FELICIANO NÃO EXISTE

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Feliciano é um personagem de si mesmo. Parece até que os pais botaram o nome de propósito. Feliciano é uma vítima da aparelhagem epistolar, clerical, evangélica. Se fosse um país sério, ele nunca seria nem síndico de um prédio, imagine deputado federal. Feliciano não é homofóbico, nem racista como dizem, – ele é uma marionete, cujo partido o usa para ridicularizá-lo frente à opinião pública, sob a égide de defesa da família. E ele embarca nessa como um tiririca, que não ofendamos o Tiririca com a comparação. Ele até um cara bacana.

Se a Constituição deste país nunca foi respeitada, no mínimo, o poder judiciário tem meios suficientes para dar um prazo de 24 horas para Feliciano deixar a comissão de direitos humanos. Se o judiciário não quer intervir, é cúmplice. Então colocam no presidente da comissão,   uma faixa de super candidato à Presidente da República e divulgam que ele teve mais de 200 mil votos e Jean Willys 27 mil. Que parâmetro existe de comparação? Pastores usam hoje suas ovelhas para se elegerem, fortalecer as suas convicções, barganhar poder. Eis o caso da fortuna de Malafaia, RRSoares e Edir Macedo.

O caso de Feliciano merece um agravo regimental da Câmara Federal. Que importância tem se você gosta de homens, e  isso virar bandeira principal  de uma comissão, com tantos problemas num  país que não defende as mulheres que são mortas e espancadas, negros que são escravizados, crianças no trabalho forçado e prostituição,  índios em Belo Monte sendo tirados de suas terras e aí vai uma série de desrespeito aos direitos do cidadão: os sem terra, os presídios superlotados, crianças fora da sala de aula, hospitais que deixam pessoas morrer sem atendimento, polícia que atira e mata  porque “pensou que” e uma centena de torturas psicológicas, físicas e de total negligência do poder público. O PSC, partido que diz amém ao Governo Federal,  subtrai de si mesmo a oportunidade de tirar um insano BBB, de uma comissão que não acrescenta nada, só admoesta, cerceia, fere princípios básicos de civilidade.

Na comissão de direitos humanos seu Feliciano já usou de prorrogativas próprias de quem perdeu a razão. Mandou prender um manifestante, pedindo que provasse que ele era racista e agora conseguiu aprovação para as suas sessões serem secretas. Este é um retrato do país. Não há governança, poder judiciário ou qualquer forma de impedir um insano epistolar fanático representar a opinião de todos, como se ele vivesse num mundo único, próprio dele, na sua casa, educando os seus próprios filhos ou a clã de seus fiéis que votaram nele em Ortolândia, cidade em que nasceu.

Que a maioria da população  apoia Feliciano,  não temos dúvida. Que a população é contra o desarmamento e a favor da pena de morte nós sabemos. Que muitos promotores são a favor da maior idade penal aos 16(essa balela!) também. O que vemos é uma marcha fria e sórdida, orquestrada ainda nos porões da ditadura reinante, avalizada por uma intolerância que nem  a ciência, nem a história comportam mais.

Não há na história deste país, Câmara Federal mais desprezível. Trancamos nossos filhos nas jaulas de nossas coberturas ou nas gaiolas  “da minha casa, minha vida.” Dilma posa de boa moça, finge que nada vê com ânsia de reeleição. Este é um “ tempo de partido, tempo de homens partidos”, diria Drummond. “Que importa com quem você se deita”, caetanando um pouco. Vivemos um momento de tristeza profunda: os conceitos pessoais viraram ordem, alçapão a título de celebridade, num mundo esvaziado de conceitos e humanidade.

Que diferença existe entre um presidente de comissão de direitos humanos e um atirador numa escola de Realengo.? Quantas pessoas, Feliciano não mata a cada palavra pronunciada da sua boca. Sem noção, sem sentido, – não, tudo consciente. Este senhor de nome Feliciano disse em entrevista à Folha: “… Eu expliquei que o fato é que os africanos descendem de um filho de Noé que havia recebido uma maldição patriarcal. Esse é o fato. Não tem como fugir disso. Você me permite ler?” – com a Bíblia na mão.  Dentre outras aberrações ele diz: “Islamismo é uma religião muito forte. E é uma religião, nesse momento eu até pensei, que nós do ocidente precisamos pensar um pouquinho mais acerca deles. Você nunca vai ver ninguém fazer com alguém do Islã o que estão fazendo comigo. E olha que o Islã tem uma condenação sobre o ato, por exemplo, da homossexualidade ferrenha. Eles tratam a ferro e fogo. Inclusive, punem com a morte.” É esta a cara de Feliciano e do Brasil.

