Entrevista/Benedito Figueiredo

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“Nunca tive um encontro com o governador”

 

Logo após a convenção do PMDB que decidiu pelo apoio a candidatura de Marcelo Deda (PT), o presidente estadual do partido, Benedito Figueiredo concedeu  entrevista, revelando, entre outras coisas, que o tratamento dispensado pelo governador João Alves ao PMDB nós últimos anos não foi de aliado. Benedito disse que a decisão em apoiar a candidatura de Marcelo Deda foi por unanimidade no partido. A seguir a entrevista:

 

Cláudio Nunes – O que foi decisivo para que o PMDB ingressasse o bloco de partidos que apóia a candidatura de Marcelo Deda ao governo estadual?

Benedito Figueiredo –  O PMDB precisa reeleger o deputado federal Jorge Alberto e nós então vínhamos  mantendo conversas  no sentido do partido manter este representante no Congresso Nacional. Depois de várias conversas nós decidimos pelo entendimento com o PT, na medida que eles ofereceram a suplência para o Senado Federal e a coligação proporcional. Independente destas conversas que são naturais e pragmáticos, para mim teve o incentivo, à sensação de querer se reencontrar, não que tivesse errado no passado, mas de se reencontrar com o novo em Sergipe, com as mudanças, sonhar os mesmos sonhos e com quem sempre fiz política. Acho que foi isso que me levou e incentivou a outorgar esse apoio ao PT.

CN  – O PMDB no plano federal tem duas correntes, uma que apóia o governo Lula e outra que é oposição. Aqui em Sergipe, o PMDB sairá unido em torno da candidatura de Marcelo Deda?

BF – O PMDB está unido, a convenção foi por aclamação. Não tivemos nem outra chapa. O partido homologou a decisão com a presença enorme dos convencionais. Ninguém chegou para mim reclamando de alguma coisa. Agora é claro, que democraticamente terei que respeitar um ou outro pronunciamento de algum filiado que se posicione de maneira contrária. Mas isso será tratado posteriormente na reunião da Comissão Executiva e numa reunião mais ampla do Diretório para estudar a adoção de alguma medida, não punitiva, mas administrativa do PMDB, contra este ou aquele filiado que se pronunciar no sentido contrário. Mas volto a insistir, não trabalhei a minha vida pública deste o tempo de estudante na luta democrática para vetar posicionamento de quem quer que seja. Porém foi uma convenção por unanimidade. Não teve nenhuma manifestação contra, mas todo mundo tem direito de discordar, porém tem que seguir a orientação partidária.

CN  – Quando foi que o PMDB cessou as conversas com o PFL do governador João Alves Filho?

BF – Vou dizer e não sei se o povo de Sergipe vai acreditar. Nunca conversei com o governador João Alves, nunca mantive dialogo e nunca me encontrei com ele. Pode parecer estranho para um presidente de partido, mas nunca tive um encontro com o governador. Então fico a cavalheiro porque nunca assumi este compromisso. Não posso negar que Jorge Alberto tenha conversado, mas pessoalmente nunca tive este contato.

CN – Isso quer dizer que o governador João Alves subestimou o PMDB, já que na última eleição o partido foi decisivo para a campanha dele, inclusive o senhor participou da chapa majoritária?

BN  – Essa avaliação quem pode fazer melhor é ele. Sei da força do PMDB, do seu nome do respeito, de seus filiados e obviamente dos seus prefeitos, que são em número de sete, dos doze vice-prefeitos e de quase uma centena de vereadores. A força do PMDB está inserida dentro do Estado de Sergipe não só como força política, mas acima de tudo pelo que ele representa, pelo que o PMDB tem de história é um partido que sempre esteve em Sergipe ao lado do povo sergipano.

CN – Os dois deputados estaduais do partido, Garibaldi Mendonça e Marcos Franco vão seguir essa orientação da convenção?

BF – Acredito que sim. O deputado Marcos Franco estava presente na sede do partido quando Jorge Alberto disse que gostaria que a coligação fosse firmada com o PT e deu o seu acordo. E posteriormente esteve presente o deputado Garibaldi que no mesmo sentido se colocou favorável. Ambos votaram na convenção pela aliança.

CN – No seu discurso, na presença de Marcelo Deda o senhor disse que está voltando às origens quando começou a vida pública no movimento estudantil, como também o PMDB que foi formado no período da redemocratização do país.

