De peito aberto pela madrugada

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No final dos anos 70, quando ainda se podia andar a pé nas madrugadas de Aracaju, a recomendação dos mais velhos era: “Ande sempre pelo meio da rua!”.

A lógica era a de que, caso aparecesse um bêbado ou algum batedor de carteira, o transeunte precavido poderia correr para qualquer um dos lados e escapar mais facilmente por uma das vias transversais.

Aí a gente abria a camisa pra dar um ar de certa malandragem e ia calmamente sentindo a brisa da madrugada. No silêncio da rua deserta, só os nossos passos eram ouvidos. Se a gente pudesse passar no “bar do meio” pra comprar cigarro ou comer um misto quente com a famosa vitamina de banana, aí era que o cansaço desaparecia e a caminhada ganhava um sabor de vitória, quase um grand finale da noitada, digamos assim.   

“Bons tempos aqueles”, quando ainda se temiam bêbados na madrugada e batedores de carteiras.
Hoje, com policiais matando jovens em festas onde deveria reinar só a alegria, assaltantes agindo em plena luz do dia sem se intimidar com mais ninguém, menores infratores fugindo das instituições criadas para reintegrá-los ao convívio social e gangues de motoqueiros agindo contra motoristas permanentemente assustados, não dá nem pra sonhar em caminhar pela noite de Aracaju.

Ex-governadores, políticos bem pagos e autoridades em geral podem contratar seguranças e até brindar seus carros se assim o desejarem. A classe média se aperta um pouco, mas acaba instalando uma cerca elétrica, um portão automático, ou no mínimo, sobe o muro e enche a casa de grade.

Mas, e quem não tem dinheiro pra pagar por nada disso, como faz para se proteger nessa cidade? Fica entregue ao “Deus dará”, seria a resposta. Aracaju sempre foi conhecida pela sua tranqüilidade. Ainda hoje, boa parte dos turistas que nos visitam procuram um lugar tranqüilo para comer um caranguejo, dar um cochilo sossegado depois do almoço e poder passear pelas ruas sem medo de ser ferido ou morto num assalto.

Só que, com as insolúveis brigas internas na área da segurança, as perspectivas são as piores possíveis. A fogueira das vaidades é imensa e acaba ninguém se entendendo. Quem paga mais uma vez é o cidadão.  

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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