ENTRE A REBELDIA E A ALIENAÇÃO

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Luiz Eduardo Oliveira
Universidade Federal de Sergipe
luizeduardo@ufs.br

O Núcleo de Estudos de Cultura da UFS, cadastrado no CNPq e vinculado ao Departamento de Letras Estrangeiras e aos programas de pós-graduação em Letras e Educação da mesma instituição, está desenvolvendo uma pesquisa de Iniciação Científica, por mim orientada, sobre o processo de massificação do rock no Brasil na década de 1980. O título da pesquisa é “Entre a rebeldia e a alienação: a década de 80 e a massificação do rock no Brasil”. Dei esse título porque, a meu ver, essa é a grande questão da cultura contemporânea, esse entre-lugar, essa encruzilhada, devido à sua condição diaspórica, necessariamente híbrida (Hall, 2006). Para quem viveu a década de 1980, como eu, acaba sendo uma história de vida: o que vivíamos, momentos de rebeldia ou de alienação? Nossa memória e nossos dados indicam que havia alguns aspectos de rebeldia e outros de alienação. E como o rock entra nessa história?

Quando o rock surgiu, o mundo – pelo menos o ocidental – havia passado por uma revolução cultural sem precedentes. A emancipação feminina e das chamadas minorias sexuais tinha provocado o declínio da instituição familiar, o que se fazia notar pelo número de divórcios e desquites, de que os estudos sociológicos já davam conta. Nas décadas de 1950 e 1960, o conceito de “juventude” assumiu um novo aspecto, fazendo com que os grupos de jovens tomassem consciência de sua força e poder político. Para Hobsbawm (1998), a efetividade política do movimento estudantil de 1968 se deveu somente à sua capacidade de agir como detonadores para grupos maiores, que se inflamavam com menos facilidade, ao contrario do que ocorreu com as rebeliões estudantis da China, da Coreia do Sul e da Tchecoslováquia, na década de 1980, cujo potencial político e revolucionário se realizou mais plenamente, sendo muitos estudantes massacrados em confrontos abertos contras forças do Estado.

O rock, que, apesar de ter tido sua origem nos bairros e comunidades negras dos Estados Unidos, sendo tido como um desdobramento do rythm and blues – que também teria servido de base para a soul music, o jazz e o funk –, acabou se tornando uma espécie de porta-voz para os anseios e necessidades dessa cultura juvenil sobretudo para a juventude branca, na medida em que fazia a fortuna da indústria fonográfica multinacional, globalizava ícones, comportamentos, símbolos, signos e estilos musicais em quase todas as partes do mundo. Os novos e jovens heróis, que morriam vítimas dos exageros de sua força juvenil ou de overdose de álcool, cocaína e heroína, como James Dean (1931-1955), Brian Jones (1942-1969), Janis Joplin (1943-1970) e Jimi Hendrix (1942-1970), pareciam confirmar a tese de que só valia a pena viver enquanto jovem. “Eu quero morrer antes de ficar velho”, dizia o refrão da música “My Generation”, em 1965, da banda The Who.

A cultura juvenil representada pelo rock and roll significou também a internacionalização dos produtos da cultura de massa dos Estados Unidos, de modo particular, e da língua inglesa, de maneira geral, uma vez que muitos dos artistas que mais faziam sucesso nesse gênero vinham da Grã-Bretanha e, mesmo quando não eram oriundos de países anglófonos, expressavam-se musicalmente em inglês. Assim, tanto o blue jeans quanto as letras das bandas e dos artistas de rock tornaram-se marcas universais da juventude branca, o que se fazia cada vez mais efetivo com a grande circulação de discos, fitas cassete, e a popularização do cinema, do rádio e da televisão, que proporcionavam a diversas partes a transmissão via satélite de shows dos Beatles e de festivais como o de Woodstock. Ao mesmo tempo, os movimentos de afirmação dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, liderados por personalidades político-religiosas como Martin Luther King (1929-1968) e Malcom X (1925-1965), por movimentos como o dos Black Panthers, por autores como Ralph Ellison (1914-1994) e Toni Morrison (1931-) e artistas como James Brown (1933-2006), fizeram com que a música representada pelo som da Motown ou da Philadelphia, de onde saíram muitos dos principais artistas negros, como Steve Wonder (1950-) e Michael Jackson (1958-2009), se tornasse um poderoso elemento de identificação da juventude negra norte-americana e depois mundial, como comprova o festival  Wattstax, realizado em 1972, em Los Angeles, e organizado pela Stax Records, em comemoração ao sétimo aniversário dos conflitos do bairro negro de Watts, na mesma cidade, em que os moradores se confrontaram violentamente com a polícia, numa espécie de mico-guerra civil que causou o incêndio e a destruição de vários prédios, e que é tido como o "black Woodstock”.

