Comissão de Bobagem.

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A notícia é recente: o corpo do jovem Jonatha Carvalho dos Anjos, estudante de 16 anos, foi localizado à margem da estrada Japoatã-Neópolis, jogado dois metros apenas, em adiantado estado de putrefação.

O menor estava desaparecido desde o “fatídico dia 13 de março”, quando atendendo a um convite de um seu primo, Ricardo André Carvalho Pimentel, o Fofo, de Eraldo Santos de Jesus e de Anderson de Jesus Oliveira, os quatro se dirigiram do Conjunto Eduardo Gomes em São Cristóvão, proximidade do Campus da UFS, à cidade de Neópolis, margem cálida do São Francisco.

Segundo informação de familiares, a única razão da carona de Jonatha fora um seu desejo de visitar a avó, domiciliada em Japoatã, na proximidade de Neópolis.

Acontece que no meio da viagem houve uma troca de tiros entre o veículo Corça de cor prata e a polícia.

Ricardo André, o Fofo, e os dois de Jesus, Eraldo e Anderson eram procurados por serem os matadores do Cabo da PM, Elder Freitas no dia 1º de março no Bairro Santa Maria em Aracaju.

André Fofo, e os dois Jesus não resistiram aos tiros e seus corpos foram recolhidos e necropsiados no IML de Aracaju, a operação se configurando em sucesso de resultados, com apreensão de armas e encômios merecidos da sociedade.

Dir-se-ia que um excesso saneador foi empregado para a efetiva profilaxia do crime; igual ou parecido àquele de 1938, quando o Tenente Bezerra despachara Lampião e seus bandidos dos Angicos para os pícaros da glória nacional, ou agora, mais recentemente com a polícia francesa eliminando o terrorista Mohamed Merah.

Se no noticiário francês o assassino caiu sozinho atingido por dezenas ou centenas de balaços, no feito sergipano o Corsa prata restou incólume; intocável, até por raspão, por relato escrito do jornal.

Acontece que ficou faltando o corpo de Jonatha, o carona presente no local errado e em companhia marginal, e agora, onze dias após o entrevero foi encontrado em adiantado estado de putrefação, “com uma pancada na cabeça, um tiro na testa e parcialmente queimado a oito quilômetros afastado do cenário do tiroteio”.

Metralhas à parte, é preciso ressaltar para lamentar, que estamos a viver no estado democrático de direito, sem esperanças de mudanças e sem utopia de melhoria.

Porque a utopia é agora e vivemos no fim da história.

Pensar dissente ou discordante é raciocinar inconsequente, intolerante. Ser mesmo um delirante, um delinquente contra esta belíssima conquista de liberdade atual, a “constituição cidadã”, contra a qual ninguém pode falar mal ou rejeitar, afinal pelo convencimento de bom mocismo e de suavidade, o lobo será, logo, logo, um frugal vegetariano.

Um tema que suscitará variada reflexão, afinal um ocorrido em pleno estado de direito que se preza merece ampla discussão de becas negras, seu burburinho em juridiquês galimatia, para suscitar só pareceres vazios e votos inúteis.

Mas, eu não quero falar desta vacuidade. Desejo falar de outra inutilidade, não tão principescamente remunerada, mas ociosamente recompensada.
Quero falar da “Comissão da Verdade”, bobagem que, por ressentimento e revanchismo o governo federal criou, e o estadual, simiescamente o imitou, para garimpar cinzas na busca de heróis e mártires, frente à sanha cruel dos esbirros opressores, sempre uma serventia disponível, para a eliminação daqueles de pouco agrado.

E haja desagrado de pesquisa inútil! Porque, ó grande lamento! Não vão encontrar um herói; unzinho sequer, quanto mais um cadáver de mártir para carpir, um injustiçado que não tenha padecido o que provocou. Pelo menos em terras de Serigy!

Vão encontrar sim, o que já é comum e de conhecimento geral; uma forte cepa de parasitas, que sob beneplácito desta abençoada “perseguição reacionária”, logrou franco acesso às burras do poder, seja nos bons empregos, nas indenizações indecorosas, seja nos cargos comissionados; tudo sem prova, sem concurso, sem mérito, ou que não foi aferido assim, como deveria ser. Sempre!

Mas, seria interessante que esta comissão de bobagem desvendasse o nome dos torturadores e desmistificasse os heróis e os que não foram tanto; em atos e desatos.

Porque cárceres, todos sabemos que os há em qualquer dependência militar, seja do exército da marinha, da força aérea ou da guarda policial. E detenção para averiguações sempre acontece, sobretudo nestes momentos de exceção onde a denúncia é exercida como supremo cabotinismo e pusilanimidade.

