Déda e o poder

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Marcelo Déda começou o seu mandato de governador de Sergipe com uma virtude pouco encontrada em governantes que têm um histórico de esquerda: é um diplomata. Cumprimenta a todos, indistintamente, com um calor contagiante, mas é distante, muito distante de seu secretariado. Na festa dos 80 anos de Seixas Dórea, com a presença de ex-presidente, ministros e governadores, vi o seu secretariado, quase todo ele, ao fundo, e o Governador sem se aproximar em nenhum momento dos mesmos. Mas isso é apenas um detalhe. Pertinente o discurso do Ministro da Defesa, Waldir Pires, que disse entre outras pérolas  que ‘não existe democracia, quando os desejos não são satisfeitos”. Eu que já era  fã do ex-governador da Bahia, vi no seu discurso um misto de humanidade profunda e visão ímpar de política, com voz serena, pausada, quase um monge. Marcelo ali permaneceu sem se deslumbrar com o cargo de governador, o que é mais uma qualidade sua, sem forçar a barra à nada, na dele. E foi assim que vi a primeira vez do governador em público, num recinto fechado. Ao contrário do seu Prefeito Edvaldo Nogueira ele não se excita muito em público, mantém uma postura comedida e olha para tudo, faz sinais com os olhos, com as mãos, arqueia as sombrancelhas e mesmo com seus seguranças mastigando em público em coquetéis, ele finge que não vê e é quase um Lobsang Rampa levitando no cargo que o povo lhe conferiu.

No decorrer do seu mandato há conversas de secretários que o exaltam em artigos, jornalistas idem, mas ninguém nunca perguntou a Déda se a cara do seu secretariado é realmente a sua, se é o que ele queria. Não chega a ser um mingau de caroço, mas todos sabem os nomes dos acomodados que chegam depois das dez no trabalho, adoram viajar e dar entrevistas, mas que não têm projeto nenhum para o Estado, esperam que o Governador diga o que eles têm de fazer, mas estão ali por isso ou por aquilo. O que há de se analisar neste frisson todo de cadeiras é que Déda está preocupado neste exato momento  onde acomodar José Eduardo Dutra, seu fiel escudeiro, homem que chegou à Petrobras e ao senado por méritos pessoais e indicações, mas que tem no governador uma fidelidade recíproca. Com o anúncio de Marta Suplicy para o Ministério do Turismo, no lugar de Valfrido Mares Guia, Déda sente na pele a dificuldade que o Presidente Lula está tendo em compor o Ministério, ficando difícil aí encaixar mais um pedido seu, no caso para José Eduardo. Mas Lula, como Déda, quando quer, não está nem aí para partidos, maioria na Câmara ou no Congresso, ele nomeia e pronto, quer ver o amigo feliz. Esta forma de governar doméstica, quase familiar é uma das características visíveis do governo. Quando queimaram Marta, uma mulher capaz de mudar São Paulo, mesmo com os equívocos, ficou claro como a mulher ainda é discriminada no poder, só porque não quis mais viver com o senador almofadinha e escolheu um Favres, fino e para lá de bem humorado. O que se vê é que quando Déda não dá oportunidade a ninguém que não seja engajado de fazer parte do seu Governo, mesmo aqueles cargos miseráveis de assessoria de 800 reais, é que existe, no fundo, um ranço ditatorial profundo no que o Governador mostra e no que ele executa de fato. Soube de casos de coisas pequenas, tipo pessoas que executam um trabalho primoroso, mas que foram colocadas à margem, mesmo não tendo trabalhado em prol do Governo anterior simplesmente porque usam Gucci ou viajam à Europa duas vezes no ano. O que fica claro é que soluções são encontradas na Prefeitura e Governo quando o interesse perpassa pelo pessoal e quase familiar. Isso é mais que notório.

