Déda se sublimou

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Antes uma explicação. Sublimar pode significar: tornar sublime, exaltar, engrandecer; ou, figurativamente, purificar, expurgar de toda imperfeição ou impureza; na física, a sublimação define a purificação da matéria; freudianamente falando, sublimar significa, grosso modo, transformar a baixeza das paixões da carne em matéria-prima de coisas sublimes.

Na segunda-feira, o governador Marcelo Déda sancionou o projeto de empréstimo de R$ 567 milhões do Programa de Apoio ao Investimento nos Estados (Proinveste). O fez num ato público carregado de simbolismos. Até as fotografias do evento mostram um homem forte equilibrado sobre um corpo fragilizado pela doença terrível que o consome há meses. E o retratam cercado pelo seu algoz, o senador Eduardo Amorim (PSC), e os principais adversários, o hoje prefeito João Alves Filho (PFL), o vice-prefeito José Carlos Machado (PSDB), a presidenta da Assembléia Legislativa, Angélica Guimarães (PSC), e o líder da oposição no parlamento estadual, Venâncio Fonseca (PP).

Os mais importantes aliados de Déda não estavam presentes, o vice-governador Jackson Barreto (PMDB) e o senador Antonio Carlos Valadares (PSB), como também se fizeram ausentes os deputados estaduais Francisco Gualberto e Conceição Vieira, ambos do PT. Jackson estava na inauguração da biblioteca do campus da UFS em Lagarto e Valadares coordenando uma visita técnica ao Maracanã. Coincidência?

A verdade é que ambos estão às turras com Eduardo Amorim, que, na última aprontada, quis tomar para si a paternidade do investimento de R$ 102 milhões que o governo federal vai fazer no Baixo São Francisco sergipano através da Codevasf. O suficiente para recrudescer a guerra verborrágica que anima os programas radiofônicos matinais. Até o líder multipartidário Edvan Amorim, que antes se limitava a atuar como uma eminência parda, resolveu soltar a voz. O discurso é monocórdio: mostrar as fragilidades do governo Déda e exaltar as qualidades do irmão e pupilo Eduardo. O pano de fundo é a eleição de 2014.

Mas Déda passa ao largo disso tudo. Essas picuinhas idiossincráticas já não o atingem, embora deva sofrer com o sentimento de culpa relacionado a problemas caseiros, como a crescente insatisfação dos servidores públicos, a maioria deles sem reajuste salarial há dois anos. Nesse assunto, quem cresceu na luta pelos trabalhadores e transformou para melhor a vida de milhares de pais de famílias que militam nas polícias estaduais, deve se remoer de preocupação por não poder fazer nada para dar um alento aos professores e barnabés.

Para Déda, no momento mais delicado da sua existência, quando já assume corajosamente que nem sabe se vai inaugurar importantes obras de infraestrutura em andamento, pouco importa se os Amorim atrapalham seu governo, se Jackson e Valadares estão aborrecidos ou se alguns aliados falam à boca miúda que ele já deveria ter se afastado para cuidar da doença, deixando que Jackson toque e apresse o rumo do barco. Ele só queria estar saudável, ativo, dando continuidade à sua história, prosseguindo com uma biografia política já tão rica para os seus parcos 53 anos: foi um brilhante deputado estadual e deputado federal por duas vezes e venceu as quarto últimas eleições que disputou no primeiro turno, duas vezes prefeito de Aracaju, duas vezes governador de Sergipe.

“Temos sete rodovias para entregar. Não sei se estarei presente, mas vou autorizar o vice a entregar, porque não quero que nada se atrase em função de mim. É claro que tem obras que planejei, que escolhi fazer, como, por exemplo, o revestimento asfáltico de Santa Rosa do Ermírio a Sítios Novos. Meu coração fica pesado porque eu queria estar lá. Muito mais do que estar lá para cortar a fita, muito mais do que por vaidade, eu queria estar ali para ver aquilo que me fez entrar na política, que é o sorriso do meu povo, a felicidade da entrega da obra. A maior dor tem sido essa. Fazer a obra e não colher os sorrisos. No fundo é o maior ordenado que eu tenho, é o sorriso na face dos sergipanos. Hoje fiquem felizes todos, da oposição e do governo, porque os senhores semearam sorrisos. Sorrisos que eu não sei se vou colher, mas, quando forem colher, lembrem-se de mim”,  disse, na parte mais emocionada do seu discurso.

"Não sou capaz de decifrar os enigmas de Deus. Deus é insondável. O que ele está querendo com isso, não sei e nunca saberei. Mas me compete, na história, que é no terreno onde sempre operei, buscar fazer aquilo que me fez Marcelo Déda", filosofou, para o aplauso da maioria e o silêncio daqueles que só se solidarizam no câncer, como diria o mineiro Otto Lara Resende.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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