Depois da guerra, a volta para casa

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Marlíbia Raquel de Oliveira
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História da UFPE (PPGH/UFPE).
Bolsista CNPq. Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNPq/UFS).
E-mail: marlibia@getempo.org

Trabalho apoiado pelo projeto "Quando a Guerra chegou ao Brasil: Ataques submarinos e memórias nos mares de Sergipe e Bahia (1942-1945)", Edital Universal CNPq 2014.

Milhões de pessoas acompanharam aflitas o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, após enormes prejuízos para a humanidade houve o reconhecimento da vitória dos Aliados sobre o Eixo e finalmente o cessar fogo. A partir daí, as tropas começaram a ser desmobilizadas e os soldados puderam voltar para suas casas, inclusive os brasileiros.

O retorno dos expedicionários foi um grande evento para o país. Centenas de pessoas aguardaram os ex-combatentes no porto do Rio de Janeiro para lhes dar as boas-vindas. Dias depois, ocorreu na então capital federal o desfile dos cinco Escalões da FEB. Neste momento os pracinhas, apontados como heróis da pátria, receberam honrarias e foram calorosamente aplaudidos por civis, bem como por autoridades político-militares brasileiras e estadunidenses.

As festividades em prol da volta dos expedicionários continuaram em seus estados de origem. No caso de Sergipe, foi criada na capital até uma Comissão Provisória de Homenagem, Assistência e Recepção à FEB.

Sabe-se que os ex-combatentes sergipanos chegavam em pequenos grupos. Esperados com entusiasmo nas estações ferroviárias por familiares, amigos, jornalistas e demais populares, o reencontro era marcado por forte emoção. Abraços. Beijos. Lágrimas. Olhar atento para notar o que mudou na aparência, as cicatrizes que trouxeram da Europa. Isso tudo intercalado com as invocações divinas realizadas em agradecimento ao retorno de cada um deles.

As formas de homenagem foram variadas. O jornal O Correio de Aracaju informa, por exemplo, que o 2º Tenente Dulcelino de Carvalho Tavares foi recebido na cidade de Propriá-SE com um baile deslumbrante, “como nunca visto no município”, um sarau e uma missa encomendada pelo povo na qual compareceram alunos de vários colégios locais, autoridades políticas, amigos e familiares do pracinha.

O referido periódico publicou outras recepções. Nele, é possível também encontrar trechos de cartas enviados pelos pracinhas sergipanos aos seus familiares comunicando sobre o término do conflito e a ansiedade pelo retorno à terra natal. Além disso, o jornal ainda possui entrevistas concedidas pelos ex-combatentes logo após regressarem. Em uma delas, realizada com o ex-soldado Juviniano Vasconcelos, o mesmo relata que ao receber a notícia do fim da guerra ficou tão feliz que sua primeira atitude foi pegar um jeep e sair sem destino certo. Como estava próximo à Suíça, foi parar lá onde comprou um relógio.

Parece algo banal o comportamento adotado pelo ex-pracinha, porém, cabe lembrar que passeios não eram possíveis em tempos de guerra, isso explica a alegria sentida ao poder deixar o acampamento e esquecer um pouco a dura rotina enfrentada no front de batalha italiano.

A euforia em torno da volta dos pracinhas perdurou por algum tempo. Contudo, não tardou para esses ex-combatentes perceberem que nem a sociedade civil nem as autoridades brasileiras estavam preparadas para voltar a conviver e prestar a assistência necessária ao grupo marcado por uma experiência de guerra.

Ao contrário de outros países, o Brasil não havia desenvolvido uma estratégia política visando à reintegração social e profissional desses homens. Os direitos prometidos a eles antes de seguirem para o front europeu não haviam sido garantidos de maneira idônea. Dessa maneira, o retorno da guerra trouxe alívio, mas foi acompanhado por significativos entraves. Assim, o pós-guerra se tornou para muitos um momento difícil, revoltante, para outros, até trágico.

Obs.: Algumas fontes citados no texto podem ser encontradas no Jornal O Correio de Aracaju a partir de junho de 1945.

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