Desastre natural?

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Não se trata de apontar culpado, já por demais conhecido, mas nunca é demais lembrar o mal que o homem causa ao seu ambiente natural e, por conseguinte, a ele mesmo. O homem é o único animal que desarmoniza o lugar onde vive. O maior desastre natural do Brasil não ocorreria se não coincidisse de um fenômeno natural se precipitar sobre uma região tão populosa e vulnerável. Na aprazível região serrana de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, descuidaram da preservação das florestas e boa parte da massa urbana encontra-se em encostas de montanhas ou planícies fluviais. Em áreas de risco.

Especialistas afirmam que a extensão dos danos à propriedade ou do número de vítimas que resulta de um desastre natural depende da capacidade da população de resistir ao desastre. Por óbvio, em áreas onde não há nenhum interesse humano os fenômenos naturais, por mais intensos que sejam, não resultam em desastre natural.

Os riscos são conhecidos e as fatalidades nesses casos são raras hoje em dia. Aquele tsunami ocorrido em 2004 na costa oeste do Índico, provocado por um abalo terrestre submarino, foi uma fatalidade – que resultou em mais de 200 mil mortes. Mas mesmo nesse caso, nem tudo é obra do acaso: a maioria das vítimas vivia em condições precárias de moradia.

Um estudo encomendado pelo próprio Estado do Rio de Janeiro já alertava, desde novembro de 2008, sobre o risco de uma tragédia na região serrana fluminense como a que ocorreu na última segunda-feira e que já resultou em quase 600 mortes. Os municípios mais devastados pelas chuvas tiveram, historicamente, o maior número de deslizamentos de terra.

O estudo apontou a necessidade do mapeamento de áreas de risco, sugeriu medidas como a recuperação da vegetação e informou que as cidades convivem com vários fatores de risco diferentes e poderiam ser atingidas por desastres “capazes de gerar efeitos de grande magnitude”. Mais uma vez, a maioria das vítimas vive ou vivia em áreas de risco. O Estado informou que os parques florestais vêm sendo ampliados, que o mapeamento das áreas de risco foi feito e que faltava “apenas” a retirada dos moradores. Parodiando o craque malandro Garrincha, só se esqueceram de combinar com São Pedro.

Mas ninguém esqueça que, em abril do ano passado, o morro do Bumba, em Niterói, construído sobre um antigo lixão, desabou após fortes chuvas. Mais de 50 pessoas morreram. Em todo o Rio, as vítimas daquela chuva chegaram a pelo menos 256.

Claro que não dá tempo de resolver problemas criados ao longo dos séculos de um ano para o outro ou com ações paliativas. A solução possível chama-se desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro, segundo definição da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pelas Nações Unidas para discutir e propor meios de harmonizar dois objetivos: o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental.

É provável que uma ex-colônia britânica esteja à frente de uma ex-colônia portuguesa nesse quesito. Nas últimas três semanas, o Estado de Queensland, na Austrália, teve suas piores chuvas desde 1893. Mais de 200 mil pessoas estão desabrigadas e 14 perderam a vida. Na região serrana do Rio de Janeiro chuvas menos intensas do que no nordeste australiano provocaram 40 vezes mais mortes.

A falta de investimentos em infraestrutura, as construções irregulares e em regiões de perigo, como áreas de morro e de mananciais, explicam a grande diferença no número de vítimas. Como no terremoto do Haiti, que matou mais de 200 mil pessoas, comparado ao do Chile, de maior intensidade, que matou menos de 1.000. Os dois países estão nos lados opostos na escala do desenvolvimento latino-americano e morreu menos gente no Chile porque ali há um controle urbano maior. Medidas preventivas não eliminam completamente os efeitos, mas os minimizam.

Em visita à região serrana na quinta-feira, a presidente Dilma Rousseff admitiu que as autoridades muitas vezes fecharam os olhos para o problema: “Moradia em área de risco no Brasil é regra, não é exceção. Entretanto, em muitos casos os governos incentivaram”. Há controvérsia?

Certo mesmo é que até nos lugares mais civilizados da Terra o homem interferiu drasticamente no ambiente natural, modificando-o para pior. Agora mesmo nos chega a informação de que a Austrália declarou a extinção de seis espécies de aves nativas.  E que nada menos que 30 espécies de aves foram extintas nos últimos 100 anos naquele país continente, graças, principalmente, à ação dos colonizadores e seus reflexos. Sabe quanto se devastou e se perdeu de ambiente natural até se chegar a essa catástrofe que passa despercebida aos olhos da ganância?

Enquanto isso, em Aracaju, falam do perigo que os gaviões representam. Ora bolas, nós é que certamente os exterminaríamos não fosse a sua capacidade de se adaptar à vida urbana.

Por aqui, exemplo malsucedido de ocupação urbana aconteceu na hoje chamada zona de expansão, onde as lagoas foram aterradas ou tiveram bloqueados por rodovias mal projetadas seus sangradouros naturais, as populares barretas, provocando alagamentos danosos a alguns núcleos residenciais. Ação bem sucedida foi a desocupação, pela Prefeitura de Aracaju, da invasão do Morro do Avião, de onde 404 famílias foram pacificamente transferidas para o novo e bem projetado bairro, o 17 de Março.
Diante da tragédia, sem saber a quê ou a quem recorrer, o homem duvida da benevolência de Deus. Ou então avalia que o próprio homem abusou da natureza, foi longe demais nas suas ambições e na sua irresponsabilidade, e a natureza está se vingando. A natureza não está se vingando: ela está sofrendo!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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