Valmir falou sem filtro e a internet fez recorte

Valmir falou sem filtro, a internet fez recorte e a política entrou em modo tribunal de frase

A fala de Valmir de Francisquinho sobre a esposa “não se meter em política” virou mais uma dessas explosões modernas onde uma frase sai do homem do campo, entra na internet e reaparece completamente picotada no tribunal das redes sociais. O homem falou do jeito que sempre falou. Sem consultor de linguagem, sem roteiro de marqueteiro paulista e sem aquele medo plastificado que hoje domina parte da política brasileira. O problema é que o sertanejo fala com sinceridade bruta. E sinceridade bruta, quando cai no Instagram, muitas vezes vira escândalo gourmetizado por quem nunca ouviu conversa de feira, de fazenda ou de alpendre.

O contexto da fala é muito mais simples do que tentaram vender. Valmir respondeu às especulações de que poderia colocar a própria esposa na chapa, depois de muita gente insinuar isso nos bastidores políticos e até em programas de rádio. E ele respondeu do jeito dele: “minha mulher não se mete em política”. No sertão e agreste, isso não é necessariamente ofensa. Muitas vezes é apenas descrição da realidade doméstica daquela família. Tem mulher que gosta da política. Tem mulher que quer distância dela. E isso não transforma automaticamente ninguém em vítima de opressão medieval. O povo da internet às vezes trata frase de homem do campo como se estivesse analisando tese de doutorado da Sorbonne.

E convenhamos, existe uma ironia gigantesca nessa polêmica toda. Enquanto tentam carimbar Valmir como alguém distante das mulheres na política, a vice dele hoje é justamente uma mulher, Priscila Felizola. Uma mulher respeitada, articulada, forte politicamente e que circula com desenvoltura no meio político sergipano. E mais curioso ainda: até agora muitos outros agrupamentos sequer apresentaram vice mulher. Ou seja, o mesmo Valmir acusado por alguns de “machismo” é justamente o que aparece com uma mulher ocupando espaço central no projeto político dele. A política brasileira às vezes consegue produzir umas contradições tão engraçadas que nem roteirista de humor conseguiria escrever melhor.

Priscila, aliás, está longe de ser figura decorativa de chapa. Tem personalidade própria, presença política, sabe conversar, articular, ocupar espaço e falar o que pensa sem precisar de tutor político segurando na mão. Vai para reunião, feira, caminhada, encara bastidor, participa de debate e nunca foi tratada como alguém escondida atrás de candidatura masculina. Pelo contrário. O curioso é que agora muita gente resolveu virar guardiã oficial das mulheres na política justamente quando Valmir coloca uma mulher como vice. A internet descobriu o feminismo eleitoral exatamente no momento em que a chapa dele ganhou força no Estado.

E aí entra a parte mais engraçada dessa novela política. Porque quando Priscila Filizola foi praticamente colocada de lado na composição governista para abrir espaço a Jefferson Andrade, o silêncio foi tão grande que dava para ouvir o barulho do vento passando. Pouca gente apareceu indignada. Pouca gente fez discurso emocionado. Pouca gente perguntou onde estava a valorização feminina naquele momento. A política simplesmente olhou para a situação, ajeitou o paletó e seguiu a vida normalmente. Agora, bastou Valmir soltar uma frase típica de homem do interior, daquele jeito bruto e sincero de quem fala sem teleprompter, que surgiu uma convenção internacional de especialistas em interpretação. O Estado riu. Porque o povo sabe exatamente diferenciar sinceridade popular de maldade política.

A verdade é que parte da repercussão também nasce porque Valmir fala como povo. E político que fala como povo corre risco permanente de virar recorte. O sujeito do sertão fala “mulher minha não se mete em política”, e segue a vida normalmente. Só que quando a frase chega na bolha digital, ela ganha filtro ideológico, trilha sonora dramática e análise de mesa redonda. A política brasileira entrou numa fase em que até expressão popular precisa passar por perícia semântica antes de ser pronunciada.

No fim das contas, a fala de Valmir parece muito mais um retrato da sinceridade interiorana do que qualquer manifestação de misoginia organizada que tentaram construir. Críticas vão existir, interpretações também, porque política é isso. Mas transformar toda expressão popular em crime cultural talvez diga mais sobre a patrulha moderna das redes do que sobre o próprio Valmir. O Pato faliu olhando no olho, sem filtro e sem manual corporativo de comunicação. E talvez seja exatamente essa espontaneidade que explique por que tanta gente continua se identificando politicamente com ele.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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