Cancele o meu celular

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O mês era março. O ano 2005. Os filhos, sempre eles, decidem que usariam os celulares de uma única operadora. A idéia era economizar as chamadas entre eles e os amigos. Eu sou comunicado posteriormente da decisão coletiva. Aceito a comunicação e compro os celulares. Meu celular, alheio à discussão, é excluído. Não faz parte do time da operadora escolhida. Resta-me, então fazer o óbvio, cancelar a linha.

 

Procuro a loja da operadora em minha cidade. Informo do meu desejo. Recebo a contra-informação de que somente seria possível através de telefone. A operadora não aceita o contato pessoal com o seu cliente. Penso que acredita ser contagioso o relacionamento pessoal ou aposta na sua capacidade de especialista em telefonia. Entregam-me o número que atenderia o pedido. Ligo para o número indicado e se estabelece o seguinte diálogo:

 

– Você ligou para …. – era uma voz gravada monotonamente dizendo o que eu deveria fazer caso desejasse ser atendido, ou seja, teclar por aproximadamente cinco minutos até ouvir a voz humana de algum atendente. –  Maria José, boa noite, o que deseja? – era a voz monótona de uma atendente.

 

– Eu quero cancelar o meu celular.

 

– Pois não, qual o seu número, com o código de área? – pergunta ela no mesmo tom.

 

– Diga agora o número do seu CPF – continua no timbre de voz treinado, após obtida

 as duas as informações solicitadas. – Obrigado senhor, vou transferir para o setor competente.

 

– Não é a senhora quem fará o cancelamento? – tento dizer apressadamente, mas sou cortado pela voz gravada que me atendeu anteriormente, dizendo que não desligasse pois a minha ligação era importante. Deveria ser mesmo, pois fico dez minutos escutando a repetida gravação.

 

  João Maria, boa noite, o que deseja? – era a voz do segundo atendente, aluno da mesma monotonia.

 

– Eu quero cancelar o meu celular – repito, sem a mesma paciência.

 

– Pois não, qual o seu número, com o código de área? – pergunta. – Diga agora o número do seu CPF – e, por fim, após mandar esperar alguns minutos, saca a primeira e importantíssima inovação. – Seu telefone é pós ou pré-pago?

 

– Pós-pago, não diz aí no seu computador –  respondo mais secamente. – Não foi por isso que pediram o número do celular.

 

– Obrigado senhor, vou transferir para o setor competente – responde sem  ligar para o meu comentário.

 

– Não é você quem fará o cancelamento? – tento dizer duramente, quando interrompido pela voz gravada que repete, por mais dez minutos, ser a minha ligação importantíssima.

 

– Ronald José, boa noite, o que deseja? – era a conhecida voz monótona interpretada por outra pessoa.

 

– Eu quero cancelar o meu celular, mas antes quero saber se é você quem resolve o assunto, pois já estou quase trinta minutos sendo jogado de um canto para outro … – digo com voz dura, chateada e assumidamente impaciente.

 

– Pois não, é aqui mesmo, mas qual o seu número, com o código de área? – interrompe ele sem demonstrar qualquer preocupação com a minha queixa. –  Diga agora o número do seu CPF – continuou. – Por que quer cancelar a linha?

 

Explico a razão. Ele me aconselha a continuar com a linha, pois sou cliente antigo. Retruco. Ele insiste e propõe que eu permaneça com a linha por mais um ano, sem nada pagar e ainda com um crédito mensal. Fico na dúvida. Ele pergunta se quero mais explicações sobre a proposta. Respondo que sim. Ele agradece e, sem qualquer aviso me transfere para o “setor competente”. Não tenho tempo para desistir. Espero mais dez minutos em companhia da conhecida voz-gravada-que-diz-ser-importante-a-minha-ligação. Outro atendente, agradecendo a minha importante ligação, explica o plano, bem assim que não poderia cancelar a linha durante um ano. Recuso a proposta. Sou avisado de que seria mais uma vez transferido para o “setor competente”. Dou-me, finalmente, por vencido e aceito a proposta.

 

O mês agora é fevereiro. O ano 2006. Tinha esperado pacientemente o passar do ano, sem nunca ter usado a linha e os créditos ofertados. Havia aceitado a proposta na esperança do tempo ter sido um bom conselheiro para a operadora. Procuro a loja. Confirmam que somente por telefone. Permaneço um cliente contagioso. Ligo para o número indicado e a ladainha se repete. Quarenta minutos depois, continuo sem cancelar o meu celular. Comento com os meus amigos a desfeita. Todos disseram que passaram o mesmo aperreio, independentemente da operadora contratada.

 

E como a operadora do meu celular não atende pessoalmente, tampouco por telefone, somente resta apostar em uma nova forma de cancelamento. Apelar para os sentimentos do pai do celular renegado. Lembrar que o seu filho está  abandonado, querendo loucamente voltar para casa.

 

– Bom dia Sr. TIM! Sua atenção é importante. Não renegue o seu filhinho, fique com ele. Aceitei-o de volta.  Ele quer voltar para casa. E caso tenha esquecido, o nome dele é (79) 9133-9592. Em nome de seu filho, agradeço.  

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