Confuso e obtuso

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Quando estava para lançar um livro reunindo algumas crônicas, me perguntava que nome daria que traduzisse o contexto ali reunido. Daí surgiu o “Despercebido,… mas não indiferente”, uma coletânea de textos que ao seu tempo não passaram tão despercebidos, como o próprio título ensejaria, mas que revelam, sobretudo, que eu não passara na indiferença dos inertes, sem opinião e sem posição, diante das discussões da minha circunstância.

 

Quem folheia algumas páginas do “Despercebido” ali encontra uma seção chamada “Arriscando a levar pedrada”, na qual eu listo vários artigos sobre temas polêmicos feitos no calor de grande euforia e paixão, igual ao que vivemos na vizinhança de uma eleição, em que o difícil é permanecer em apatia.

 

E assim, porque minha maneira de pensar recusa a sonolência e a insensibilidade, vez por outra estou a emitir opiniões que desagradam e suscitam reações raivosas. Às vezes chego a receber recados telefônicos irados. Dizem que eu quero ser diferente. Que eu devia pensar diferentemente, sobretudo de uma maneira coincidente com o que a maioria está a verberar.

“No caminho dos elefantes” (Elephant Walk, 54 EUA, Direção William Dieterle, com Elizabeth Taylor, belíssima, Dana Andrews, Peter Finch). Divulgação

 

Sou um descrente destas ruidosas maiorias que gritam e derrubam tudo o que se lhes surge pela frente.

 

Quando isso acontece, relembro um filme antigo, romântico, mass bobo, intitulado “No caminho dos elefantes” (Elephant Walk, 54 EUA, Direção William Dieterle, com Elizabeth Taylor, belíssima, Dana Andrews, Peter Finch e outros). Ali se vê uma mansão formidável sendo destruída por um desembesto de elefantes, em um desastre previsível e esperado, tudo porque aquela casa absurdamente fora construída na trilha daqueles colossos sedentos em demanda de um lago.

 

Ou seja, homens e elefantes quando desembestados são incapazes de contornar e se desviar, e assim destroem tudo o que lhes surge pela frente.

 

Mas diferentemente dos elefantes os homens esquecem rápido e têm a memória curta, e assim se ofendem, na certeza do perdão e do esquecimento. Uma coisa terrível, porque isto enseja também a banalidade do cometimento do mal.

 

Neste particular, citem-se os grandes movimentos de intolerância do humano. Das fogueiras em que o Credo do Concílio de Nicéia foi imposto com o extermínio dos discípulos de Ario, na igreja pós-Constantino, às caças às bruxas medievais, aí incluindo também Joana d’Arc, que depois virou santa, por bandeirao Giordano Bruno e Galileo Galilei ensejando que é perigoso ter razão contra os poderosos, e até a mãe de Johann Keppler, o idealizador das órbitas elípticas para os astros.

 

Neste elenco citemos também os massacres de protestantes por católicos como o da noite de São Bartolomeu na França, num tempo em que aquele povo com sua fé estava querendo colonizar o Brasil. E, diga-se em acréscimo, por conseqüência ou inferência talvez, que somos hoje de descendência portuguesa, porque aquele massacre inviabilizara o sonho da França Antártida de Nicolas de Willegaignon e do Amiral Coligny. Só para mostrar que de um massacre pode surgir também outras coisas, em mal ou em bem.

Enfim as intolerâncias humanas rotineiramente retornam ao noticiário.

 

Na última grande guerra, a intolerância nazista promoveu muita destruição, choro e miséria. Depois ninguém fora culpado, do alto oficialato, ao soldado menor, passando por todo o povo que tudo vira e referendara. E como a imagem no espelho deprimia, melhor foi banalizar o mal escondendo-o na covardia presente, limitando-o aos seus mandantes, como se aos mandados só restasse o cumprimento das ordens.

Julgamento de Adolf Eichemen em Jerusalem – 1962

 

A filósofa judia e alemã Hannah Arendt, que sofrera na própria pele a intolerância nazista, descreve-a com maestria no livro “Eicheman em Jerusalém”, analisando o julgamento ocorrido em Israel, em 1961, e a execução deste carrasco nazista, por enforcamento em 1º de junho de 1962, fala muito bem deste caça às bruxas e do que cunhou como “banalização do mal”.

 

A própria Hannah Arendt sofreu muitas críticas por sua análise do julgamento de Eicheman, ao afirmar que o grande exterminador dos judeus não era um demônio e um poço de maldade (como o entendem os activistas judeus), mas alguém terrível e horrivelmente normal.

