Economia verde

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Chamar o turismo de indústria sem chaminé virou chavão tão desgastado quanto impróprio. Nem o ecoturismo possui o condão de transformar uma atividade humana em coisa ambientalmente 100% limpa. A presença humana por si só degrada o meio ambiente, explorando as riquezas naturais e depois regurgitando suas sobras. Quando não deixando sacos plásticos pelo caminho. É duro e espinhoso o caminho até a quimérica consciência ecológica, mas reduzir o impacto provocado pelo homem é possível e sua busca deve ser tão insistente e radical quanto é a atuação dos ecologistas engajados. E requer boa vontade e boas ideias.

Não precisa ir longe para perceber que Sergipe possui belezas naturais necessitando de cuidado e preservação. Basta ir às praias e ver a quantidade de lixo deixada pelos frequentadores ou que é trazida pelo mar. Dependendo do fim de semana, a Empresa Municipal de Serviços Urbanos até pouco tempo recolhia, na segunda-feira, de 20 a 50 toneladas de lixo deixado nos 20 quilômetros de praias de Aracaju. Incluindo o lixo dos bares e avenidas litorâneas. Mas boa parte retirada das areias. Ainda bem que a Prefeitura faz esse serviço.

Quase todo o lixo que o mar despeja nas praias vem do mundo urbano, de onde sai pelas vias fluviais e pelos canais. Muito dele é o lixinho trivial que o cidadão mal educado atira pela janela do carro ou joga nas valas e bueiros, que se somam aos esgotos domésticos e industriais. Tudo vai dar no mar, que faz o favor de devolver uma parte nas praias. Mas provavelmente a maior parte vai continuar boiando indefinidamente, poluindo os oceanos para todo o sempre, amém!

CARBONO-NEUTRO – Bom exemplo acaba de dar o governo de Pernambuco, ao lançar um plano para transformar Fernando de Noronha no primeiro lugar carbono-neutro do Brasil. A ideia é, em cinco anos, fazer com que todas as emissões de gases-estufa do arquipélago sejam compensadas, o que pode ser feito com o plantio de árvores e o uso intensivo de energias renováveis.

Noronha fica a 545 km de Recife e tem, em média, 4.000 habitantes, sendo 500 turistas. Hoje há mais carros circulando do que talvez suportem os 7 quilômetros da minúscula BR-363. Os táxis são a diesel, o único aerogerador eólico (primeira torre do tipo instalada no Brasil) foi inutilizado por um raio e os aparelhos de ar-condicionado das pousadas funcionam a plena carga para garantir o conforto dos turistas que se revezam dia após dia. O arquipélago é um paraíso que vive de energia suja.

O governo de Pernambuco quer reverter esse quadro totalmente até 2019, utilizando para isso o que chama de "modelo-mercado" — sem gastar dinheiro público. A estratégia de colocar Noronha na trilha da economia verde é conquistar o setor privado para bancar o plano, usando o forte apelo de imagem de um dos lugares mais bonitos do país. Acredita-se que o setor produtivo pode contribuir, seduzido em deixar seu nome gravado no esforço de tornar o arquipélago um ícone na economia de baixo carbono.

Segundo o jornal Valor Econômico, a emissão per capita de gases-estufa, em 2012, foi de 8,9 toneladas de CO2 equivalente, bem mais alta que a média nacional (2,2 toneladas de CO2 em 2010), mas muito mais baixa que a dos americanos (17 toneladas de CO2 equivalente).

As emissões do transporte aéreo (turismo e aeronáutica) respondem por 55% do total de 35.600 toneladas de CO2 equivalente. A geração de energia elétrica emite outros 30% e o transporte interno, 8,3%, segundo o inventário de emissões de Noronha de 2012, feito pelo governo em parceria com a Fundação Ondazul e Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável. O restante vem do transporte marítimo, da agropecuária e gestão de resíduos.

Duas usinas de energia solar com capacidade de 1 MW serão implantadas pela Celpe, a empresa de energia do Estado. O investimento de R$ 18 milhões pode significar o suprimento de 15% da energia consumida pela ilha. Dois aerogeradores (mais modernos e baixos do que o que foi fulminado) irão suprir os prédios públicos — o que representará mais 5%. O uso da energia das marés também está em estudos.

Com as empresas aéreas, trabalha-se em um sistema de incentivos para promover o uso de biocombustíveis. "É uma oportunidade de negócios para o Brasil", diz Sérgio Xavier, secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, que quer transformar Noronha em um "polo de demonstração de novas tecnologias sustentáveis." A intenção é promover o uso de veículos e bicicletas elétricos. Telhados verdes podem ajudar a reduzir o ar-condicionado. Passageiros dos aviões podem aceitar compensar suas emissões pagando taxas para o plantio de árvores.

FÓRUM CLIMA – O plano foi apresentado na última terça-feira, em São Paulo, no Seminário Fórum Clima 2013. Ali foi divulgado o estudo "O desafio da harmonização das políticas públicas de mudanças climáticas – volume II", realizado pelo Observatório de Políticas Públicas de Mudanças Climáticas, uma iniciativa do Fórum Clima (que reúne 17 grandes empresas e duas organizações apoiadoras, incluindo o Instituto Ethos) com o Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa) da Universidade de São Paulo. O trabalho monitora políticas estaduais climáticas de 18 Estados.

O alinhamento na criação e execução das políticas públicas sobre mudanças climáticas entre os Estados e o governo federal é fundamental para que o país enfrente o desafio de reduzir as emissões e se adapte aos efeitos do aquecimento global. É o que sugere estudo realizado pelo Nesa, também divulgado durante o Seminário Fórum Clima 2013.

De acordo com a pesquisa, os Estados se anteciparam ao governo federal no estabelecimento de políticas públicas para enfrentar as mudanças climáticas e parecem ter entendido mais rapidamente que enfrentar as mudanças climáticas requer do poder público agilidade e flexibilidade nas ações. "As experiências estaduais podem servir de referência para estabelecer orientações e marcos legais de abrangência nacional”, afirma Juliana Speranza, pesquisadora do Nesa.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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