Carta para Alguém

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16 de maio de 2010, às 23h17.

 

Para ler ouvindo “Deve ser assim” de Marina Lima.

 

Trimmmmm! Campainha, campainha… seu nome em minha mente (nome, nome, nome, nome…), levanto da cama depressa e corro para a porta quase sem pisar o chão. Muito rápido, eu, o quarto, a sala, o piso frio, a porta e as duas fechaduras. Primeiro a estrela, sempre ela, duas voltas, ok! Vou pra “fechadura normal”, mais duas voltas e pronto! Abro. Você não está lá (de novo). Uma dor no peito me alerta que o Trimmmmm estava apenas em minha cabeça. Dor, mas nenhuma lágrima pesa mais sobre as bolsas dos meus olhos. Todas secaram porque não me hidratei mais, mentira. Elas secaram porque não consegui mais chorar, a dor causa isso também.

Desespero. Este é o nome dos meus gestos pós a constatação da porta vazia. Tranco as duas fechaduras, mas minha vontade era deixá-las abertas para você – que mesmo sabendo o caminho se perdeu por aí. Foi possível um erro meu, eu sei. Fui escrotamente pedante e carinhoso, mas a gente quando está apaixonado fica assim mesmo: “escrotamente pedante e carinhoso”.

Os passos leves, quase sem tocar o piso frio de antes, voltam ao chão pesados e sinto correntes de presidiários amarradas em meus calcanhares. Só faltava chover e esses dias não têm contribuído para a cama vazia, mudada de lugar para evitar que eu durma na posição que costumávamos dormir. Sonhávamos, eu sei e em um mês casamos, separamos, tivemos chororós homéricos e discussões tristonhas. Formamos um casalzinho daqueles de filme antigo, que sob as cobertas se entendiam muito bem. Não precisava sexo o tempo inteiro, mas o respeito de se deixar gostar.

As razões que o desgosto proporciona são incalculáveis e, principalmente, esquecíveis quando o abraço aquece um dia comum de trabalho. Encaixe perfeito. Tranquilidade. Um sono bom de gente-bicho que se aconchega e faz virar fria a noite, que era quente, só pra justificar dormir abraçadinhos. Fazíamos mágica, sabemos disso e nosso suor gelado era a prova de que nos dávamos bem.

Olhei seu celular e você me acusou de usar da pressão psicológica para justificar minhas neuras. Como você conseguiu me conhecer em apenas um mês? Só não te disse que mesmo me conhecendo faltaram partes que você não teve tempo de desvendar. Desvendar é tirar um pano dos olhos, de forma proposital, para enxergar que existe luz também na escuridão. Fui escuro, uso escuro, gosto de escuros. Até o breu tem seus tons e nuances que só percebemos quando nos aprofundamos mais e mais e mais em sua escuridão. Gostar é se aprofundar na vida do outro para descobrir suas penumbras e ainda assim gostar dele completamente como ele é.

Se não deixei você saber mais de mim foi por puro medo de perder o encaixe, o som, o riso, o gosto, a neura, o drama e o amor que já sentia por você. Porque paixão, quando efetivada vira amor. Amamos o diferente porque o comum já não nos causa impressão de nada. Se reclamei pra você, se fui até certo ponto uma boa pessoa, era porque tinha medo do meu lado ruim emergir. Quis tanto afastar o mal de nós que o aproximei de você e não soube separar amor, paixão, admiração, de sentimentos opostos…

Sei que fui legal também, mas como concorrer com seus anos de liberdade assistida? Como fazer você perceber que sexo, carinho, admiração e dormir abraçado são o essencial da vida. Ninguém quer Paris sozinho e sorrir pro nada. Diga-me pra quê grandes excitações se não tiver alguém pra dividir o gozo?

É tempo de compensação. A contrapartida da vida a dois que vivemos em um mês foi tão intensa que só existirá significado para nós dois. Se por um lado te amei, sei que você também se magoou ao me magoar. A intenção não está no gesto em si mas nas entrelinhas do gostar e se fazer permanecer. Minha confiança em você se mostrava de outra forma que não mencionava e até neguei algumas vezes sentir, mas confiava e sempre confiei.

Uma carta para alguém, é apenas uma carta para alguém e só. No som: Marisa Monte interpretando Argemiro Patrocínio pedindo para que o amor da vida dela volte. Amor que se vai serve de inspiração para letras de músicas, poemas e cartas que nunca serão lidas por quem deveria ser porque não foram enviadas ainda. “A vida é depressiva, mas ela é o que temos e temos de tentar torná-la melhor”. Eu tentei e sinto uma energia de que ainda não acabou, pelo menos por enquanto.

Não queria que você ou nossas vidas virassem folhetim, exemplo a ser seguido ou qualquer coisa artística, mas é que não sei outra forma de fazer Trimmmmm parar. Minhas pernas doem a cada vez que ele soa, minhas mãos estão machucadas por destrancar fechaduras inutilmente e constatar o vazio. Meu amor não tem direção e se bate nas paredes azuis de minha sala (pontos que focam sua passagem) e um silêncio que arrepia os sentidos. Preciso confessar que tenho sentido sua presença em cada detalhe do oco que já existia. Sua presença cumpria também a tarefa de preencher minha casa, porque minha vida seu sorriso já tinha preenchido.

Queria que você observasse que minha escuridão era a forma de dizer que pouco a pouco estava me apaixonando-amando você. Mas o ando significa continuidade e precisa ser zelado para continuar sendo um ando – gerúndio maldito que prega peças. Ando sozinho de novo. Ando querendo saber de você (de novo). Ando querendo encontrar explicações para este Trimmmmm imaginário e essa vontade de continuar andando com você ao meu lado. Desculpe se andava em sua frente. Se eu pudesse voltar ao início, quando vi seu sorriso, pelo menos isso eu mudaria: andaria ao seu lado como deve ser o amor na vida de alguém.

Exagero é pouco e o que vale é a arte (do) final!

 

 

Jaime Neto.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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