Dos ibéricos avatares, vencendo pombas e falcões.

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Fui ver o filme “Avatar”, o investimento cor de anil de James Cameron. Eis mais uma oportunidade de retirar o chapéu. Ninguém melhor para enganar os tolos do mundo inteiro. Investe-se em parafernália de efeitos especiais, cores, ruídos e explosões, e eis o telespectador feliz em contemplar uma maravilhosa tecnologia de ficção, para dizer o que nunca fora comprovado; o romântico é o bom selvagem e a sua civilização que não tivera o desprazer de conhecer a roda.

 

Ah! Como foi terrível termos descoberto a roda! Melhor seria não a ter, na roldana, no sarilho, no velocípede ou no carrinho de sorvete! É isso que o filme Avatar nos quer passar, porque ela, a malfadada roda, foi quem desvirtuou tudo, permitindo que indivíduos inescrupulosos violassem a natureza, muito mais bela, quando éramos trogloditas sem saber domar o fogo.

 

– “Para que uma caixa de fósforos, um isqueiro ou uma pederneira de chifre, se o fogo tudo destrói!” – Um conceito que bem pousaria se inserido estivesse como assertiva lógica no filme camerônico.

 

Ah! Como é terrível imaginar equivocado o gesto de Prometeu ousando roubar o fogo dos deuses!

 

Os homens deveriam ser como o povo Na’vi, que não plantava, não caçava e nem criava. Vivia na natureza bem melhor que os lírios do campo, que não teciam, nem cosiam, mas se vestiam em alvas, sem tisne, enciumando a grandeza e a majestade de Salomão.

 

O povo Na’vi convivia com a natureza que nunca lhe fora hostil, sendo-lhe receptiva aos sentidos e desejos. Desejo ingênuo de quem se mirando no espelho constrói o estético, estufando o seio com silicone, delineando banhas a fio de lâmina, ou se exaustando em esforços aeróbicos de caminhadas e corridas intermináveis, mas invejam o bom e puro selvagem de Rousseau e a sua tanga.

 

E como o espectador está adorando o tal besteirol romântico!

 

A humanidade do terceiro milênio, contemplando a morte das utopias igualitárias, sonha agora em refazer a história, achando que o homem tem que se adaptar à natureza e não o oposto. É como se o inhame brotasse por livre geração na gôndola do supermercado.

 

Se não há mais o mito da pedra filosofal, nem o poço da juventude eterna Ponce de Lion, agora a grande miragem é o mote da natureza boazinha, nunca hostil ao homem! Esquecem que “viver é lutar” como dizia o poeta fora de moda.

 

Como seria bom que tais pessoas experimentassem uma semana ou um mês plantando ou colhendo cana para salivar açúcar. Que fossem plantar trigo! Debulhar milho! Escavacar aipim!  

 

Que o diga em gracejo, um homem real e verdadeiro, como o grego parido por Nikos Kazantizakis: “A vida é uma grande encrenca”. Este sim um filme marcante, roteirizando uma obra inesquecível: “Zorba, o grego”; sem efeitos especiais retumbantes, maquinários mirabolantes de enfeites ribombantes e papocantes. Mas, terno, carinhoso, humano, como a dança dorida, por pura e verdadeira, com Zorba louvando a vida, repetindo: “Viver é procurar encrenca!”

 

Eis a lição sem mistérios que nos é inerente ao existir: “Viver é perigoso”, como nos repetiria o jagunço Riobaldo Tatarana do nosso Guimarães Rosa, em meio às suas veredas no grande desertão.

 

Mas em Avatar os novos colonizadores rejeitam tudo isso, pretendendo mudar a história de dominação imposta pelos mais fortes aos mais débeis. Tenta-se, em nova roupagem e sem firmar convicção, demolir o incomodativo pensar de Charles Darwin, no seu monumental “A Origem das Espécies”, cada vez mais lúcido e verdadeiro, mas, desconfortável e profundamente desconcertante ainda.

