Falsas políticas – ainda sobre House of Cards

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Para um brasileiro comum, a distinção entre Republicanos e Democratas pode ser algo difícil. Aqui a diferença entre PT e PSDB também já foi mais intensa, só hoje em dia uma nova perspectiva tenta juntar os dois numa espécie de história passada de um tipo de república da social democracia. O brasileiro um pouco mais próximo da política norte-americana, vê republicanos como conservadores, e democratas como esquerda.

Hoje em dia, o “instinto político” é outro. Falam como se não tivesse dado certo, a tal social democracia nas américas. A questão é que, desde o início da série da Netflix, o partido em foco é o de uma centro-esquerda norte-americana, aqueles democratas. O sulista Frank Underwood, interpretado por um dos maiores acionistas do canal stream citado, Kevin Space, é uma espécie de tirano que joga o jogo que é necessário hoje para se manter no poder. Porém, sendo um democrata, é alguém que comumente se coloca perto de Clinton, Obama e Al Gore. E estes, obviamente são, para muitos, nomes extremamente diferentes do que anda dominando o poder, na parte norte: Donald Trump.

Fato é, Kevin Spacey – como também David Fincher, primeiro diretor da série – não se preocuparam muito com esse sarcasmo diante dos “esquerdistas” do poder. Mas, evidentemente, estavam ali fazendo algo que não sabiam muito bem onde é que iria desaguar. O despotismo ficcionalizado, ali naquele início, não tinha nada de verossímil realista. Há disputas muito mais complexas, no bipartidarismo americano. Há, por exemplo, um espectro muito amplo nas chamadas primárias dos partidos, que envolve representações de outros partidos não mencionados na série. E há, certamente, uma razão para essa simplificação.

A crítica desaguou numa previsão, do rio de uma tirania fake que usa as redes sociais como base eleitoral. Tirania fake, pelo menos, até onde sabemos. É aquele instinto que aparece em crises da representação política, quando os desejos mais arcaicos ressurgem, e o despotismo de início das nacionalidades (o conservadorismo nacionalista) se reforma e volta com personagens midiáticos que parecem falsos em suas políticas – porém, bem verdadeiros como símbolos desse retorno ao bárbaro, e ao tirano ágil e forte, patrões, militares, machos alfa, patriarcas, presidentes com falas anti-democráticas. Após House Of Cards, é impossível não observar em Frank um desses tiranos.

Mas, como dito, é uma tirania falseada, ou, falsa. Um personagem falho, falso, que representa aquilo que menos se assemelha a um político moderno. Porém, eles, Frank, Trump, Bolsonaro, etc, estão envolvidos por um a multidão de instituições que foram firmadas nessa democracia que é observada como ultrapassada. Ainda que os seus discursos deformem esse período, o que os envolve acaba formando algo novo.

Os presidentes fakes, símbolos de um período desgastado, cujos eleitores preferem dar o recado indo ao exagero da simplicidade conservadora, têm algo de Frank. E são, por fim, um resultado de uma cena complexa que se condensou após as discussões políticas feitas em redes sociais, em geral, muito rasas. Por isso, talvez, são todos personagens que tiveram certo êxito nas redes de TV aberta, territórios decadentes do público abandonado. A semelhança entre eles permite a todos nós chegar à conclusão de que quando há crise política, de representação, a própria bolha de atuação (Washington, Brasília) acaba produzindo uma auto-defesa extremamente potente. Na mesma medida das ameaças que surtiram efeito após a grande crise imobiliária norte-americana.

A força com que estes personagens midiáticos tomam o poder é inigualável. E eles chegam dentro da axiomática do NOVO. São, portanto, a NOVIDADE. Novas políticas. Eles são elaborados dentro do poder estabelecido, que têm entranhas das mais diversas. Mas não ficam estáticos nessas entranhas: eles querem o domínio. Querem algo muito maior que somente ficar no poder, e Frank fala isso em vários diálogos: o Poder é maior que o Dinheiro, pois só com esse que se consegue este. A dependência é mútua, mas o processo…

No fundo, portanto, a previsão de House Of Cards não parece impensada. A crítica vai direta a quem se coloca à esquerda, mas funciona exatamente como alguém do espectro da direita. E, eventualmente, há pessoas do espectro da direita republicana que, por conta desse contexto estrutural, também se assemelham a políticos chamados de esquerda. A confusão é, enfim, processual. E produzida, também, por aqueles que não se afastam do chamado poder.

 

Veja uma boa matéria sobre a relação entre Underwood e os políticos brasileiros:

https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2017/05/frank-underwood-ou-politicos-do-brasil-descubra-os-autores-das-frases.html

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