
Capela é uma cidade que parece ter sido escrita por Ariano Suassuna depois de passar um fim de semana no São Pedro. Terra do Mastro, da cana de açúcar, do petróleo, da csrnallita, dos forrós que atravessam a madrugada e das disputas políticas que atravessam décadas. Com pouco mais de trinta mil habitantes, o município aprendeu a transformar cada eleição em capítulo de novela. E a eleição de 2024 resolveu inovar: em vez de terminar na urna, resolveu fazer temporada extra no Tribunal Regional Eleitoral e no Tribunal Superior Eleitoral.
O que começou como uma discussão sobre desincompatibilização virou uma das histórias políticas mais comentadas do interior sergipano. O eleitor votou, a urna contou, o prefeito tomou posse, mas a Justiça continuou discutindo se aquele registro poderia ou não ter existido. É como assistir ao final de uma partida e descobrir que o VAR ainda está analisando o lance dois anos depois. Enquanto isso, a cidade segue esperando o apito final.
No meio desse enredo aparecem personagens que já fazem parte do folclore político sergipano. De um lado, Manoel Messias Sukita dos Santos, conhecido carinhosamente por muitos como a Cutia de Capela. Do outro, o deputado Cristiano Cavalcante, chamado por aliados e adversários de Guaxinim do Baixo São Francisco. Se um roteirista inventasse isso para uma série, ninguém acreditaria. Mas a política sergipana tem o hábito de produzir personagens mais criativos do que qualquer plataforma de streaming.
A verdade é que a disputa entre os grupos de Sukita, Silvany Mamlak e Cristiano Cavalcante há muito tempo deixou de ser apenas uma divergência eleitoral. Mistura poder, rompimentos, alianças, família, história e influência regional. Em Capela, uma eleição nunca é apenas uma eleição. É quase um campeonato municipal permanente, onde a arquibancada nunca esvazia e cada decisão judicial vira assunto obrigatório da feira, da praça e da mesa do café.
Foi nesse ambiente que o relator Breno Bergson apresentou um voto duro, acompanhando o entendimento defendido pelo procurador regional eleitoral Rômulo Almeida. Ambos sustentaram que a desincompatibilização exigida pela legislação não pode existir apenas no papel. Para eles, não basta sair formalmente do cargo. É preciso que a população enxergue esse afastamento de forma clara. E foi justamente aí que a discussão jurídica ganhou musculatura.
O argumento do Ministério Público foi direto. Se o candidato comparece a uma inauguração, aparece vinculado a uma obra pública e continua sendo identificado como secretário perante a população, a finalidade da norma eleitoral pode ter sido comprometida. A tese é simples de entender até para quem nunca abriu um livro de Direito Eleitoral: não basta guardar a camisa do time no armário. É preciso parar de entrar em campo.
Mas existe outra questão que incomoda. O tempo. A democracia precisa de julgamento, mas também precisa de velocidade. Capela não pode viver eternamente entre recursos, pareceres, pedidos de vista e expectativas. O cidadão quer saber quem governa, quem responde pelos atos administrativos e qual será o destino definitivo do município. Justiça tardia, em política, costuma gerar mais dúvidas do que respostas.
No fim das contas, Capela continua sendo Capela. Terra de tradição, de riqueza cultural, de forró, de petróleo e de personagens que transformam a política numa mistura de tribunal, praça pública e literatura popular. Entre a Cutia, o Guaxinim, os autos processuais, os votos dos magistrados e a expectativa da população, uma coisa é certa: o povo de Capela merece que essa novela finalmente encontre seu último capítulo. E, de preferência, sem precisar de mais uma temporada.
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