ESCOLA MÉDICA, UM BOM NEGÓCIO

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Os fatos estão a demonstrar que abrir uma escola de medicina neste país passou a ser um negócio altamente rentável e promissor. O sociólogo Darcy Ribeiro disse certa feita que o Brasil é o único país do mundo que permite ao sujeito criar uma escola – como uma padaria ou açougue – para ganhar dinheiro. Quando na década de 60 os médicos começaram a se mobilizar contra a exploração do seu trabalho pelos intermediadores mercantis, um certo ministro de Estado teria dito “Providenciaremos a formação rápida e efetiva de tantos deles que, logo, todos virão de joelhos procurar trabalhar a qualquer preço.” Dito e feito, a história revela que de 1961 a 1970 foram criadas 45 novas escolas, uma verdadeira “explosão” de cursos médicos, para atender a interesses políticos regionais ou de grandes aglomerados educacionais em detrimento da real necessidade dos mesmos.

Para que o leitor tenha uma idéia comparativa do que isso representa, de 1808 quando surgiu a primeira faculdade de medicina criada no Brasil) a 1960, portanto em 152 anos, foram criadas 22 escolas médicas, isso é, abria-se uma nova faculdade a cada 7 anos. Hoje temos quase 140 escolas de medicina com mais de 10.000 vagas oferecidas, das quais 55% em instituições públicas.


Todos sabemos que a proliferação desordenada de faculdades dificulta o controle adequado do ensino médico. Entretanto, interpretações equivocadas de texto constitucional vêm estimulando a abertura de cursos sem autorização. O jurista Saulo Ramos, em parecer abalizado, mostra toda a sua preocupação com o problema quando diz que a educação não pode ser transformada, sobretudo nos cursos superiores, em simulacro diplomado. E arremata: “ a sociedade deseja médico que saiba medicina, que se tenha preparado cientificamente para cuidar da saúde do povo e que não seja, pela precariedade do ensino improvisado na industrialização de diplomas, uma ameaça à vida do paciente; assim como o advogado mal formado é ameaça ao patrimônio e à liberdade individual; e o engenheiro, sem curso sério, é candidato a construir obras que desabarão.”

A política nefasta do Governo Federal de extermínio premeditado das escolas públicas de nível superior, que já está comprometendo gravemente a qualidade do ensino, não pode e não deve ser aproveitada para estimular a criação de escolas privadas. As constantes greves dos professores das universidades federais, sempre por melhores condições de trabalho e de remuneração, mostram de forma clara o pensamento do governo, trazendo prejuízos extraordinários ao calendário acadêmico e mais uma vez a sociedade como um todo paga a conta. Em Sergipe, temos o exemplo do Hospital Universitário, cujo funcionamento sempre deixa a desejar, apesar da qualidade dos médicos e do empenho dos seus gestores. As soluções que se colocam para resolver o problema são paliativas e apenas adiam o problema para frente. Tudo isso demonstra claramente que  não há interesse em preservar o ensino público e gratuito. O que se revela agora é que os setores interessados em absorver esse bom negócio começam a se movimentar com mais desenvoltura, sem maiores pruridos, ao contrário, cheios de razão e argumentos para justificar o investimento.

As entidades médicas nacionais vêm denunciando há muitos anos esse rolo compressor que é abertura indiscriminada de cursos médicos. Entretanto, nenhuma ação tem sido eficaz para que encontre eco no meio político. A discussão sobre o controle rigoroso para abrir escolas médicas não pode ser mais adiada. A sociedade brasileira não quer mais médicos. Ela quer bons médicos, mais qualificados, menos especialistas, mais preparados para atender as suas necessidades de saúde física e emocional.

        

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