Energipe, dez anos depois

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A privatização da Empresa Energética de Sergipe S.A. (Energipe) faz dez anos em dezembro. Não foi uma década perdida, muito pelo contrário. Esses anos, contados a partir do polêmico processo de desestatização ocorrido em 1997, encerram um ciclo virtuoso não somente para as finanças da empresa, mas também para a economia do Estado e para os crescentes usuários, principais beneficiários. Quase dez anos depois, vários indicadores confirmam que, a despeito do ato em si, a privatização da Energipe foi um negócio vantajoso para Sergipe.

A venda da Energipe para o grupo mineiro Cataguazes-Leopoldina, até então desconhecido para os sergipanos, foi provavelmente a realização mais interessante do governo Albano Franco (1995-2002). A oposição esperneou, considerou um processo corrupto, lesivo aos cofres públicos e desnecessário. João Fontes, um ex-presidente da empresa que se tornou depois deputado federal, liderou o bloco dos contra e até hoje não se conforma com o que aconteceu com a antiga empresa estatal.

“Todo o processo de privatização da Energipe se deu de forma inconstitucional, a começar pela avaliação feita pelo governo muito abaixo do valor de mercado”, lembra. Na época, como representante do Conselho de Leigos e Leigas de Aracaju, juntamente com a OAB, ele até conseguiu uma liminar na Justiça suspendendo a venda da estatal. Depois, ainda tentou investigar o negócio na fracassada CPI das Privatizações, na Câmara. “Precisamos apurar, principalmente, de que forma foram gastos os R$ 500 milhões arrecadados pelo Estado com a privatização. Até hoje ninguém deu uma explicação lógica para a destinação desse dinheiro”, sustentava.

Na verdade, a Energipe foi vendida por pouco mais de R$ 577 milhões, com ágio de 96,05% em relação ao valor de abertura do leilão. O dinheiro que entrou nos cofres do Estado foi fundamental para a reeleição, no ano seguinte, de Albano Franco, que conseguiu atrair o apoio até de aliados imprevisíveis, como do ex-prefeito Jackson Barreto. Mas gestões públicas e interesses eleitorais à parte, o fato é que a Cataguazes-Leopoldina, que não tinha nada a ver com as questiúnculas políticas locais, fez o que se esperava dela. De perdulária e ineficiente, a Energipe tornou-se uma empresa eficiente, lucrativa e prestadora de bons serviços.

NÚMEROS (ATUALIZADOS) QUE NÃO MENTEM — Em nove anos, a Energipe investiu R$ 412 milhões na modernização da empresa e na melhoria da qualidade do serviço que presta aos 63 municípios sergipanos aonde atua, sendo que R$ 304,5 milhões de recursos próprios. Com isso ampliou o número de consumidores de pouco mais de 347 mil para os atuais e expressivos 500 mil consumidores. Reflexos diretos: em 1997, a Energipe amargou um prejuízo de R$ 2,9 milhões, reverteu o número negativo e, no ano passado, deu lucro de R$ 77,6 milhões. Melhor notícia para o Estado é que, quando privatizada, a Energipe recolhia R$ 43,51 milhões em impostos anuais, passando a recolher vultosos R$ 116,25 milhões — o que representou 10% do ICMS arrecadado pelo Estado em 2006. E a tendência é de crescimento, já que os impostos pagos crescem a uma taxa média de 11,5% ao ano.

Quando foi privatizada, a Energipe possuía 1.215 funcionários, sendo que 495 deles eram terceirizados. Hoje são 900 funcionários (somente 25 terceirizados) que passam por um processo de qualificação permanente. Segundo o presidente Marcelo Rocha, 4% das horas trabalhadas dos funcionários da Energipe são dedicadas ao estudo (no somatório, isso significa 36 funcionários que só se dedicam anualmente ao estudo). Dos 900 funcionários, 360 deles têm computador na mesa de trabalho. Não é por outro motivo que a empresa recebeu a aprovação de 81% dos seus funcionários, em pesquisa realizada pela empresa de auditoria e consultoria Price Waterhouse.

Os benefícios diretos aos consumidores estão expressos no comparativo da qualidade do serviço. Quando foi privatizada, a Energipe interrompia o fornecimento de eletricidade 17 vezes por ano — vezes que, somadas, duravam 22 horas por ano de escuro, em média. Hoje há nove interrupções anuais, com duração média de 14 horas. A empresa perdia 6,7% da energia que distribuía com fraudes e clandestinos. Hoje, essa perda representa 3,5% da distribuição.

Por tudo isso, a Energipe é a melhor empresa do Nordeste em satisfação do cliente, segundo pesquisa da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). No ano passado, 12 clientes entraram com ação no Procon contra a empresa. Em 1997, foram 62 ações. Números confirmados pela Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). Uma pesquisa anual da entidade, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da USP, Instituto Ethos, Fundação Nacional da Qualidade (FNQ) e Instituto Vox Populi, mede a qualidade da gestão, a opinião do cliente, o desempenho operacional, econômico e financeiro, além da responsabilidade social. Resultado: na avaliação de todos esses índices, a Energipe aparece como a 8ª melhor dentre todas as 64 distribuidoras de energia elétrica do Brasil. E não é pouco. Mesmo para aqueles que não querem enxergar isso.

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