Bole Bole, Saramandaia, Sérgio e Gustinho no Brejo da política

Quem passou pelo povoado Brejo neste fim de semana talvez tenha pensado que havia errado o endereço e entrado sem querer numa convenção eleitoral antecipada. De um lado, a tradicional Festa da Mandioca, capitaneada pelo prefeito Sérgio Reis do grupo Saramandaia. Do outro, o Arraial do Rancho, liderado pelo deputado federal Gustinho Ribeiro, pela ex-prefeita Hilda Ribeiro do grupo Bole Bole. O resultado foi uma situação rara até para os padrões políticos de Lagarto: ninguém sabia dizer onde havia mais gente, quem tinha mais lideranças ou qual dos dois lados fazia mais barulho. O certo é que o Brejo recebeu tanta gente que, por algumas horas, deixou de ser apenas um povoado e virou a capital política de Sergipe.

No lado da Festa da Mandioca, Sérgio Reis recebeu lideranças, aliados e uma multidão que transformou o evento em um dos maiores dos últimos anos. O senador Rogério Carvalho circulou entre os presentes, autoridades estaduais apareceram para prestigiar o evento e a máquina política do grupo Saramandaia mostrou que continua funcionando em alta rotação. Nas redes sociais ligadas ao grupo, o discurso era um só: a festa teria consolidado a força política da atual administração municipal e demonstrado que Sérgio continua ocupando o centro do tabuleiro político lagartense.

Do outro lado da cerca, porque em Lagarto a política às vezes é separada por poucos metros e muitos votos, o Arraial do Rancho também reuniu uma multidão impressionante. Gustinho Ribeiro aproveitou a oportunidade para reunir aliados, prefeitos e lideranças de diversas regiões. A prefeita de Ubaúba, Juliana do Mamão, apareceu acompanhada do deputado estadual Jorginho Araújo, numa presença que não passou despercebida pelos observadores políticos. Mas quem acabou recebendo atenção especial foi o ex-deputado federal André Moura. Muito cumprimentado, fotografado e cercado por lideranças, André foi tratado como alguém que continua ocupando espaço relevante no cenário estadual. Durante o evento, Gustinho e Hilda reforçaram publicamente apoio ao projeto político liderado por André, gesto que teve forte repercussão entre os presentes.

O mais engraçado é que, enquanto os grupos disputavam a narrativa sobre qual festa teria sido maior, muita gente resolveu adotar a filosofia mais inteligente da política sergipana: foi para as duas. Afinal, uma coisa é ser fiel a um grupo; outra é perder um churrasco, um forró ou uma boa conversa por causa disso. Teve liderança que apareceu na Festa da Mandioca, tirou foto, abraçou Sérgio, ouviu discurso, comeu mandioca e depois atravessou para o Arraial do Rancho. Teve gente que fez o caminho inverso. Porque, no fim das contas, como todo político sabe, voto não tem dono e amizade política costuma ser mais flexível do que discurso de palanque.

As redes sociais fizeram o que as redes sociais fazem de melhor: transformaram uma disputa de público em campeonato mundial de contagem de gente. Os aliados de Sérgio garantiam que a Festa da Mandioca tinha sido imbatível. Os apoiadores de Gustinho respondiam que o Arraial do Rancho havia superado todas as expectativas. A verdade provavelmente está no meio do caminho. Os dois eventos foram grandes, os dois mobilizaram multidões e os dois mostraram que a rivalidade entre Saramandaia e Bole Bole continua viva, saudável e extremamente lucrativa para quem vende água, milho, churrasquinho e cerveja.

No fim da noite, porém, uma conclusão se impôs acima das paixões políticas. O Brejo não foi para o brejo. Muito pelo contrário. O povoado recebeu talvez uma das maiores movimentações populares de sua história recente. Foram duas festas, dois grupos, dezenas de lideranças, milhares de pessoas e uma demonstração clara de que a política continua sendo um dos esportes favoritos de Lagarto. Se Bole Bole não fala com Saramandaia, se Sérgio não fala com Gustinho e se Gustinho não fala com Sérgio, isso é problema deles. O povo, mais sábio do que todos os estrategistas, resolveu fazer o que sabe fazer melhor: foi para as duas festas e deixou a disputa para quem gosta de contar voto antes da eleição.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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