As novas narrativas literárias e cinematográficas buscavam dar conta desse novo estado de coisas, e temas antes evitados, como a subcultura homossexual, as drogas e o amor livre ganhavam uma ênfase especial, o que não se restringiu ao final dos anos de 1960, mas também instalou-se na cultura disco dos anos de 1970 e mesmo nos movimentos punk e new wave entre 1976 e 1982, na Inglaterra. As experiências psicodélicas, que já haviam sido objeto principal da literatura Beat na década de 1950, ganharam o estatuto de objeto de estudo científico na década seguinte e passaram a confundir-se com alguns ideais do surrealismo, como sugere o slogan de maio de 1968: “Quando penso em revolução quero fazer amor”. Nesse período de ascensão e hegemonia do indivíduo branco de classe média, os limites entre ficar drogado e fazer a revolução pareciam muito tênues.

Se o rock, tal como se tornou, isto é, como expressão cultural da juventude branca do Ocidente – hoje pode-se dizer que se tornou expressão “universal”, ou “globalizada” – nasceu em 1954, quando Elvis Presley (1935-1977) gravou a música  “That’s Alright Mama”, a despeito de outras manifestações musicais que lhe prepararam o caminho, oriundos da subcultura afro-americana, no Brasil, é na década de 1980 que ele vai assumir uma dimensão de cultura popular, embora alguns artistas e bandas já viessem se destacando nesse gênero musical desde finais da década de 1950. Podem ser citados, como precursores, Sérgio Murilo (1941-1992), Celi Campelo (1942-2003), Roberto (1941-) e Erasmo Carlos (1941-), Tim Maia (1942-1998), algumas canções de Wilson Simonal (1938-2000) e Renato e seus Blue Caps, entre tantos outros, num primeiro momento, na década de sessenta, que culmina com o aparecimento dos Mutantes, por volta de 1966. Na década seguinte, além do movimento das bandas de rock progressivo, que influenciou os músicos do Clube da Esquina e deu origem a bandas como O Terço, A Bolha (que já vinha da década de sessenta), Vímana, dentre outras, além da segunda fase dos Mutantes, já sem Arnaldo e Rita Lee, houve a explosão nacional de dois grandes artistas que despontaram em suas carreiras solo: Rita Lee (1947) e Raul Seixas (1945-1989).

Um primeiro desafio da pesquisa foi fazer um recorte cronológico na década de 1980, que, a rigor, se inicia em 1981 e termina em 1990. Assim, estabeleci como critério a receptividade dos artistas ou bandas selecionados, medida a partir de suas vendagens e/ou repercussão no material bibliográfico, discográfico e filmográfico consultado. Desse modo, embora tenhamos selecionado uma ampla variedade de material, foram objeto de estudo somente aqueles discos que fizeram “sucesso”, o que significa, no contexto da pesquisa, uma média de cem mil cópias vendidas. Um segundo critério foi o do surgimento no cenário nacional. Desse modo, ao invés de acompanharmos a carreira de determinado artista ou banda, só levamos em consideração o ano do lançamento do seu primeiro disco, bem como seu impacto no cenário musical e no mercado fonográfico da época.

Com tais pressupostos, chegamos à conclusão de que a massificação do rock no Brasil se inicia em 1982, com o “boom” do rock carioca, representado pela Blitz, Herva Doce, Lulu Santos, Barão Vermelho, Sangue da Cidade, dentre outros, apesar de em 1980 e 1981 alguns discos de rock de bandas de artistas que vinham dos anos setenta terem sido lançados. 1982 é também o ano de lançamento do primeiro disco de heavy metal do país, pela banda paraense Stress, e viu a propagação nacional do movimento punk de São Paulo, com o festival Começo do Fim do Mundo, realizado no Sesc Pompeia, que se tornou até matéria do programa Fantástico, da rede globo. Em 83 o rock se transforma em pop rock e se populariza ainda mais, alcançando estações de rádio AM com Ritchie, Kid Abelha, Magazine, Absyntho, Titãs, Paralamas do Sucesso etc., mas também traz o lançamento, pela gravadora da globo, a Som Livre, paradoxalmente, de uma banda punk de Salvador, o Camisa de Vênus. Em 1984 vemos o surgimento do rock de Brasília no cenário nacional, com o Legião Urbana e o Capital Inicial, mas também de um rock experimental paulista que tem seu representante mais acabado nos Voluntários da Pátria. Em 1985, ano da realização do primeiro Rock in Rio, que consagrou os Paralamas do Sucesso, assistimos à popularização do rock paulista, por conta do lançamento dos discos do Ultraje à Rigor e de bandas como Metrô, Tokyo e RPM, que vai se tornar, no ano seguinte, um fenômeno de vendas, alcançando disco de platina. Em 86, surge no cenário nacional o rock gaúcho, com os Engenheiros do Hawaii, e a banda Zero, de São Paulo, vai ganhar disco de ouro, bem como o Plebe Rude, outra banda de Brasília. Enquanto isso, bandas dos anos anteriores que ainda não tinham alcançado sucesso maciço, como o Ira e os Titãs, finalmente se consolidam, enquanto novos estilos e novas tendências se lançam em São Paulo, como as Mercenárias, o Fellini e o Smack. Em Belo Horizonte, o Sepultura lançará seu primeiro disco nesse ano.