Tudo isso me fez lembrar Hanah Arendt e cito mais adiante um texto  de Inácio Strieder onde o filósofo analisa exatamente esta questão do mal. O mal banalizado dos nossos dias. A ira por qualquer vicissitude. O que é particular e tornamos público, a possibilidade que temos destruir o outro, porque não concordamos com as diferenças e quem pensa diferente da gente. A institucionalização da intolerância.

Diz Strieder: “A questão do mal acompanha a história da humanidade. Entender os males praticados pelos próprios homens nunca foi fácil, pois se o homem  foi criado por um Deus bom, por que sua criatura, muitas vezes, age com tanta maldade? Frente a esta questão discute-se o livre arbítrio, a corrupção da natureza do homem, a origem animal do homem, e outros aspectos relacionados com a origem e o sentido da vida humana. Como, às vezes, os males causados pelo homem são tão monstruosos, que já não cabem na compreensão de um ser, cuja origem se atribui a um Deus bom, demonizou-se o mal, considerando que os demônios usam os homens para praticarem estes males monstruosos de que temos notícia na história, e com os quais nos confrontamos quase diariamente. Neste sentido, constata-se que em nosso tempo histórico, séculos XX e XXI, o mal assumiu proporções gigantescas. As duas guerras mundiais, os campos de concentração, o terrorismo, as guerras fratricidas… também hoje nos colocam de forma dramática a questão: por que tanta maldade? Esta pergunta está na boca do povo  e na pena dos acadêmicos. Como referência da preocupação com o problema do mal, pode-se examinar as reflexões da filósofa Hannah Arendt, que tenta aclarar a existência do mal com sua tese sobre o "mal banal". Hannah Arendt considera que este mal é um mal sem origem demoníaca, em que os atores não são monstros nem psicopatas, mas simplesmente homens banais, comuns.

Hannah Arendt tomou como protótipo do homem banal o carrasco nazista Eichmann, condenado e enforcado em Israel nos anos de 1960. Durante o processo, Eichmann, que enviara milhares de judeus às câmaras de gás, não demonstrou nenhuma anormalidade psíquica, nem arrependimento, diante das monstruosidades que praticara. Pelo contrário, externava a consciência  de que fora um funcionário público exemplar, cumpridor de seus deveres. Segundo ele, não lhe competia analisar  criticamente as ordens de seus superiores, e nunca tivera ódio dos judeus. Arendt classifica o mal praticado por Eichmann como o "mal banal", feito por homens que não pensam criticamente. Segundo Arendt, talvez pelo aumento demasiado da população, e consequente burocratização da sociedade, cada vez mais os homens são considerados supérfluos. Assassinar 10, 20 ou milhares é percebido,    hoje em dia,  como absolutamente banal por aqueles que dominam a sociedade e pela população em geral. E isto faz com que diminua a consciência crítica dos cidadãos.

Assim, grande parte da humanidade se tornou banal, avaliando as monstruosidades dos males diários como absolutamente banais. O fruto disto são homens que não pensam criticamente, que são capazes de praticar males monstruosos sem remorso, e com a consciência de terem cumprido seu "dever". Mas ao lado destes, que vivem a vida de forma totalmente secularizada, aumentam também aqueles que, num mundo religioso alienado, atribuem os males monstruosos dos homens a uma interferência demoníaca na humanidade.A tese do "mal banal" de Hannah Arendt, embora não pareça ser uma tese completa para explicar os males praticados pelos homens, mas serve como explicação para muitos comportamentos humanos de hoje.

De fato, diariamente somos confrontados com homicídios e monstruosidades sem fim por motivos totalmente banais. Males, ao que parece, sem raízes lógicas, nem explicações humanitárias. A pura irracionalidade. E por que, segundo Hannah Arendt, existiriam tais males? Porque o ser humano não é educado para pensar criticamente a realidade da vida e a organização das estruturas sociais. Fundamental seria a educação da juventude, tornando-a capaz para analisar criticamente as práticas religiosas, culturais e políticas de nosso tempo.”   Feliciano não deve ter tido juventude.

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