BF  – Não posso negar que o PMDB foi um partido que representou uma frente. Agora com essa eleição com a clausula de barreira, com uma legislação mais rígida que faça a fidelidade partidária, acho que essa eleição é o começo da construção de uma nova política. Não pode ficar essa propulsão de partidos políticos e essa barganha que não leva a nada. O PMDB se insere dentro deste contexto. Acho agora mais do que nunca a percepção de Lula na medida que ele cometeu um grande erro via José Dirceu, onde os fins justificavam os meios, ao invés de fazer uma grande aliança pragmática, de coalizão resolveu achar de fazer uma base de sustentação por outro meio. O PMDB irá governar junto com Lula, quanto a isso ninguém tenha duvida é o partido ideologicamente, pragmaticamente e acima de tudo pensando no bem do Brasil, porque acredito que o segundo mandato ultrapassará todos os percalços que teve e o PMDB voltará a se inserir no cenário nacional. Não me venham com critica porque o partido não apresentou candidato. O PMDB tem tudo para se fortalecer fazendo a maior bancada na Câmara dos Deputados, como já tem no Senado e fazer o maior número de governadores. Você pode influenciar diretamente com um candidato ou indiretamente como estamos fazendo.

CN – Ao discursar no final da convenção do PMDB, o candidato Marcelo Deda disse que teve o pressentimento que ganhou a eleição com a entrada do partido na coligação. Foi surpresa para o senhor essa declaração?

BN – Vou fazer uma confissão. Foi um momento impar na minha vida. Poucas pessoas presenciaram como presenciei junto com meu filho, Eduardo Dutra, Edvaldo Nogueira a cena que se passou na minha casa hoje (sexta-feira) pela manhã. Acho que Deda estava realmente com a sensibilidade a flor da pele (na convenção Deda contou que a senhora que trabalha na casa de Benedito ao vê-lo começou a chorar e a rezar por ele e os dois abraçados choraram copiosamente). Vi o candidato a governador de Sergipe em prantos na minha residência a me abraçar dizendo que a partir daquele momento com a vinda do PMDB ele ganharia a eleição. Deus tomará que tenha contribuído para isso.

CN – Nos últimos quatro anos onde o PMDB ajudou na eleição de João Alves, o partido foi bem tratado pelo governador?

BF – Isso o povo e a imprensa podem dizer. O partido só tem rigorosamente uma secretaria de Estado ocupada pelo presidente de honra José Carlos Teixeira, da qual prefiro não tecer comentários. Porém o tratamento com o presidente do partido foi de nunca o PMDB se encontrar com o governador. E nas eleições municipais, o PFL fez simplesmente tirar prefeitos do partido, como Eduardo Marques de Pinhão, Nicinho de Ilha das Flores, o neto de Antônio Machado, de Brejo Grande e Laerte de Nossa Senhora de Lourdes. Todos eram peemedebistas e todos foram solicitados para ir para o PFL. E graças a Deus ao saírem do PMDB todos perderam. Posteriormente no processo final do prazo das filiações partidárias, só sabe o presidente do PMDB, o que foi feito para que o partido fosse esvaziado praticamente. Pelo menos como presidente tenho essa sensação e devo tornar público agora, não com despeito, mas com uma resposta ou até mesmo magoa. Mas a contestação de uma realidade.

CN – Benedito Figueiredo vai arregaçar as mangas da camisa pedindo voto para Marcelo Deda em todo o Estado?

BF – Sempre participei das campanhas políticas. Minha questão é porque dizem que sou um homem fechado, mas sou um homem de desprendimento. Se lá atrás, há quatro anos foi oferecido uma vaga no Tribunal de Contas e não aceitei e se hoje me foi oferecido ser o primeiro suplente de José Eduardo vou com muito orgulho. Vou para as ruas brigar, trabalhar como fiz em 1982, ainda jovem advogado, quando fui candidato à vice do grande senador sergipano Gilvan Rocha. É essa sensação de servir ao meu partido, sou fundador do então MDB em 1966, sempre emprestei meu nome para campanhas memoráveis como a de 1982, quando sabíamos que não iríamos ganhar. Quanto mais agora que tenho a certeza que o povo de Sergipe haverá de abraçar a candidatura de Deda e se abraçar a de José Eduardo com a mesma coragem e intensidade, tanto Deda como José Eduardo serão vencedores.

 

 

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