Pensar os “temas sensíveis” através do cinema

Pedro Carvalho Oliveira

Professor de História Moderna e Contemporânea do curso de História da Universidade Federal do Vale do São Francisco

Coordenador do Grupo de Estudos História do Tempo Presente, Política e Movimentos Sociais (Gehpmov-CNPq)

Luana Pereira de Santana Silva

Graduanda em História pela Universidade Federal do Vale do São Francisco

Integrante do Grupo de Estudos História do Tempo Presente, Política e Movimentos Sociais (Gehpmov-CNPq)

Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid-CAPES-Univasf)

 

 

Com os recentes êxitos do cinema nacional conquistados por filmes como “Ainda estou aqui” (vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro) e “O Agente Secreto” (vencedor do Globo de Ouro na categoria de melhor filme de língua não-inglesa), uma pergunta se faz pertinente: o que motiva o interesse do público brasileiro pelos chamados temas sensíveis? Nas ciências humanas, utilizamos esta classificação para nos referir aos assuntos que despertam as sensibilidades do público, geram debates acalorados e dividem opiniões. É o caso da ditadura militar brasileira, tematizado pelos filmes de Walter Sales e Kleber Mendonça Filho que mencionamos. Trata-se de uma questão mal resolvida, disputada e apropriada de diferentes formas pelo público não especializado em análises como as que costumamos fazer na academia.

Um fenômeno parecido ocorreu no início do século XXI, quando filmes cujas tramas centrais giravam em torno dos fascismos ganharam propulsão na Alemanha. Os casos mais marcantes são os dos filmes “A Onda” (2006), ainda hoje um coringa para professores que desejam apresentar aos seus alunos um ilustrativo claro de como o fascismo funciona; e “A Queda – As últimas horas de Hitler” (2005), um drama requintado sobre o colapso do nazismo durante a ofensiva soviética, evento que pôs fim à Segunda Guerra Mundial. Entre os alemães, o nazismo é um tema sensível antigo, ainda capaz de gerar discussões difíceis, pois elas implicam em lidar com feridas ainda ardentes apesar do tempo transcorrido desde o fim do Terceiro Reich. Medo, vergonha e senso de responsabilidade voltam à tona nas telas do cinema.

Para irmos além da imagem do filme como peça de entretenimento, conforme nos orienta o historiador Alexandre Valim, no icônico livro “Novos domínios da História”, é fundamental entendermos que a interpretação de filmes deve ser feita observando-se o contexto de sua produção, para que se possa entender como ele se relaciona com as estruturas de dominação e com as forças de resistência, bem como com as ideologias que se apresentam nos debates e nas lutas sociais em andamento. Neste caso, deve-se tratar o filme como um conjunto de representações que remetem direta e indiretamente ao período e à sociedade que o produziu. O cinema é uma instituição inscrita no meio social e, por esta razão, influencia a opinião pública sobre determinados assuntos. Como produto de uma indústria, atende a demandas do público e busca educá-lo de alguma forma.

No caso de todos os filmes aqui sublinhados, existe um esforço para mediar o debate sobre temas sensíveis que interessam, de alguma forma, ao público. E em todos os casos, há uma clara abordagem crítica ao autoritarismo dos tempos da ditadura militar e da ditadura nazista em momentos nos quais, por um lado, o Brasil vive a ressurgência de discursos simpáticos aos “anos de chumbo” e, de outro, a Europa vivia a ascensão de partidos e movimentos neofascistas como resposta à crise econômica e migratória. Os filmes são uma fonte documental importante para o conhecimento de representações da realidade, e embora não nos digam muita coisa sobre o público que os viu e nem sempre esclareça detalhes sobre o sistema em que foram produzidos, eles possuem fortes vínculos com os dilemas das sociedades nos quais foram pensados.

Aos professores de História, os filmes servem como ótimos recursos didáticos para examinar os temas sensíveis, pois, quando devidamente mediados, se apresentam como um caminho para a reflexão e para a autonomia crítica. À sociedade como um todo, os filmes são uma oportunidade de repensar visões estabelecidas sobre processos históricos mais complexos do que podemos imaginar, muitas vezes reduzidos a debates ocasionais, atravessados por informações duvidosas e questionáveis. Longe de representar os problemas sociais em sua totalidade, os filmes nos atraem ao debate e às possibilidades de repensar o mundo em que vivemos.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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