Sabotagem ou desculpa hidráulica?

 Sergipe acordou de novo sem água. Na verdade, “acordou sem água” já virou quase nome oficial do Estado nesses últimos meses. Desde a entrada da Iguá Saneamento, a população passou a conviver com uma coleção criativa de justificativas: rompimento de adutora, queda de pressão, manutenção emergencial, excesso de chuva, falta de chuva, vento contrário, alinhamento de planetas e agora a mais nova temporada da série: sabotagem. O sergipano abre a torneira e não sai água, mas sai enredo. E o pior é que a conta continua chegando com a pontualidade de um cobrador apaixonado.

Neste final de semana, mais uma vez a zona sul de Aracaju ficou seca. Mosqueiro, Zona de Expansão, Santa Maria, Atalaia e toda aquela região que vende vista para o mar e entrega balde no banheiro viveram novamente o velho esporte olímpico sergipano: correr atrás de carro-pipa. A população se revoltou, houve manifestações na Rodovia dos Náufragos, especialmente na altura do Condomínio São Lourenço, com moradores cobrando explicações e algo revolucionário chamado água encanada. Veja que ousadia: em pleno século XXI, as pessoas ainda insistem em querer água dentro de casa.

Aí veio a palavra mágica: sabotagem. Pronto. A imprensa acordou com essa palavra na boca, radialistas já davam laudo pericial de estúdio, comentaristas de café juravam que “pelo que eu vi, pelo que eu entendo, foi sabotagem”. Meu amigo, sabotagem não é palpite. Sabotagem é crime grave. Se foi sabotagem, precisa de Polícia Civil, Instituto de Criminalística, perícia técnica, laudo, investigação séria e responsabilização. Não basta alguém olhar para um cano e dizer com voz grave: “isso aqui tem cara de sabotagem”.

E aí nasce a pergunta que a população faz com toda razão: se aquele ponto era tão importante para abastecer boa parte da zona sul, por que ele estava mais abandonado que promessa de campanha depois da posse? Disseram que era um local de difícil acesso, no meio do mato, escondido, estratégico e fundamental para o abastecimento. Excelente. Justamente por isso deveria ter vigilância reforçada, câmera, sensor, monitoramento e até um cachorro com MBA em segurança patrimonial. Hoje até portão de galinheiro tem câmera comprada na Shopee. Como um dispositivo vital para abastecimento de água de milhares de pessoas não tinha proteção compatível?

A população não é ingênua. Ela pode até aceitar a possibilidade de sabotagem, porque crime existe e precisa ser tratado com seriedade. O que ela não aceita é sabotagem virar cortina de fumaça para esconder incompetência administrativa. Porque a pergunta continua viva e molhada de indignação: e a falta d’água no restante do Estado inteiro? Gararu, Monte Alegre, Barra dos Coqueiros, Socorro, bairros inteiros de Aracaju. Foi sabotagem também? Existe um sindicato nacional dos sabotadores hidráulicos atuando em Sergipe ou estamos apenas diante de uma gestão que ainda não conseguiu entregar o básico?

O problema da água em Sergipe não nasceu ontem nem começou com essa suposta sabotagem. Ele virou um dos maiores passivos políticos do governo Fábio Mitidieri. A concessão da distribuição foi vendida como a solução moderna, eficiente e quase milagrosa. O discurso era bonito, parecia apresentação de PowerPoint com trilha épica. O resultado, até aqui, é o povo tomando banho de caneca e aprendendo a calcular descarga como se fosse orçamento de guerra. A nova concessionária culpa a velha estrutura da DESO. A velha estrutura culpa o passado. E o cidadão culpa todo mundo, com razão.

O governador precisa entender que faltar água não é um detalhe administrativo. É humilhação coletiva. Hospital sem abastecimento, comércio prejudicado, família sem banho, escola improvisando rotina e dona de casa fazendo planejamento hídrico digno de conferência da ONU. Não dá para governar um Estado como se água fosse um luxo opcional. E não dá para achar que a população vai engolir qualquer explicação servida com voz firme e coletiva de imprensa. Sergipe não quer roteiro policial. Quer água na torneira.

Se foi sabotagem, provem. Mostrem imagens, perícia, responsáveis, prisão, investigação e transparência. Se não foi, assumam a falha com honestidade e parem de tratar o povo como plateia de suspense ruim. O sergipano não quer participar de CSI da Adutora. Quer apenas abrir a torneira e ver água sair. E convenhamos, isso não deveria ser um pedido revolucionário. Deixe aqui seu comentário: você acredita em sabotagem ou acha que estão tentando empurrar mais uma desculpa encanada para a população?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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