Eu não desejei a morte de Fidel

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Um dia eu desejei a morte de Fidel Castro. Morte política, claro. Em março de 2007, escrevi um artigo com esse título “Muerte a Fidel”, quando o presidente do parlamento cubano propôs que o comandante, já octogenário e doente, fosse reeleito mais uma vez presidente do Conselho de Estado —correspondente a chefe de governo e de Estado daquele simpático país caribenho.

Naqueles dias, eu estava influenciado pela leitura de “Contra toda esperança”, livro do poeta Armando Valladares, que sofreu 22 anos encarcerado nas masmorras do regime castrista. Foi preso por um delito de opinião e sofreu o diabo ao não se assumir comunista, o que nos primeiros anos da revolução de 1º de janeiro de 1959 era considerado um pecado capital.

No começo dos anos 90, com a dissolução da União Soviética, que regava a ilha de recursos materiais e financeiros, Cuba havia chegado a um momento de inflexão: ou se abria ao mercado ou seria condenada a ficar mais pobre.

Meses antes daquele artigo, após sofrer uma cirurgia no intestino e já há 48 anos à frente da ditadura comunista, Fidel transferiu “provisoriamente” o poder ao irmão Raúl. Menos carismático e mais pragmático, o irmão mais novo vem desde então possibilitando maior integração da ilha com outras nações, inclusive com o maior inimigo, os Estados Unidos. Integração que foi facilitada após a chegada de Barack Obama ao poder. O que virá agora com o imprevisível Donald Trump só o tempo dirá.

O artigo, não necessariamente contra Fidel, mas a favor do povo cubano, despertou estranhamento e até a ira de amigos da esquerda. Talvez pela ousadia do título.

Desnecessário dizer que Fidel é um ícone, um símbolo de liberdade para os povos americanos, e um ídolo da juventude libertária. Inspirado na revolução cubana e na luta heroica de Fidel e de Che Guevara, e “cooptado” pelo querido professor de jornalismo Sebastião Figueiredo, eu ingressei no Partido Comunista Brasileiro (PCB), o saudoso Partidão, no começo dos anos 80.

Sonhava com a revolução socialista, mas fui um militante insignificante, de pouquíssima ou nenhuma contribuição à causa. Mas aprendi muito da parca convivência com figuras emblemáticas da luta pela sociedade ideal e em prol da justiça social, como Wellington Mangueira e Agonalto Pacheco — que morreu um mês depois daquele meu artigo, em abril de 2007, aos 80 anos.

Companheiro de Carlos Marighella e um dos 15 libertados em troca do embaixador americano Charles Burke Elbrick, o sergipano Agonalto Pacheco viveu dez anos no exterior, principalmente em Cuba, retornado ao Brasil após a anistia sancionada em agosto de 1979. Morreu desiludido com a política depois que seu querido PCB naufragou e seus companheiros se converteram ao liberalismo e inventaram de criar um novo partido, o PPS, capitaneado pelo outrora lúcido e resistente Roberto Freire.

Esse fato de 1992 também me fez abandonar para sempre qualquer interesse por filiação partidária. Ter convicções não significa necessariamente atrelamento a proselitismos ideológicos.

Mas, voltando a Fidel, como um símbolo de liberdade, um revolucionário de verdade, pode ter restringido a liberdade de tantos conterrâneos para conseguir impor sua doutrina e seus próprios conceitos?

No regime cubano, estima-se que entre 4 mil e 5 mil “contrarrevolucionários” acabaram no paredón. Por comparação, esse número, sempre contestável, é dez vezes superior aos assassinados pela sangrenta ditadura militar no Brasil. Há quem conte mais de 100 mil, incluindo os mortos ou desaparecidos em tentativas de fuga da ilha.

Não são números da jornalista e blogueira cubana Yoani Sánchez, conhecida militante anticastrista provavelmente financiada pela CIA. Assim como financiados pela CIA e pelos cubanos-americanos foram os mais de 600 atentados contra Fidel, o que ampliaram a sua mítica e o seu heroísmo no combate sem trégua aos interesses do gigante americano.

Mas, a despeito da simpatia que a revolução irradiou, Cuba continua sendo uma ditadura, onde desde 1959 quem manda é um Castro, onde não há eleições multipartidárias, não há imprensa livre, ainda existem dezenas de presos políticos e de onde os cubanos continuam fugindo como podem. No ano de 2015, mais de 40 mil cubanos chegaram ao solo norte-americano, número recorde segundo a Agência de Alfândegas e Proteção de Fronteiras do EUA.

Bem, podem contra argumentar, todos os anos milhares fogem da América Latina, inclusive do Brasil, em direção ao big brother do norte. É pode ser… E que o Estado cubano é melhor do que o brasileiro, pelo menos ao prover saúde, educação e segurança de qualidade. Certo. Mas quantos daqui gostariam de morar lá?

Abandonando a hipocrisia, ainda vale a máxima de que a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os demais, como disse Churchill, e o homem moderno não conhece democracia fora do sistema capitalista. Infelizmente — ou não.

Mas nem por isso eu desejaria a morte física do comandante, cuja importância para o século 20 é incontestável. Que figura foi mais icônica do que ele?
Fidel será julgado pelo tribunal da história.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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