Quando um Sonho começou a Educar o Brasil

Sou hoje infinitamente menor e menos

importante do que meus próprios sonhos,

até porque eles habitam outros seres,

outras cabeças, outros corações.”

Felipe Tiago Gomes

CNEC. Você saberia dizer o que significa esta pequena sigla de apenas quatro letras? E este símbolo? Você seria capaz de afirmar o que ele representa? Se a resposta for não, proponho uma experiência muito interessante: mostre esta sigla e este símbolo aos seus pais. Pergunte se conhecem o seu significado. Melhor ainda: mostre-os aos seus avós. É muito provável que tenham estudado em uma escola cenecista ou conhecido alguém que teve esse privilégio. Se isso acontecer, prepare-se para assistir a uma cena bonita. Antes mesmo da resposta, talvez surja um sorriso de saudade, acompanhado por um brilho especial nos olhos. Então, certamente, ouvirá algo parecido com isto: – Meu filho, estas quatro letras significam Campanha Nacional de Escolas da Comunidade. E este símbolo, em azul e amarelo, é a identidade da CNEC. Essas palavras talvez pareçam simples para as novas gerações. Mas, para milhares de brasileiros, elas representam uma das mais extraordinária experiência transformadora da história da educação brasileira.

A CNEC nasceu há exatos 83 anos, em 29 de julho de 1943, do sonho quase improvável de um jovem paraibano de apenas 22 anos: Felipe Tiago Gomes. Um picuiense que pensou grande, começou pequeno e jamais permitiu que o tamanho das dificuldades determinasse o tamanho dos seus sonhos. A ele é atribuída uma comparação simples, bem nordestina, mas carregada de significado: “A CNEC é igual à tiririca do brejo: se arrancam aqui, ela nasce logo ali.” A frase, lembrada pela cenecista Dra. Soraya Santos durante a 15ª Assembleia da instituição, traduz muito bem o espírito otimista e de renascimento que acompanharia a CNEC ao longo de sua história. Foi daquela pequena semente plantada em Recife que nasceu uma das mais extraordinárias experiências de educação comunitária da história brasileira. A CNEC cresceu. Atravessou fronteiras, rompeu distâncias e chegou a manter mais de 2.300 escolas, espalhando sua presença por todos os estados brasileiros, inclusive pelo então Distrito Federal, no Rio de Janeiro, e, posteriormente, pelo novo Distrito Federal, em Brasília.

O que começou como o sonho de um jovem estudante de direito da Universidade Federal de Pernambuco em Recife, transformou-se em oportunidade para sucessivas gerações de brasileiros. Felipe Tiago Gomes compreendeu muito cedo uma verdade que permanece atual: quando a educação chega a uma comunidade, não é apenas uma escola que se abre é o futuro que nasce, floresce e produz frutos. Houve um tempo em que a Campanha cruzava estradas de barro, atravessava rios, subia serras, descia vales e chegava aonde o Estado ainda não conseguia chegar. E chegava levando muito mais do que uma escola. Levava esperança. Levava oportunidades. Levava cidadania.

Antes mesmo de levantar salas de aula, a CNEC ajudava a construir sonhos. Onde havia abandono, plantava conhecimento. Onde existia o silêncio da exclusão, fazia nascer o som alegre de crianças e jovens aprendendo a ler, a escrever, a pensar e, sobretudo, a acreditar no futuro. Em centenas de pequenas cidades brasileiras, especialmente no interior, a escola cenecista representou uma das primeiras grandes oportunidades de acesso à educação para milhares de jovens que, sem ela, dificilmente teriam conseguido prosseguir nos estudos. Por isso, a história da CNEC se entrelaça com a própria história da democratização da educação brasileira. Ela não abriu apenas escolas. Abriu portas. Abriu horizontes. Abriu caminhos. Mudou destinos. Médicos, professores, advogados, engenheiros, políticos, comerciantes, agricultores, servidores públicos, empresários e líderes comunitários deram alguns dos primeiros passos de suas trajetórias em uma sala de aula cenecista.

Falar da CNEC, portanto, é falar muito mais do que de uma instituição educacional. É falar de um movimento comunitário que transformou vidas. É recordar homens e mulheres que acreditaram, e continuam acreditando, que a educação é um dos caminhos mais seguros para a construção de uma sociedade mais justa, mais livre, mais solidária e mais humana. Talvez esteja exatamente aí o segredo dos seus 83 anos.

As instituições permanecem por suas estruturas; grandes movimentos permanecem por seus ideais. A CNEC continua viva porque foi construída sobre valores que o tempo não envelhece: educação, solidariedade, fraternidade, espírito comunitário e amor ao próximo. Quase inexplicável, não é? Talvez não. Toda grande obra, quando construída sobre um ideal verdadeiro, guarda alguma coisa de imorredoura. Pode mudar de tamanho, transformar-se, adaptar-se às circunstâncias, incorporar novas tecnologias e responder aos desafios de outros tempos. Mas, enquanto conservar a essência que lhe deu origem, continuará viva. Felipe Tiago Gomes nos deixou em 1996. Mas não levou consigo o seu sonho. Deixou uma ideia. Deixou um legado. Deixou, sobretudo, uma missão. Aquela pequena semente plantada em 1943 continua sendo cultivada por homens e mulheres que, geração após geração, procuram compreender as mudanças do mundo sem abandonar o ideal Felipiano que deu origem à Campanha.

A CNEC mudou porque precisava mudar. Adaptou-se porque precisava sobreviver. Modernizou-se porque os novos tempos assim exigiram. Mas continua caminhando porque existem pessoas dispostas a cuidar da chama acesa por aquele jovem de 22 anos que, quando quase ninguém acreditava, resolveu acreditar.

Felipe Tiago Gomes não buscou construir riqueza para si. Escolheu construir oportunidades para os outros. Fez da educação sua causa, da CNEC sua grande obra e do serviço à comunidade uma razão de vida. Talvez por isso uma de suas máximas traduza tão bem o significado de tudo o que construiu:

“A obra do bem comum passa pela fraternidade e dura mais do que quem a faz.”

Felipe partiu. A ideia ficou. E, 83 anos depois, o sonho continua educando o Brasil.

Domingos Pascoal de Melo

Associado CNEC – Sergipe

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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