Ditadura e ditabranda II.

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Marcadas em brasa de ferro, na testa e no âmago dos professores Fábio Konder Comparato e Maria Vitória de Mesquita Benevides, na sexta-feira 20 de fevereiro pelo Jornal Folha de São Paulo, as palavras “cínica e mentirosa” levantariam continuados protestos.

 

No sábado 21, sete leitores tiveram suas cartas transcritas; José Rufino dos Santos do Rio de Janeiro-RJ, estranhou a postura da Folha ao cunhar o termo ‘ditabranda’, uma vez que o jornal sempre fizera crítica à ditadura militar. Foi “um ato falho ou uma defesa do regime de Castelo a Figueiredo” (?), gritou. Para Rufino “os nossos torturadores justificavam a nossa ditadura acusando a dos outros”.

 

Carlos Eduardo da Cunha de São Paulo-SP, louvando todas as manifestações anteriores, elogiou sobremodo a opinião vinda de um militar (Paulo Lustoza), por mais “inteligente, mais holística, com menor conteúdo de raiva e de ódio.”

 

Como se estivesse decepcionado, comentou: “Esperava-se que os professores catedráticos tivessem um olhar mais colorido, capaz de reconhecer todas as matizes de um regime autoritário, e que o militar fosse mais branco e preto. Mas só o senhor Lustoza foi capaz de reconhecer que a nossa ditadura foi muito diferente das ditaduras de Fidel, de Stalin, de Hitler ou de Mao. Aqui não houve culto a personalidade, embora tenha havido violência e injustiças. Aqui não houve milhão de mortos nem fuga em massa para o exterior. Todos esses regimes se enquadram na definição de ditadura, mas as cores e a profundidade da falta de liberdade foram completamente diferentes.”.

 

Diferentes na cor e no matiz da liberdade, Gofredo da Silva Telles Júnior, professor emérito da USP e a advogada Maria Eugênia Raposo da Silva Telles protestaram: “Qualificar a ditadura militar de ‘ditabranda’ é insuportável. Assassinatos, perseguições, torturas, prisões iníquas, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes praticados naquela época por agentes do Estado, A relativização da perversidade desses crimes produz impacto aterrador.

 

E continuaram: “Os professores Fábio Comparato e Maria Victória Benevides merecem o respeito e a gratidão do povo brasileiro pela luta pertinaz em defesa dos direitos humanos. Repudiamos com veemência os termos horríveis da resposta dada a eles neste ‘Painel’ ontem”.

 

No mesmo tom, o jornalista Nonato Viegas de Duque de Caxias-RJ também explicitou o seu protesto: “Ao chamar de ‘cínica e mentirosa’ a ‘indignação’ manifestada pelos Professores Benevides e Comparato, a Folha foi no mínimo deselegante. Não soube lidar com as críticas. Valeria também o cínico e mentiroso para o editorial?”

 

Para outro missivista, o professor Marcos Aurélio da Silva da Geociências da UFSC, Florianópolis-SC; “Esta Folha entornou de vez o caldo, no lugar da autocrítica pela malfadada expressão utilizada no editorial 17/2, de evidentes prejuízos para a cultura democrática, achou por bem agora atacar de modo presunçoso, intelectuais brasileiros de inestimáveis serviços à crítica e superação do regime autoritário aberto em 1964.”

 

Também para Felipe de Amorim de Santo André –SP, foi ”lamentável a forma como a Folha lidou com o protesto dos leitores. Em vez de aproveitar a oportunidade para reiterar o seu compromisso com as instituições democráticas e repudiar todo tipo de autoritarismo , o jornal adotou uma posição defensiva, ambígua e evasiva, indigna do maior jornal do país. Particularmente inapropriado foi usar este espaço para atacar em nível pessoal dois professores universitários, rebaixando-os ao nível de um tablóide de aluguel e manchando a tradição de imparcialidade e a atitude profissional esperada pelos leitores. O que poderia ter sido um episódio menor ia ser lembrado na história da Folha como a semana em que o jornal usou deu espaço para hostilizar seus leitores”.

 

Em contraponto a esses protestos de leitores, imaginados como amplos gerais e irrestritos, a carta de Edmar Damasceno Fonseca de Belo Horizonte – MG externa que os termos “cínica e mentirosa” denunciados pelo jornal nos Professores Comparato e Benevides, suscitariam represálias: “Advirto à Folha que, apesar de correta, a referida nota despertará a fúria da militância esquerdista. Logo a Redação receberá mais um exemplar da mais profícua produção intelectual da esquerda brasileira: os abaixo assinados.”

 

E os abaixo assinados já estavam chegando.

 

Na edição de domingo 22 de fevereiro a estatística do Painel do Leitor consignava os temas mais comentados: Ditadura 105 cartas, as ainda não desvendadas mutilações da modelo Paula de Oliveira na Suíça 85 cartas, seguidas dos comentários às denúncias do Senador Jarbas Vasconcelos com 57 cartas.

 

Estávamos já em pleno carnaval. Antes a folha escancarara, para indiferença dos leitores a beleza de Natália Guimarães em 17/2, dia do editorial fatídico. Apatia que atingiu a matéria do casal Mara e Gilberto Lopes em 19/2, cursando dança de salão e tentando aprender o tango e o pasodoble para motivar a vida comum. Impassibilidade natural sobre a psicose de Alfredo Hitchcock com Janet Leight e seu envolvimento com suas atrizes.

 

Insensibilidade terrível com a demissão de 20% dos funcionários da Embraer, maior manchete de 20/2 e um desprezo até para o excelente artigo “Não se fazem mais machos como Clodovil” de Bárbara Gancia, com o carnaval e com o desfile do bloco das Carmelitas em 21/2, os bamboleios de Sheila Carvalho e de Ana Hickman em 22/2, os rebolados de Sabrina Sato junto a sua Gaviões da Fiel em 22/2, e os colírios de todos os olhos voltados para Thatiana Pagung e Adriana Galisteu em 23/2.

 

Nem as fotos de todas as mulheres bonitas conseguiam calar no jornal o assunto ‘ditabranda’.

 

Foi aí que surgiu Fernando de Barros e Silva, o primeiro articulista da Folha a dizer que “ditabranda era demais”, e a discussão continuaria.   

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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