Ensaio sobre a culpa cristão II

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A coisa toda começa na família que impõe seus valores, de forma quadrada, goela abaixo. Alguns membros da nossa família são pós-doutorandos em nos obrigar seguir caminhos que muitas vezes não desejamos. O resultado quase sempre é alguém ferrado e frustrado no final da vida. Dispenso os títulos…

Sonho de consumo [bens semiduráveis]: uma geladeira nada mais é do que um pedaço de metal, retangular que serve para refrigerar alimentos, fornecer cervejinha tinindo e água refrescante. Com dispenser na parte da frente é uma beleza pura, daquelas de deixam adultos e crianças com água na boca. Queremos o melhor: na cozinha, no banheiro, na sala…

Casa nova, sem móveis, pede uma boa geladeira no mínimo. Assim, saí com uma tia-caridosa-que-me-emprestou-o-cartão para comprar um aparelho digno para uma cozinha vermelho-Almodóvar. Encontro combinado, titia passando para me pegar no apt. e lá fomos nós para uma rede de supermercado da cidade pesquisar e comprar logo, porque só sentimos falta de uma geladeira quando temos que comprar água gelada no posto de gasolina de madrugada, para amenizar o calor de uma noite tropical, sem vento e quente…

Chegamos ao setor de eletrodomésticos e o sonho começou: uma branca? Pequena? Média? Essa marca é legal? Será que a divisória das gavetas dará problema no futuro? Mas se vou levar com tantos meses para pagar, por que não pegar uma grande? Mas qual marca [de novo]? Ah, gente, gosto de geladeira que não faz gelo e que não precisa limpar todo final de semana. Até porque ninguém em pleno 2010 perde tempo desligando geladeira, colocando pano embaixo para não molhar a cozinha, levando e enxugando cada compartimento. Quero essa de inox, mas queria essa branca e aquela com o freezer embaixo [recém lançada]. Quero uma que eu possa dormir dentro, quando tiver que amenizar o calor. Mas o preço dessa ao final de tantos meses será compensatório para uma família pequena? Quantas dúvidas…

Após escolher a geladeira-inox-duplex-com-motor-de-quatro-cavalos-e-super-vista-para-um-interior-gigantesco-que-refrigera-o-mais-quenta-dos-pratos eu e minha tia fomos pagar. Era a realização do sonho da geladeira própria. Uma euforia calada sentida por quem acaba de se tornar adulto, com direito à responsabilidade de escolher móveis duradouros e eficientes.

 – Próximo!

“Dlfj4opfk.dnrhg…”.

– Próximo! Próximo.

“Djayr4uifu8t90-9t9034”.

Daqui a pouco sou eu…

– Próximo!

Oba, sou eu.

Minha tia tira o cartão da bolsa de grife. Eu entrego à caixa o documento estipulando o valor do aparelho. Tudo pronto e legal se não fosse pela diferença de R$ 400 entre o valor marcado na porta da geladeira escolhida e o valor que estava no papel.

– Êpa tia, alguma coisa não bate com o que vimos!

– Como assim?

– A geladeira ali marca R$ 1.800 e não R$ 2.200 como está no papel.

A caixa esperando nossa decisão…

– Vamos voltar e falar com o gerente! – Decidi isso sem nem pensar duas vezes.

O atendente que nos recebeu inicialmente negou que existisse um gerente na loja [naquele momento]. Tentou argumentar que tínhamos feitos os cálculos errados, que existiam juros na compra e que o valor era mesmo: os tais R$ 2.200. Minha tia começando a se irritar com a situação. Eu? Calmo. Frio – como se tivesse saído da geladeira que ainda nem havia comprado.

Um super test drive para minha paciência.

– Como não tem gerente na loja?

– Não tem [Vendedor nervoso-percebendo-o-erro-do-cartaz].

Titia já esbravejando que era erro deles. Eles tentando convencê-la de que o erro foi do funcionário que escreveu o anúncio errado [o que findava neles como culpados]. Titia nervosa, mas “sem querer prejudicar ninguém”. Eu calminho, ainda. Após sermos cercados por vários funcionários querendo saber sobre o que se tratava àquele rebuliço, eu e titia decidimos não comprar nada, passar em outra loja e esquecer a cena.

Alguns passos após a seção de eletrodomésticos. Pensamentos entrando em concordância com a falta de respeito por parte do funcionário que nos atendeu e tentou mudar nossa ideia de levar a geladeira, resolvi voltar e pagar menos, por aquilo que era meu de direito. Estava escrito o erro deles e não me importaria, nem seria erro meu levar algo que já estava em meus planos de pagamento como sendo verdade. “Quero a inox!”.

