Democracia de poucos.

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Se dependesse de mim, não haveria o segundo turno eleitoral. Não há motivo para repetir uma eleição só porque a maioria absoluta não foi conquistada. Não creio que um candidato reste melhor eleito se houver um escrutínio em caráter maniqueísta; sem ninguém posando de mal.

 

Mas a tese do segundo turno eleitoral sempre foi exibida pelos eternos golpistas e pelos ingênuos em eco de romantismo quimérico, sobretudo após a redemocratização do pós-guerra quando fora invocada contra a eleição de Getúlio Vargas em 1950, e por causa dela tentou-se negar a posse de Juscelino Kubistchek, que só empalmou o poder mediante um golpe militar.

 

Por outro lado, a legitimidade de um Presidente da República em maioria significativa não tem se traduzido real sucesso em governabilidade.

 

Jânio Quadros, por exemplo, foi eleito por uma notável maioria. No entanto a oposição levou-o à “loucura” e à renúncia, numa tentativa golpista que se frustrou por absoluto desamparo popular.

 

Sete meses de governo transformaram a “vassoura de esperança do Brasil” num órfão do eleitorado, sobrando uma crise político-militar de desenrolar mais que funesto para as nossas instituições.

 

Porque na rejeitada posse do seu Vice-Presidente, João Goulart, ninguém quis lembrar que a sua investidura se fizera em plena legitimidade de votos. Um feito tão notável, quão repelido; porque hoje se encontra enxotado e derrogado da nossa Constituição Cidadã.

 

Diferente de ontem, e só pelo efeito Jango, hoje ninguém mais vota em Vice. O Vice é eleito sem dar a cara à tapa.

 

Mas, o segundo turno tem bem servido à imprensa e aos políticos.

 

Aos políticos que renovaram os seus mandatos, porque já se preparam para fragilizar o executivo em cobranças e promessas. E aos não eleitos pela extorsão de alguma consolação.

 

Quanto à imprensa, a viabilidade de um segundo turno confere a sua visibilidade em manchetes, acréscimo de tiragem de jornais, destaque para o comentário escandaloso e escabroso, tudo o que desapareceria se a maré eleitoral restasse vazante.

 

Dir-se-á que o referendo em dois turnos confere uma legitimidade e segurança. Não o percebo, sobretudo no Brasil, onde nossa história não exibe dignidade e respeito às instituições democráticas, sendo rotineiramente assaltadas em tentativas e tratativas.

 

Que sejam relembradas as agitações da República Velha com o episódio das “Cartas Ofensivas de Artur Bernardes ao Marechal Hermes da Fonseca e ao Exército Brasileiro”.

 

Cartas grosseiramente falsificadas, mas publicadas fidedignamente pelo Correio da Manhã, que delas falou e escandalizou a exaustão, sem menor pejo ou arrependimento, conseguindo não só deslegitimar a própria eleição de 1922, vencida por Bernardes com 56% dos votos válidos, como todos os feitos por décadas à frente.

 

Episódio de consequências funestas, por instigador da desordem, da revolta da tropa, da fissura na hierarquia dos quartéis, manifestada com a revolta do Forte de Copacabana, os levantes Tenentistas, aqui e em São Paulo, a Coluna Prestes, o Estado de Sítio continuado, e tudo o que desaguaria em vários tempos nas aventuras totalitárias; desde 1930 com o desrespeito à eleição majoritária de Julio Prestes, prolongando-se na Revolução Separatista de 1932, nos levantes de 1935, no escabroso Plano Cohen de invasão comunista, antipatriótico fomentador do Estado Novo de 1937, passando pelo suicídio de Vargas, as revoltas de Jacareacanga e Aragarças, o parlamentarismo contra Jango Goulart e o povo, e até os descaminhos de 1964 e 1968, em que os atores faziam escola, uns aos outros em contumácia totalitária.

 

No fundo, no fundo, e a nossa imprensa sulista em particular, todos queremos uma democracia sem povo. Porque, embora se fale o contrário, em verbosidade e demagogia, ninguém acredita no povo, sobretudo a grande imprensa que não se vê por ele bem lida e refletida como o desejaria.

 

E porque o povo resiste em ser domado e manietado por beletristas editoriais, eis o apelo aos brios feridos da classe média, na tentativa de inseri-la no seu proselitismo de atavismo pernicioso.

 

Eis então o segundo turno convocado para curtição de novos embates. Zera-se tudo, porque o que foi não é nada; nem o mote do poeta. Apaga-se tudo como um torneio de várzea, com direito a reclamar e anular no tapetão, porque é bom suscitar um “ai Jesus de Fla-Flus”, agora com menos bandeira e carros de som, em seu desfavor.

 

Tenta-se dividir e antagonizar a alma nacional, em prenúncio de outros embates, oportunidade para reunir os grupos com o único objetivo de fragilizar o resultado, em denúncias e furdúncias, sem que o batido se confesse derrotado, como o deveria, até por cavalheirismo e dignidade.

 

Não vejo, portanto, o segundo turno como algo valeroso e necessário. E ao pensar assim, comparo-o, sobremodo, com o Presidencialismo Tradicional americano em vertente de Thomas Jefferson, e com o Presidencialismo Parlamentar ditado pela França de De Gaulle, porque em ambos os casos, não há a nociva coincidência do pleito eleitoral para o Executivo e o Legislativo.

 

Na França, por exemplo, o Presidente recém-empossado é quem comanda a eleição do novo parlamento, solicitando por necessidade e coerência o respaldo legislativo que irá referendar o seu governo, com direito, inclusive a repetir o pleito se não conquistar confortável maioria.

 

Bem diferente daqui, onde isso seria uma heresia. Daí a constatação de realidade, em testemunho concreto de proximidade: ao vencedor em segundo turno são lhe negadas até as batatas machadianas, só lhe cabendo a cooptação do congresso, em velhas mazelas de tutelas, sem falar da coisa pública rifada por bagatela em bons bocados de repasto em gamela.

 

Assim, porque a uniformidade ideológica dos nossos parlamentos tem sido tingida e macerada nesta mesma nojenta barrela, o governo que virá será mais um governo frágil, padecimento que seria o do Presidente Lula não lhe sobrasse em expressiva maioria o respaldo popular.

 

Portanto, não é o segundo turno eleitoral que confere a integridade e a inteireza de um mandato presidencial. Pelo contrário! Logo e quase antes da posse, lhe surgirão as denúncias escandalosas e as ameaças de impedimento. Não tem sido assim?

 

Ou seja: o segundo turno não representa nada, em respeito e legitimidade. O que é lamentável nesta democracia de poucos.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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