CERTEZA DO DEVER CUMPRIDO IV – Um jornal para Augusto Leite

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Capa da edição especial do Jornal da SOMESE sobre Augusto Leite que circulou em 1986.

Estávamos em 1986 e aproximava-se a data do centenário de nascimento do Dr.Augusto César Leite. Setores ligados ao Hospital de Cirurgia instalaram uma comissão para organizar os festejos alusivos à data, formada por Lauro Porto, Antonio Garcia, Roberto Ferreira, José Alves Nascimento, Marcelo Marinho, Osvaldo Leite e João Andrade Garcez, todos representando a Mesa Diretora do Hospital, o jornalista João Oliva o Conselho Deliberativo da Fundação, representando o Conselho de Medicina o Dr.Paulo Carvalho, Ana Cortez representava a Prefeitura de Aracaju, o INAMPS designou Lauro Maia, a Universidade a Prof.Maria da Glória Almeida e finalmente a Sociedade Médica de Sergipe, o seu presidente, Dr.José Hamilton Maciel Silva.

Nossa diretoria tomou para si a tarefa de produzir uma edição especial do incipiente Jornal da Sociedade Médica e fui encarregado de comandar esse processo. Confesso que não me sentia à altura da empreitada pela pouca experiência na área, como começar, o que procurar, quais as fontes disponíveis. Recorri então ao Dr. Antonio Garcia, médico que conviveu com Augusto Leite em momentos importantes da nossa medicina, auxiliando-o como anestesista e participando dos grandes momentos do Centro de Estudos do Hospital de Cirurgia. Garcia então me entregou o discurso proferido por ele à beira do túmulo de Augusto, quando do seu sepultamento em 1978, do qual transcrevo o último parágrafo: “Estrelas do céu, emparelhai-vos! Iluminai de luzes e cores as avenidas dos astros! Ontem, como Mme.Bertrand, entre lágrimas, parara o relógio para perpetuar a hora da morte de Napoleão, as forças cósmicas anunciavam, simbolicamente, o passamento de outro condutor. Não o passamento – mas a passagem; não a passagem mas a Páscoa. Recordações na Terra dos Homens. Cânticos divinos na Terra do Senhor. Augusto, repousai em paz!”

A partir do trabalho e  das indicações de Garcia, comecei a buscar novas fontes. De Juliano Simões consegui o discurso que fez na Casa de Sergipe no Rio de Janeiro em 1970, onde esteve representando o Dr.Augusto, que não pôde comparecer à solenidade em sua homenagem por motivo de saúde. Assim se sucedeu com outros pronunciamentos, como o de Lauro Porto, na missa de corpo presente do cirurgião. “ Não trago para aqui, Dr.Augusto, a sua biografia, explorando os diversos ângulos de sua personalidade à qual estive ligado por uma longa e verdadeira amizade. Trago sim o último adeus da Mesa Administrativa do Hospital de Cirurgia, que atualmente tem o seu nome, e de quantos aqui trabalham – colegas, discípulos,enfermeiras ou simples funcionários – e destas vetustas paredes, transformadas num templo que abriga, no momento que o mestre parte para a Bem-Aventurança, o grande e belo ideal de uma vida. Adeus insigne mestre e caríssimo amigo”.          

De Walter Cardoso, com sua expressa e generosa autorização, transcrevi o capítulo IX – À Sombra dos Amigos, de “Vida e Tempo, livro de memórias que ele ainda iria lançar. Incluí ainda artigo escrito por José Maria Rodrigues Santos especialmente para a presente edição e o discurso proferido por Canuto Garcia Moreno, então presidente da SOMESE, em 1959, homenageando Dr.Augusto por ocasião do seu Jubileu de Ouro de formatura, em solenidade ocorrida no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Foram incluídas ainda as manifestações de Paulo Freire Carvalho, como presidente do Conselho Regional de Medicina e de José Carlos Pinheiro da Silva como diretor do Hospital Santa Isabel.

Paralelamente à preparação do jornal, eu estava fazendo um trabalho de montagem de alguns diapositivos para um trabalho pessoal com o fotógrafo Lineu Lins de Carvalho em sua residência e comentei com ele sobre a nossa tarefa. Ele então me disse: – espera aí, que vou lhe mostrar uma coisa. E  me mostrou um rico acervo de fotografias do Dr.Augusto Leite, a maioria delas colhida pela visão artística e insubstituível do talento de Lineu, quando o cirurgião comemorava seu 80º aniversário, algumas delas tiradas em sua mansão da Avenida Barão de Maruim, onde hoje funciona agência da Caixa Econômica. A histórica casa de Dr.Augusto Leite, de belo estilo arquitetônico, desapareceu rapidamente do mapa da cidade da noite para o dia, numa ação predatória relâmpago. Uma perda irreparável para o patrimônio histórico sergipano. Pois bem, Lineu gentilmente  cedeu a foto que ilustrou a primeira página do jornal especial da Somese. As coisas estavam se arrumando…

O episódio contado por Gileno Lima, ele que foi o artífice de um dos momentos mais marcantes da medicina de Sergipe, o do retorno de Augusto Leite ao Hospital Santa Isabel para inaugurar o centro cirúrgico com o seu nome e comemorar o cinqüentenário da primeira laparotomia de Sergipe, compôs galhardamente a última página. O relato de Gileno foi impressionante e somente possível de acontecer graças a sua obstinação e persistência, do seu compromisso com a classe médica e seus vultos, costurando ponto a ponto as ações para que o velho cirurgião voltasse a percorrer as largas enfermarias do centenário nosocômio. Gileno escreveu de forma emocionada essa conquista, que não deve ter sido fácil e o jornal publicou com exclusividade a matéria.

Com o jornal quase pronto, fechando a edição, escrevi as seguintes palavras, publicadas na página 2. “Que fascínio poderia este homem exercer sobre toda uma geração? Que fascínio poderia exercer este médico sobre seus inúmeros pacientes? Onde conseguia arregimentar forças para desempenhar suas tarefas pioneiras? Mergulhei no passado para tentar responder a essas indagações que muito me intrigavam. E dele saí com a certeza de poder resumir tudo numa única frase: “Ação e amor ao trabalho”.

No dia da missa campal ocorrida no pátio externo do  Hospital de Cirurgia, à sombra da velha e exuberante amendoeira, às 8 horas da manhã do dia 30 de julho de 1986 e durante a solenidade que se seguiu com os discursos de Antonio Garcia, representando todas as entidades culturais e João Cardoso do Nascimento Junior em nome do hospital, o jornal enfim foi distribuído de mão em mão com excelente receptividade. Depois passou a ser instrumento de pesquisa e referência para outros memorialistas. Mais recentemente o Dr. Marcos Almeida, ao ser empossado no Movimento de Apoio Cultural “Antonio Garcia Filho”, da Academia Sergipana de Letras, na cadeira de Augusto Leite, referiu-se à publicação como fonte importante de consulta. Um exemplar desse jornal encontra-se à disposição dos interessados no Museu Médico de Sergipe.

A edição especial do Jornal da SOMESE, da qual tive o privilégio de atuar como repórter, fotógrafo, diagramador e diretor, foi composta, diagramada, paginada e impressa na gráfica do jornalista Ivan Valença, que acompanhou passo a passo toda a produção da edição de 12 páginas e que foi uma das ações mais importantes dessa nova administração na SOMESE – “Trabalho e Renovação” – e para mim, uma realização pessoal extremamente gratificante, não somente pelo resultado final, mas porque tive a oportunidade de conhecer, como disse, um pouco mais sobre a vida e a obra do grande médico fundador do Hospital de Cirurgia.

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