Carta para Rafael Galvão

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09 de maio de 2010

 

 

 

 

Querido Rafael, tudo bem?

Espero que sim!

 

 

 

A notícia que trago não é das melhores. Sabe aquele nosso amigo? Separou-se! Um mês, apenas um mês de relacionamento e ele está bastante embaraçado emocionalmente. Uma mistura de falta, saudade, pena e raiva produziram um coquetel degradante que acabou por deixá-lo torpe. Ele anda numa gangorra de sentimentos que só você vendo. Uma tristeza daquelas que até tem fim, mas que demora muito para virar alegria. Uma tristeza Maysa. Conversamos esses dias e ele me falou coisas do amor que me deixaram até receoso com relação ao nosso-velho-batido-amor. Ô palavrinha que pesa porque peca quando não é bem empregada, né? Saí de nosso encontro me achando o maior inocente do mundo, porém ainda crente que existe vida após um amor que acabou. E sei que ele também crê nisso.

 

Rafa, tava pensando e me deparei com uma análise, daquelas sujas que tanto gostamos de fazer quando estamos filosofando. O amor é uma fotografia. Existe a lente que é nosso raciocínio, a maneira como enxergamos as coisas. Existe o clique que são as decisões. E o amor é o registro que vem disso tudo. Se a foto saiu borrada, o amor machucado. Se a foto revelada é bonita, bem acabada, o amor vira referência e às vezes exposição para outros olhos. Amor e fotografia são similares.

 

Só amamos os nossos desejos, isso é certo! Quando jogamos nossas frustrações para o outro esperando um retorno, e só acabamos mais frustrados, batata! Às vezes agradeço a minha vida, porque amor parece me sobrar no peito e se te escrevo isso, meu caro, é porque nós dois sabemos o quanto é difícil ser homem com sentimentos gentis. Rafael, a gentileza acabou, virou artigo de luxo e as pessoas não dão conta disso porque preferem encarar o efêmero a ter que se desdobrar para aceitar que amor e verdade são as mesmas coisas.

 

Nosso amigo passou apenas um mês in love, andou até sumido por aí. Dormindo de conchinha e tudo! Eh, amor faz isso, proporciona calor e o cheiro do outro corpo.  E isso é tão motivo de piada quanto de crítica. A intensidade das coisas não é levada em conta nos nossos dias, tudo ficou relativamente frágil demais. As relações, quando não são intensas, são fúteis e cansativas. Você bem sabe disso, porque amou tanto também. Nosso amigo está um “pouco mal”, como dizem os mais jovens. A linguagem jovial é de uma tolice, porque tudo se resume ao casual. E o casual também sai de moda. Por isso prefiro os tons íntegros. Adoro um preto. Voltando ao nosso companheiro, “o cara” está um tanto temeroso. Sabe que é uma pessoa legal, dentro do que se convencional a ter esse significado, porém não quer ser visto como santo. Na verdade ninguém quer, nem que já foi canonizado. Ele ouviu que era bom demais para ser verdade. Agora me diga que espécie de pessoa chega para outra e diz: “você é bom demais para mim” e faz merda para que o relacionamento acabe. Acho descontrole emocional uma coisa irritante!

 

Depois de um mês, praticamente morando com o amor que se findou, ele está sozinho de novo tendo de enfrentar a rotina que antes era preenchida pelo sorriso do que não existe mais. É engraçado, como a gente se acostuma ao amor tão rapidamente até mesmo quando não queremos isso. Apenas um estalo e já estamos comprando yakisoba no supermercado para agradar a pessoa, como se um macarrão instantâneo tivesse tal poder.

 

Amigo, acho que a salvação de um namoro, por exemplo, não é querer que o outro seja agradado e nutrido em suas necessidades, mas sim a certeza de que o amor em si está sendo nutrido por ambas as partes. Por isso ele terminou. Chorou. Disse coisas do tipo: “Gosto de você, se você me perguntar agora se quero terminar, responderei que não. Porém (e existe também o mas), é preciso acabar. Estamos em vias distintas, quero você e você não sabe o que fazer com isso que lhe dou. Amor é aceitável e guardado e não deglutido. Uma parte de mim é adulta para saber que você não está com disposição para chegarmos ao amor, de fato. E a outra parte está derrotada por saber que sentirei falta de dormir com você me abraçando, me beijando e me fazendo coisas satisfatórias na cama”. Ele me disse que falou isso olhando nos olhos, com o coração apertado demais e com a voz embargada, quase já soluçando. Imagino a cena!

 

Rafael quando nosso amigo saiu, entrei em prantos também. Não falarei sobre isso com ele e peço que você também não o faça, porque não quero render o histórico do desamor alheio. Mas não é fácil ver um amigo sofrendo, ainda mais quando ele usou da razão para acabar com tudo. Uma das maiores pirações do ser humano é querer controlar as arestas do amor usando a razão. Existe um choque, uma fundação de um buraco negro, criação estrelar tamanha a força empregada para controlar o amor assim. Se existe rodeio não pode ser amor, porque este é livre, permite a liberdade do confiar no outro de olhos fechados, com direito a mão no fogo e tudo! Por mais que negasse, ele confiava em seu amorzinho de um mês. Doce abril.

 

Rafa “dizem que o amor faz a gente sofrer”, e começo a acreditar nisso! Escreva-me contando alguma coisa sua também, porque nossa amizade precisa de coisas desses tipos, para sempre que possível constatemos que amizade, amor, carinho, gentileza, raiva e perdão (quando analisados, reavaliados), são peças fundamentais na formação de pessoas melhores. E sem papo de auto-ajuda, que detesto, nós somos formados de um barro bom, que certamente deixará seu legado. Nossa geração não tece grandes desafetos políticos, nem se drogou até dizer chegar, mas cultiva a louca necessidade de pensar na vida enquanto vivemos nossos problemas, sempre buscando soluções. E se você parar para observar somos parte de um grupo de homens que não brinca com os sentimentos porque estamos envolvidos demais, experimentando de todos os modos, um jeito simples de viver o amor – em toda sua plenitude, diferença, crença e acima de tudo, simplicidade. Se aprendi algo esses dias é que o amor é simples e basta você aquecer três minutos, com alguns ingredientes bem pensados para ele vire uma gostosa refeição rápida, segura e saciável. Vamos nos permitir, meu caro amigo!

 

‘Um abraço daqueles’,

 

 

Jaime Neto.

 

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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