 

E Avatar, sem ousar lhe imprecar com percuciente insistência, insinua o darwinismo como uma verdadeira heresia, digna das velhas fogueiras. E o filme parece tentar despertar radicalismos exaltados e ultrapassados para massacrar os que ousam pensar ao desabrido e sem limites, contestando o dogma e tudo aquilo que só semeia a dúvida e o preconceito.

 

Porque as leis da natureza são simples, imutáveis e permanentes. Elas não mudam nem contornam ao sabor dos desejos e das preces dos homens quando estes não as desafiam e ousam controlá-las.

 

Que o digam os terremotos e tsunamis, os vírus letais e os cânceres terminais. Eles não respeitam ninguém; nem santos, nem pecadores, nem ricos, nem pobres, nenhum ser vivente em qualquer ordem vigente. Eles são um exemplo hostil da natureza à vida do homem, que a deve controlar e colocá-la ao seu serviço.

 

E a natureza se torna simples quando comandada pelo homem: Os fluidos só escoam em demanda às baixas cotas, os graves só desembestam igualmente ladeira a baixo; coisa de densidade e de empuxo, os mais leves para cima, os mais pesados para baixo. E porque se sabe tudo isso, ninguém cospe para cima sem antes sair de baixo.

 

O que era complexo e misterioso, temário de muitas insinuações e misérias, o que era mistura de terra, água, ar e fogo se simplificou quando o homem tudo desmitificou, domando e compreendendo as forças dos campos conservativos, as interações nucleares, fortes ou fracas, gerando grandeza ou produzindo miséria, em berceuses de novos deuses, dívidas eternas e emolumentos de enfiteuses.

 

Mas, se “A Origem das Espécies” continua a ter seus críticos, porque é mais romântico Adão transando com Eva em sucessão de castigos, há quem creia a criação como um processo de danação e expiação de pecados, continuamente cometidos pela humanidade ao longo da eternidade, punição de um deus cruel e vingador, que jamais restou démodé.

 

E agora vem o Avatar, qual Maniqueu do novo milênio, tentando dividir os homens entre mocinhos e vilões, mostrando o conflito eterno de pombas e falcões inerente à política americana, com os republicanos vorazmente belicosos, e os democratas sagazmente tolerantes, como mais um desfecho Bush-Obama, agora imaginado num cenário idílico de um planeta azul, cor de anil, uma espécie de Amazônia do Brasil.

 

No filme, a terra do povo Na’vi é o planeta chamado Pandora embora não se perceba o porquê de tal denominação.

 

Considerando, porém, que a própria palavra Pandora vem do grego “a que tudo dá” ou “a que tudo tem”, ou ainda o “mal belo” ou “a que possui todos os dons”. Talvez seja por esta acepção que o planeta paradisíaco tenha sido assim nomeado.

 

Quanto ao mito Pandora, o nome do planeta, nada relembra qualquer epopéia helena ou mistérios de caixa de Pandora.

 

No mito grego, é bom lembrar por interessante, Pandora fora uma mulher linda que os deuses do Olimpo criaram, por vingança, para dá-la a Epimateu, um irmão de Prometeu. Os deuses ficaram com muita raiva de Prometeu por este lhe ter roubado o fogo para entregá-lo aos homens.

 

Punido a padecer eternamente como repasto de harpias, as aves de rapina cruéis, Prometeu foi acorrentado a um rochedo inacessível, para que o seu fígado reconstituído noturnamente fosse dilacerado todos os dias por estas aves insaciáveis. Mas este padecimento eterno não exaurira a ira dos deuses. E assim surgiu o mito de Pandora.

 

Criada pelos deuses, Pandora deles recebera todas as virtudes femininas; a graça, a inteligência, a beleza, a paciência, a voz maviosa, a persuasão, a inteligência, a paciência, a meiguice, a habilidade na dança e nos trabalhos manuais, o úbere dadivoso, o quadril sinuoso, o cheiro oloroso, tudo o que fosse desejável para o repouso do guerreiro.

 

O deus Hermes, porém pôs no seu coração boa porção de traição e de mentira, e a deu como presente a Epimateu, um presente de grego, em vingança contra os homens.