Ora, neste particular, da covardia, quantos “pariram” a revolução de 1964 e saíram em busca de caça aos comunistas.

Ah comunistas! Quantos tolos foram entendidos como pessoas perigosíssimas para a segurança nacional! Homens simples, toscos, menores, sem qualquer expressão social, importância e liderança, mas denunciados e custodiados por um misto de piada e ignorância, e que hoje só por isto, e por conta desta insolvente insolência, são vistos como heróis, e desenterrados estão das suas respectivas inutilidades.

Só por possuírem um ideário equivocado, como se verificaria em releitura posterior com o povo derrubando o muro de Berlim, ávido pela economia de mercado?

Se há tantos torturados, quem são os seus verdugos? Estarão vivos? Estarão mortos tais impiedosos carcereiros?

Ah, foram os militares! Repete a massa de desinformados a contar milhões de justiçados e seus cadáveres insepultos.

Que me amparem as ditaduras de Hosni Mubarak no Egito, Hafez Assad na Síria, Muammar Gaddafi na Líbia e Fidel Castro em Cuba em seu amplo genocídio de rastro, só para falar destes que são do noticiário atual, e confrontar com a brandura dos nossos generais presidentes.

Como foram brandos! Como foram ternos! Que seja cotejado assim, sobretudo com a resistência à prisão de Ricardo Fofo, os dois de Jesus e o adolescente Jonatha que morreu de graça.

Pois é! Nem de graça esta comissão vai encontrar um sergipano morto por operação cajueiro, carambolice ou urucueiro!

Não seria esta tal operação cajueiro uma invenção tola de um torturador do imagístico e do imaginário, alguém próximo do bestiário de Beto Carneiro, o vampiro brasileiro de Chico Anísio?

E aí eu me lembro das crônicas notáveis de “O Reacionário”, onde a genialidade de Nelson Rodrigues encontrou seu melhor tema: a grã-fina das narinas de cadáver, a freira de minissaia, a passeata dos decotes, o padre de assembleia e as entrevistas com a cabra vadia. Tudo aquilo que os equivocados de então provocavam a reação.

Reação que veio benéfica, porque soube conter os excessos, pacificar a alma nacional, despoluir as más ideologias, afastar os sonhos totalitários de tantos quantos hoje posam de alto fervor democrático, quando eram golpistas e totalitários.

E assim a Comissão da Verdade, se conseguir depurar o “vero do trovato”, irá pedir perdão às nossas forças armadas que não podem ser envergonhadas nem enlameadas pelo bem que cometeram à nação, agora crescendo sem percalços e sem agitações radicais.

Radicalismos insepultos à parte, melhor seria que este país criasse uma Comissão de Verdade e não da “Verdade”.

Por que; o que é a Verdade? Perguntou Pilatos ao Cristo que não respondeu.

Será verdade aquilo que os governos federal e local pretendem extrair da ganga fossilizada a revolver em busca da ossada não havida, mas tida como perdida?

Ou será mais um engodo, entre tantos verberados em discursos vazios, para enfrentar a descrença crescente com os métodos empregados pelos governos atuais?

Uma Comissão de Verdade poderia bem melhor repensar o país. Fazer uma reflexão para frente, para o futuro, não uma masturbação medíocre do que passou. Punheta que não traz mais gozo nem fertiliza.

Uma Comissão de Verdade desprezaria o ensaio e erro da experimentação, e buscaria a racionalidade com políticas de seriedade, defendidas por partidos sólidos em consistente representatividade.

Por acaso é sério um governo que estimula o parasitismo, a irresponsabilidade administrativa, a repartição predatória entre despreparados e incompetentes, numa miríade de partidos políticos, com o escambo norteando a governabilidade?

Ah, sempre foi assim! Dirá o safado que se quer limpo pelos erros de outrem.

É mentira! Não foi não! Que sejam pesquisados todos os governos desde Celso Carvalho, Lourival Baptista, Paulo Barreto de Menezes, José Rollemberg Leite, Augusto Franco e até João Alves Filho, em seriedade, lisura e criatividade, tudo o que perdurou no regime militar inaugurado em 1964 e findo em 1985.

Depois de 1985 é que a coisa degringolou, sobretudo com a excrescência da reeleição introduzida na Nova República.

Ou não está pior assim, com a governabilidade virando sinonímia de molecagem?!

Mas a Comissão de Bobagem virá. Não tenham dúvidas! Um troco, uma propina, uma gratificação sempre podem advir da sua defesa.

Se da Ditadura Militar Sergipe não temos nenhum cadáver a carpir e honrar, que pelo menos não se gargalhe com o menino Jonatha abatido na hora errada e em pior companhia.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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