Com minha tia olhando com um cara de assustada, porque provavelmente eu iria “obrigar” algum funcionário displicente a pagar por seu erro.

Voltamos…

-Ei (para o vendedor da geladeira), eu quero comprar assim mesmo.

Eles já haviam tirado o anúncio da geladeira. Já não estavam esperando que a história ganhasse uma reviravolta assim tão rápida. Embasbacado, o atendente que disse não ter nenhum gerente na loja telefonou para o suposto-gerente-que-não-estava-na-loja e em questão de minutos um homem de colete amarelo apareceu pelo setor rondando-nos. Sem encostar muito.

Esperamos alguns minutos ele se aproximar e nada. Mais outros e nada. Até que fui lembrá-lo que éramos nós os futuros-donos-da-geladeira-em-questão. O gerente, meio nervoso, explicou que estava esperando um retorno do “jurídico da loja” para saber se iriam liberar ou não a venda.

Ah-rá, então aquelas histórias de que quando o cliente vai comprar algo que está marcando um valor mais baixo quando na verdade é tanto a mais, e ele pode levar do valor estipulado é tudo mentira? E cadê a lei que protege os clientes? Cadê o PROCON? Cadê a sociedade secreta dos alquimistas? Cadê teu suin? Cadê meus amigos advogados? Cadê o Papa? Cadê Deus e sua misericordiosa benção?

Mais algum tempo esperando e o que seria uma simples compra de um eletro ganhou ares de épico tupiniquim com gosto de reprise na sessão da tarde. O fim… Minha tia já agonia com tanto tempo perdido. Eu com a frieza das geleiras do Ártico correndo em minhas artérias, e o gerente enrolando a gente num novelo de linha-cinza e empobrecida. Coisa de quem acha que a vida é feita dos desdobros e do capitalismo mal aprendido num cursinho rápido para se tornar gerente-vendedor de supermercado.

Mesmo irritado permaneci pacientemente calmo. Quando esgotei meu tempo amigável voltei para falar de novo com o supremo poderoso do supermercado.

– Meu senhor, estou nesta loja desde 9h30. Já vi todas as geladeiras. Escolhi a que quero. Já disseram que o senhor não estava na loja. Já tentaram nos ludibriar com chantagens emocionais, já reuniram todos os funcionários [incluindo até o cara que anuncia as ofertas dentro do supermercado], já arrancaram a placa errada com o preço. O que falta mais? – disse baixo e em bom tom.

– Falta trazer aqui o funcionário que errou. A diferença será dividida entre todos da loja e tanto ele quanto o atendendo do setor serão colocados pra fora!

CHANTAGEM CRISTÃO GRITANDO NO TERREIRO DO SUPERMERCADO.

– Ah tá! Sim, mas que horas poderei pagar o que é meu de direito?

Percebendo que toda a chantagem do mundo não surtiria feito nenhum em mim, porque já estava possuído pelo espírito do consumir consciente, o gerente não teve outro jeito mesmo e chamou um encarregado para nos levar até o caixa. Porém antes de irmos, salientei ao mesmo gerente que por conta de tamanha falta de princípios, honestidade e principalmente falta de gentileza no trato, eu não iria mais levar a geladeira em tantas parcelas.

– Só estou comunicando ao senhor que depois desse tempo inteiro aqui dentro deste lugar, resolvi levar a geladeira com o mínimo de parcela possível, o que me dará um desconto não apenas de R$ 400, mas de R$ 700 no total da compra. Tenha um bom dia!

Antes de sair, vi a cara do gerente pagando todo o tempo que nos deixou esperando em vão. Minha tia ainda em choque por minha atitude-de-maníaco-dos-eletros, assinou o cartão. Endereço confirmado, com data exata para a entrega, saí endividado, mas feliz por não ser o otários do dia.

– Meu filho e se Deus lhe castigar?

– Tia, Deus me deu um presente de R$ 700.

Cara de assustada dela.

– E se você se arrepender?

– Do quê? Deles nos convencendo de que estávamos errados? Deles nos dando um chá de cadeira? Deles sendo irresponsáveis? Se eu chegar a me arrepender de algo, coloco uma boa cerveja pra gelar e tomo. Tudo passa!

Claro que depois disso tive febre, pena e fui procurar informações sobre a coisa toda [descobrir que não acontece nada com funcionário que erra nesse tipo de caso, existe um seguro dentro da loja que compra valores errados]. Tudo balela para empregar culpa nos clientes. Confesso que minha consciência chegou a ficar manchada por alguns dias, mas quando a geladeira chegou e bebi água gelada saindo de um super dispenser acabaram-se os transtornos mentais.

Adeus culpa cristã.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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