 

Desnecessário dizer que Epimateu, atacado por forte dose de serotonina, caiu no faro e apaixonou-se perdidamente ao ver Pandora. Esquecendo completamente o conselho de Prometeu que lhe recomendava jamais aceitar um presente dos deuses, Epimateu toma Pandora como esposa.

 

Ocorre que Epimateu era possuidor de um outro presente dos deuses, que em segredo permanecia inserido numa caixa, enclausurando todos os males, e que jamais deveria ser aberta.

 

Pandora, por Jules Joseph Lefebvre, 1882, coleção particular, Wikipedia

Num mito semelhante ao de Eva convencendo Adão a lhe comer, e à maçã do bem e do mal, Pandora convence Epimateu a lhe dar a guarda da caixa. E a caixa é aberta, escapando-se-lhe todos os bens ali encerrados, restando só um único bem: a esperança. E assim os homens se veem para sempre atacados por todos os males, e só nutridos de uma fugaz esperança; sua razão de prosseguir.

 

No filme Avatar, se há uma caixa de Pandora violada, só a sequência o dirá. Um filme com tal excesso de bilheteria é um filão de ouro a re-explorar.

 

É sempre bom o homem achar que pode domar as feras com boas maneiras e melhores intenções. Melhor ainda é manter o leão na jaula sem querer lhe bancar desjejum. Mas, há muita gente que acha ser possível uma comunicação telepática do humano com a fera, aquele subjugando-a, num convencimento recíproco e consentido. E o filme quer nos dizer que é possível tudo isso; em Pandora e aqui debaixo dos céus.

 

Na película, não se vê um boi ceder o coro ou a própria alcatra, afinal há uma excedência de correto poliquês condenando qualquer churrasco ou mariscada.

 

Também não há rebanhos nem hortas. Todos se alimentam como parasitas da mãe natureza. E mais: Qualquer animal vivente, alado ou pisante, rastejante ou anfíbio se presta como excelente montaria e necessária companhia. Basta que haja uma conexão entre a cabeleira do jóquei com o ouvido da montaria, e o par só não vira centauro por falta de imaginação e de hibridação.

 

No mais o filme relata o atual dilema humano em arrependimento de exploração da natureza. Os humanos estão colonizando Pandora tentando importar um mineral que flutua num campo eletromagnético, uma notável espécie diamagnética, que representa a ideal salvação para a tecnologia dos terráqueos. Mutatis mutandes, o pau brasil para os Perós e Mairs, portugueses e franceses na costa do Brasil.

 

Mas o povo Na’vi, sem conhecer as ondas hertzianas, se comunica bem melhor à distância, só por contato físico das redes radiculadas das raízes das árvores; misteriosas árvores flutuantes, que dão boa lenha, porque queimam fácil em atmosfera de rala oxigenação, mas que possuem raízes antenáveis ao rabo-de-cavalo dos nativos.

 

No mais não há uso de armas nucleares de alta destruição. O mineral precisa ser explorado, nunca destruído. Há, porém, uma regressão na tecnologia militar com a introdução de robôs, verdadeiros brinquedos de comandos em ação, faltando o gato guerreiro, a espada de He-Man e a teia do homem aranha.

 

O interessante é que a tecnologia humana ainda não conseguiu abolir seringas nem agulha e injeção, mas consegue produzir hibernação em câmaras hiperbáricas, permitindo um ser humano se inserir num organismo Na’vi, sendo o Avatar, aquele que veio para se infiltrar no meio do aborígene, para dominá-lo, ou usá-lo ao seu favor.

 

Neste ponto a incorporação espiritual de Ghost, o outro lado da vida, apossando-se de corpos, parece mais crível, por risível, gracejador.

 

Mas, como bons selvagens, o povo Na’vi utilizando-se somente de boas intenções e fortes doses de carinhos é capaz não só de curar paraplégicos como até ressuscitar mortos. Tudo isso sem qualquer menção de profetas e taumaturgos. Um povo sem demiurgo e sem vilão, mas que tem ciúmes e paixões como os homens.

 

Quanto à forma física, o povo Na’vi tem compleição humana, esticada e longilínea, olhos grandes, nariz cumprido, seios murchos, tudo parecido com etíopes anilados, habituados a usar tanga e califon, evidenciando que no sexo e a moral não nos é diferente, inclusive no beijo, boca-a-boca e no amor.