 

Um típico funcionáro burocrata que se limitara a cumprir ordens, com zelo, sem capacidade de separar o bem do mal. Uma perspectiva que lhe ensejaria muita crítica virulenta das organizações judaicas que a taxaram de falsa e insinuaram-na como um exemplo da cumplicidade dos próprios judeus na prática dos crimes de extermínio nazistas.

 

Mutatis mutantis, uma eleição como uma guerra enseja também a caça às bruxas e os patrulhamentos ideológicos. É uma conseqüência da pequenez humana, da miudez do ser, que se vê engrandecido numa vitória de seu cordão de pastoril.

Hannah Arendt (1906-1975)- Filósofa judia que bem sentiu o pêso da intlerância.                                          “O mais radical revolucionário tornar-se-á um conservador no dia seguinte à revolução”.

 

Na última eleição, empolgado com a obra portentosa da ponte Aracaju – Barra dos Coqueiros escrevi o artigo “O Lume e o ciúme da ponte Aracaju-Barra”, publicado no Jornal da Cidade.

Infelizmente a minha opinião incomodou a muitos amigos. Queriam que eu virasse petista a fio de espada e repique de sino.

 

Uma amiga muito querida que se enciumou com o lume da ponte bradou pra minha mulher esta pérola: “Tereza, minha querida, como é que Odilon escreve um artigo daqueles? Comprido, grande demais, que ninguém entende: péssimo, confuso”. E eu ao saber me acrescentei: “obtuso”. E prosseguia gritando mágoas esta amiga, que continua ainda um poço de doçura; “Tereza, minha querida, Odilon só para você mesmo que agüenta!”  

 

Hoje, passado tanto tempo de mudança sem mudança, ainda estou sem entender se aquela decepção estava a insinuar um desejo que a minha Tereza me largasse só por causa de uma eleição. 

 

Confesso que só não fiquei de todo incomodado, porque de longas datas eu só quero ser agüentado por Tereza. Mas que, lembrando ainda, incomodou bastante. É verdade! A ferroada de um marimbondo amigo doi muito mais que o afago do inimigo.

 

Mas, a despeito do que passou, pretendo continuar “confuso e obtuso”, escrevendo para o entendimento de poucos, só querendo ser querido e bem amado por Tereza.

 

Dito isto, deixemos esta coisa de amar e ser amado, e voltemos aos julgamentos motivados por paixões e por torcida.

 

Infelizmente, quando não se é do bloco, do partido ou do pastoril, o homem sério vira escárnio de torcida, por rebotalho e incômodo. Sim, porque os homens são sérios ou não. E os homens sérios viram refugos, por incômodos.

 

Mas os homens, repito, são ou não são sérios. O resto é conversa.

 

Uma derrota, um afago, um sorriso podem nos incomodar ou agradar, mas nada acrescenta à nossa cota, entendendo-se por cota, aquela dimensão vertical nos desenhos que torna o ser retilíneo e sem dobras, do servil e do ser vil. Cota de quem não se envilece nem se enaltece com o erro. Dimensão maiúscula de quem erra e sabe se levantar, para ousar tentar seguir sem errar. Uma ousadia impossível, talvez, mas buscada como se tudo fosse possível, inclusive combater quixotescamente moinhos travestidos de gigantes.

 

Seguir-se afirmativamente com seus erros, acertos e sonhos. Mesmo que estes sonhos sejam quimeras inúteis, que nos acusem de “confusos e obtusos”, eis a grande meta.

 

E é como “confuso e obtuso” que sigo o meu caminho. Querendo abrir uma porta onde não existe janela, tentando colher a dúvida que fertiliza, e rejeitando o dogma dos meus gostos.

 

Há! São tantos e tantas coisas de quem não gosto! E há tantos de quem não gosto que são queridos de tantos! Terei eu razão ou já têm eles? Seria minha razão tão desarazoada, só porque muda de mim para o outro, sem com isso mudar de razão? Como dizer que todos têm razão numa luta fratricida sem vivente?

 

Assim eis de novo tudo em calmaria. O que foi é o que será, fala a velha lição que tudo relativiza, amortecendo sonhos, amainando gritos, emudecendo prantos. E o mundo permanece igual, com suas misérias e sorrisos.

 

E o homem que não é elefante na memória, tudo esquece, se empolga e se desembesta.

 

Assim, eis-me de novo, “confuso e obtuso” escrevendo sobre o que quero e sobre o que eu gosto. Confuso e obtuso como muitos.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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