Em 1987, surge uma nova leva de bandas cariocas, representada pelo Hojerizah e pelos Picassos Falsos, e outra banda gaúcha, o Nenhum de Nós, faz sucesso. O surgimento de bandas como o Gueto, de São Paulo, que experimentava uma mistura de rock, funk e rap, já deixa entrever que o rock nacional já está dando seus últimos suspiros, embora bandas como Titãs, Legião Urbana, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso estejam em suas melhores fases, alcançando a venda de centenas de milhares de cópias de seus discos. Em 1988, decretamos o fim da era rock nacional, por várias razões. Em primeiro lugar, não aparece nenhuma banda de rock que estoure nacionalmente, embora no ano seguinte o Legião vá alcançar seu maior número de vendas, com As Quatro Estações, mas já não se tratava mais de rock, e sim de uma música popular que já tinha sido absorvida até mesmo pelos artistas de axé music, que no ano anterior já tinham alcançado o estrelato nacional, como foi o caso de Luiz Caldas, em 1987, e da banda Reflexus, já em 1988. Em segundo lugar, outros estilos musicais, como a já   mencionada axé music, o hip hop e o surgimento de novos artistas, como Ed Motta e Marisa Monte, tornaram o rock dos anos oitenta algo datado, o que se verificava pelo pouco apelo que tinham os novos artistas que se lançavam nacionalmente. Em terceiro lugar, finalmente, o rock parece ter alcançado seu limite nessa época, dando origem a uma série de revivals e releituras de estilos de décadas anteriores. No início da década de 1990, o movimento denominado pela mídia de mangue beat, ou "bit", tornou o rock da década de 1980 ainda mais anacrônico. O surgimento da MTV no Brasil, em 1990, e depois a popularização da Internet, mudou a lógica de produção e recepção/consumo cultural, abrindo espaço para uma espécie de pulverização de produtos culturais em luta contínua pela hegemonia nacional.

Com o distanciamento favorecido pelo tempo, podemos ver que os artistas e bandas que surgiram entre 1982 e 1988 marcaram uma geração e provocaram a construção de novas identidades, ao mesmo tempo rebeldes e alienadas. Ademais, a qualidade das músicas passou pela prova do tempo, pois muitos sucessos da época ainda tocam no rádio. Os elementos de rebeldia predem-se a aspectos comportamentais, novas posturas perante a sexualidade, a ecologia e a política, engajamento nos movimento políticos, num momento em que o país passava por um processo de democratização. Mesmo artistas de sucesso eram flagrados em situações públicas nada abonadoras, como os Titãs e o Barão vermelho, envolvidos com a polícia por conta de posse de drogas, ou Renato Russo, que declarou para a grande imprensa que era “panssexual”. No entanto, e ao mesmo tempo, muitos deles tocavam no programa do Chacrinha e namoravam com atrizes globais. O aspecto de alienação mais marcante prende-se à questão étnica, que nunca foi objeto de sério questionamento na época, o que fez com que achássemos natural o aspecto etnocêntrico das bandas que tentávamos imitar no Brasil.

Uma ideia mais completa da pesquisa se encontra no seguinte vídeo, disponível no canal do Youtube do Núcleo de Estudos de Cultura da UFS: 
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=GIGzr4y0mIE

Referências:
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Tradução: Adelaine La Guardia Resende, Ana Carolina Escosteguy, Cláudia Álvares, Francisco Rüdiger e Sayonara Amaral. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.
HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). Tradução: Marcos Santarrita. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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