 

A mocinha Na”vi. Divulgação do filme Avatar.

Quanto ao cabelo não existe um Na’vi crespo, com madeixa pixaim ou encaracolada. Também não há carecas nem bigodudos. Os cabelos sofreram alisamento de escova inteligente, resultando um rabo-de-cavalo comprido, disputando com uma cauda de macaco saliente, uma espécie de apêndice ocioso e sem função. A cauda não pareceu nem leme, nem astrolábio, só uma símia apresentação totalmente carente de função.

 

De índole pacifista, o povo Na’vi não mata ninguém, nem formiga ou pernilongo, mas é inseparável de seu arco cuja flecha tem uma ponta envenenada numa resina natural, tão anestésica quanto letal e sem antídoto. E sua pontaria diletante nunca falha. Mas, quando acerta uma fera matando-a, o Na’vi geme e sofre com se o seu ato fosse terrível, por inevitável.

 

Quanto ao mito da caixa de Pandora, com os males espalhados, só num novo tempo, numa sequência de um novo filme, saberemos se algo irá acontecer, afinal uma das musas de Avatar é a veterana Sigourney Weaver, aquela heroína imorrível da série “Alien, o passageiro”, que rendeu três filmes ou muito mais, por importar um extraterrestre como um indesejado hospedeiro.

 

Será o Avatar, uma espécie de mágica às avessas, aquela em que melhor é desaparecer o ilusionista e o coelho restar sorrindo? Ou é apenas mais uma piada americana para bem melhor receber o nosso dinheiro, como incautos e embasbacados, mundo afora?

 

Curiosamente, no mesmo dia, assisti na TV o famoso Mágico Oz, outro grande sucesso de bilheteria, surgido nos refluxos do pós-guerra.

 

Seria o Avatar uma espécie do Mágico de Oz, mais pretensioso, por não parecer uma ficção infantil de bruxos malvados e fadinhas delicadas, ensejando uma filosofia de comiseração numa bela jogada financeira?

 

De Oz restou a música “Somewhere Over the Raimbow”, ainda hoje tocada nos cortejos de nubentes, afinal, passados mais de seis décadas, muitos se embalam em esperanças de encontrar um novo mundo para além do arco Iris e da realidade.

 

Mas, em sonho ou realidade, o deletério é ainda existir em expressiva quantidade os que condenam o esforço conquistador de Hernan Cortés, Borba Gato, Fernão Dias, e outros como o Anhanguera e sua cachaça fumegante, e até Caramuru com seu arcabuz de filho do trovão. Para estes detratores, mais bela é a saga e o triste fim do bispo Dom Pero Sardinha; virando acepipe de bom selvagem.

 

Todavia se não há excessos de azias, por nenhuma orgia em repasto de antropofagia, resta em Avatar, por final, um Na’vi falsificado hospedeiro, despertando amores e ciúmes. Igual ao tacape português fascinando as nossas índias, só para citar Abelardo Romero e sua Origem da Imoralidade no Brasil.

 

Mas a estória do Avatar com tantos efeitos especiais parece ser diferente, embora termine igual, com o mocinho hibridizado em amor já esperado com a mocinha Na’vi, derrotando os vilões exaltados.

 

Isso tudo só para constatar e corroborar por terminal, que bem melhor é repetir os conquistadores ibéricos, se miscigenando sem traumas ou arrependimento.

 

E assim, sem pensamentos avatares, melhor é repetir o que dissera Caminha em sua carta inaugural; “Ali andavam entre eles três ou quatro moças bem novinhas e gentis, com cabelo mui pretos e compridos pelas costas e suas vergonhas tão altas e tão saradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.”

 

Este tal “saradinhas” metamorfoseou tudo! Desfez-se a aura dos seres avatares e os deuses vindos do mar se humanizaram esbaldando-se em sofreguidão. E isso nunca deixara choro nem dores, nem fora considerado pecado, pelo menos até agora, antes de ver o tolo filme Avatar, que é um sério candidato ao prêmio maior da academia de cinema.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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