresca e bem notadas aventuras amorosas. De Pedro II só crítica de monotonia, atraso, e ignorância, verdadeiro “nambu” para Tobias Barreto, caindo num quartelada sem um disparo de metralha. Se, do império Sobrou Caxias “o pacificador”, da República ninguém fala desde Deodoro e Floriano, verdadeiros ditadores, o civilista Rui Barbosa sendo repelido por um militarismo tacanho, muitos golpes e contragolpes, heróis das areias Copacabana e tantos tenentes prepotentes, Getúlio Vargas à sua frente fazendo-os interventores, e tantos generais presidentes que surgiram em contrapartida, sem falar da nova República, agora restrita ao noticiário com a corrupção destacada semanalmente na ordem do dia.

Colocado assim, na pressa de baixo preço e baixio apreço, no Brasil não há “Pais Fundadores”, porque nem José Bonifácio, o Patriarca, é muito pensado e referido.

Mas, a despeito de tantos descaminhos, os pais fundadores das instituições sempre existem.

E, se um dia o Tribunal de Contas vier a refletir sobre si mesmo, em busca dos “Pais Fundadores”, arquétipos de modelagem e inspiração, encontrará Manoel Cabral Machado entre eles, ou liderando todos, mesmo sendo lembrado num auditório humilde.

Que neste auditório agora inaugurado nunca ecoem palavra vazias e desprovidas de mérito, conflituando com a ação e a vida de quem está a lhe emprestar o nome.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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