Déda, dono de um bom gosto extraordinário, apesar de morar num prédio classe média agradável sem ostentação, contratou para somelier do palácio um homem de notável saber em vinhos e um chef de cuisine perfeito. Mas nas suas recepções nota-se ainda a falta de um savoir-faire , mobiliário e prataria de gostos duvidosos e um quê de despojado beirando o mau-gosto. Mas faça-se justiça: Déda sabe como é importante saber receber e tem se esforçado, mas…

Suas idas a eventos, oficiais ou não, nem sempre têm fotógrafo, não há um registro de tudo que o governador faz e é até compreensível que na homenagem à Inácio Barbosa ele estivesse de terno e gravata podendo estar apenas de paletó, num calor daquele de Aracaju matinal.

Não há em Déda, na dimensão do cargo que ocupa, ainda uma política de comunicação bela do Governo, e mesmo o coração utilizado na marca não passa a imagem de um Déda que chegou ao Governo depois de uma trajetória sofrida de lutas.

O fato é que se Déda não quer nomear inimigos e agora ouve Gilmar Carvalho a dizer que “não se governa com inimigos”, esquece o mesmo que o seu governo é laico, é dos sergipanos e lembro-me de uma frase sua após a vitória: “não há verde, não há vermelho. A cor é do povo sergipano”. Na frase isso é belo, na prática não existe.

O que verifica é que mesmo com o coração vermelho nas peças publicitárias, a imagem que tenho de um Déda é de uma marca mais de ação, já que ele tem agido tanto mais pela razão do que pela emoção. Parece-me que mesmo com uma política sóbria de comunicação sem querer ser agressiva, ele precisa neste momento de uma campanha para os quatro anos mais comovente, convincente,  sem precisar ter coração, nem flores e moringas como a da Prefeitura.

Há uma história fantástica de César Maia, no Rio. Ele procurava os críticos do seu governo para ajudá-lo. Enquanto os presidentes de associações o denunciavam nos programas de rádio, sua assessoria buscava estes mesmos opositores para o diálogo. César queria ouvir e buscar a solução. Agora, com Sérgio Cabral  é também assim. Ele sai, vai aos hospitais pessoalmente, reage a uma primeira emoção de um eleitor e o convida para o seu governo. Diz até que é a favor da legalização da maconha. Tirou celulares, carros oficiais, gastos de secretários com correios, assinaturas e outras cositas mais. É certo que Déda também o fará, reagirá a todos esses vícios de passagens, almoços, recepções e incorporações duvidosas. Mas não é só isso.

O que penso do poder de um Governador é que nem tanto ao mar, nem tanto a terra.

Há uma cena no filme “Boa Noite, Boa Sorte”, onde um âncora de Tv  entra em confronto com o senador Joseph McCarthy ao expôr as táticas e mentiras por ele usadas em sua caça aos supostos comunistas. Dirigido por George Clooney (Confissões de uma Mente Perigosa) o filme é um convite ao ideal que se busca, apesar de todas as dificuldades encontradas. O que se vê é que num governo,  como numa empresa poderosa ou numa religião ou mesmo numa família não pode haver preconceitos, ações que fogem ao princípio de civilidade e humanismo, até porque tudo é passageiro e ilusório, cabendo ao máximo de humanidade concebido a cada gesto o valor maior do ser. Voltando a “Boa Noite, Boa Sorte”, o foco está no jornalista Edward R. Murrow (David Strathairn), apresentador de um programa de entrevistas na rede CBS, entre os anos 40 e 50, que se pautou por um rigor incomum na investigação de suas reportagens – uma característica que deveria ser inerente à profissão mas, como se sabe, não o é, ainda mais em tempos de discussão ideológica maniqueísta como no macarthismo. Crítico em relação à caça aos comunistas, reais ou imaginários, promovida pela famosa comissão liderada pelo senador, o jornalista Murrow abriu espaço a vítimas desta perseguição em seu programa e virou, ele mesmo, alvo de McCarthy. Há uma cena antológica em que o dono da CBS chama Murrow para dizer que ele não poderia expor a empresa dessa forma. Depois, de muito pensar, diz que Murrow pode continuar seu trabalho, que ele não chegou até ali, dono da CBS, para punir ninguém. Talvez seja isso.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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