Breve crônica da Radiologia sergipana

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Gilmário Macedo gosta de escrever e escreve bem. Faz literatura boa de ler, inteligente, primorosa e suas lembranças, colocadas no papel, fazem-nos um bem ainda maior. Com prodigiosa memória, discorre sobre fatos

Gilmário Macedo e seu novo livro, que tive a honra de prefaciar.

marcantes da sua vida e suas histórias reavivam lembranças de garoto de calça curtas do interior, sonhos e desejos de adolescente, a realidade que se descortina na juventude e na fase adulta. Tive a oportunidade e o prazer de ler seus livros anteriores e também as suas crônicas nas antologias da Sobrames Sergipe, que organizo. Dessa vez ele traz uma grande contribuição para o resgate da História da Radiologia em Sergipe, especialidade que abraçou com afinco e competência, tornando-se uma referência na área, com serviços prestados aos grandes hospitais e clínicas de Aracaju. Não foi por acaso que chegou aos umbrais da Academia Sergipana de Medicina, na Cadeira 28, que tem como Patrono um ícone da radiologia sergipana: Lourival Bomfim.

No capítulo que descreve os aparelhos radiológicos antigos encontrados no Hospital Cirurgia, a história se aviva. O seu relato do processo antigo de revelação das chapas radiográficas é de uma sutileza e tão rica de detalhes que impressiona, deixando-nos parecer que estamos presentes em todo o processo.

No Rio de Janeiro, na cidade grande, das grandes águas e das montanhas, com enorme desafio pela frente, de repente cai a ficha, como expressa na sua sensível poética: “Com cara de poeta caído da lua, enxergando com o olho da mente o mar de conhecimento a se abrir diante de mim”, parte para a luta desprovido de recursos e de “costas largas”, tão necessários naqueles tempos, aliás como ainda é nos dias de hoje.

 

Sua memória pessoal impressiona, notadamente quando faz a descrição de cada um dos seus colegas da Residência Médica, com seus traços físicos e perfis psicológicos, com muito humor e irreverencia. Não escapa nas suas observações, alguns repletas de picardia, o enxadrista Valdir, o diplomata Raimundo Viveiros, os “erres guturais” de Valter Martins, o chefe Raimundo, de Vassoras e o coordenador Pedrosa, cariocas da gema e muito queridos. Mas tinha ainda o Ruimar, que Deus já levou para o céu. A estória do cheque de Paulinho Badaró, assinado somente Paulo Ba…( o resto estava escrito na parede), é impagável. A descrição que ele faz do colega Ruizito, o Ruth da Lapa, é genial: “Nos fins de semana, nas sextas-feiras venéreas, deitava carmim nos lábios, avivava as maçãs do rosto com rouge e acentuava os arcos das sobrancelhas com lápis negro. Deixava cair sobre os ombros cachos dos cabelos em desalinho, envergava camisas florais e calças justas sobre as pernas, cintadas ao modo Saint-Tropez, as quais se abriam em boca de sino, na altura dos tornozelos. Usava tênis de salto baixo e sandálias rasteirinhas e bamboleava ao andar. Punha um sinal de charme no canto da boca e, com uma bolsinha rendada a tiracolo, tomava o caminho da Praça Tiradentes. Acenava para os circunstantes de modo malicioso, virava os olhinhos e dizia:

— Vou apagar umas velas…

Numa certa tarde de verão, Ruizito maquiado, coroado por uma bandana de seda, sustinha no peito um bustiê de lantejoulas, adaptado de uma cuequinha violeta ou rosa choque, a lembrança vacila entre esses dois tons… Pois bem, o nosso querubim entrou no carro de lixo do sexto andar – nosso alojamento – e desfilou triunfante a distribuir beijinhos soprados para todo lado. O carro alegórico fez um giro completo pelo corredor, conduzido por um de nós. Quem era? Cartas para a redação, coluna dos mistérios!” Muito bom, caro Gilmário, o menino de Itabaianinha.

 

Nascido em 1950, naquela cidade da região sul de Sergipe, Gilmário Macedo tornou-se médico na nona turma da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Federal de Sergipe, em 1974. Abraçou com afinco e determinação a especialidade que sela diagnósticos, muitos deles difíceis, pela interpretação de imagens. Faz exatamente, do início, até os dias de hoje, aquilo que sabe fazer, e fazer muito bem: dar diagnósticos precisos, não só pelo olhar acurado de radiografias e monitores, mas principalmente, e isso é extraordinário e louvável, pela correlação que faz com a clínica soberana. Só esse desempenho bastaria para colocar o nosso esculápio nos umbrais da glória, mas não, temos ainda por cima o médico humanista, discípulo de um outro humanista, o professor Lourival Bomfim, a quem dedica, nesta publicação, uma crônica de invulgar beleza, à altura do homenageado, digna dos grandes mestres da literatura. Sim, desponta agora o escritor Gilmário Macedo, autor de obras como O caminho de São Thiago está vazio, Invenção de Pirro e Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Itabaianinha, uma prosa memorialista que revela para todos sua grande inspiração, habilidade e versatilidade na arte de escrever.

Mais ainda, além do escritor e médico, conhecemos com mais detalhes nessa obra, o cidadão engajado nas lutas da categoria, no valiosíssimo discurso de colação de grau, representando os seus colegas, na liderança pela defesa dos residentes médicos, tão explorados nos anos iniciais, no pensamento filosófico dos primeiros movimentos na defesa do trabalhador médico e os primórdios da criação do nosso Sindicato dos Médicos e da Associação de Radiologia, em tudo isso se revela a participação ativa e altiva desse missionário hipocrático.

Não foi portanto sem razões que Academia Sergipana de Medicina o entronizou na Cadeira 38 que tem justamente como patrono o inolvidável Lourival Bomfim. O Homem certo na Cadeira certa.

A leitura de BREVE CRÔNICA DA RADIOGRAFIA SERGIPANA deu-me a singela oportunidade de conhecer melhor a trajetória de vida desse cidadão do bem, médico, escritor, poeta e acima de tudo, um ser iluminado e pleno de inteligência.

 

 

 

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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