Felicidade, uma resistência

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Aprendi com um mestre: ser feliz é difícil, não porque seja difícil encontrar a felicidade, mas porque é difícil mostrar-se feliz aos outros. Vivemos numa era baseada na escassez, na falta de tudo: para que seja lucrativo, para que seja mais gostoso, para que seja melhor, é preciso que seja pouco. E felicidade é abundância. Parece “natural”, então, que a abundância seja vista com desconfiança num ambiente que valoriza tanto a escassez.

Abundância, claro, neste caso, não está relacionada com matéria e dinheiro. Felicidade, parece-me, tem mais a ver com doar do que com receber. Tem muito a ver com gratidão, por ter e por não ter, seja lá o que for, até mesmo – e principalmente – as não-coisas. Felicidade é abundância do sentir, e não criar desejos.

Cultivar a felicidade é uma forma de resistir a um sistema de vida baseado em negações e formas cada vez mais profundas de exploração e sofrimento. Ser feliz apesar de tudo, é como planta que encontra a fraqueza do concreto e o rompe, tomando de volta para si a terra e a luz.

Entretanto, a felicidade não é bem vista nesta sociedade sofrida. É quase uma afronta ser feliz, um sorriso é um incômodo. Se acaso alguém sorri mais do que chora é imediatamente visto com desconfiança: não pode ser real. As pessoas ao redor logo formam uma corrente, uma forte onda para trazê-lo(a) de volta ao mundo dito “real”, em que a tristeza parece mais forte que o amor. É preciso reconverter os mentirosos que acreditam na felicidade, é preciso que vivam a escassez do sentir também.

Não se pode ser feliz, dizem, porque os outros sofrem, porque há muita escassez, porque não é adequado, porque o mundo é triste, porque está tudo errado, porque a vida é um castigo dos céus, dos infernos, de qualquer um, porque está muito quente, muito frio, chove muito, nunca chove, por isso ou por aquilo, por nada. Porque se está vivo, não se pode ser feliz, a menos que. E essa frase nunca é completada adequadamente, nunca, ao menos, com algo que seja possível concretizar. Uma forma de manter a felicidade, essa ameaça, sempre longe.

Quero crer que não é por maldade que tentam reenquadrar os que fogem das linhas, às vezes sequer é inveja. É que numa sociedade em que seguir um padrão e parecer-se com um modelo tornou-se um imperativo, aquele(a) que foge às regras – mesmo que fugir às regras signifique ser feliz – precisa ser recuperado(a). As pessoas se incomodam nem tanto por inveja, mas por perceber que há alguém próximo a si que saiu do trilho, que burlou as regras – jamais escritas, jamais desobedecidas. É preciso que tudo aconteça conforme o roteiro, porque senão todo esse conjunto de regras seguidas cegamente é colocado em xeque, torna-se questionável, pode de repente ser desfeito. E o que se colocará no lugar? E como viver sem um roteiro pré-definido? Onde está a rede de proteção?

As pessoas felizes, estranhos humanos, resolveram sair do roteiro, improvisam, dançam e cantam sem regras. São uma ameaça, pois. Porque, ao negarem as regras e ainda assim sobreviverem, e mais, serem felizes, desabilitam um discurso: siga as regras, seja como todos devem ser e estará sempre em paz. Esses estranhos mostram com seus sorrisos que há sendas, fissuras, há outros caminhos possíveis a serem percorridos.

Estranhos tempos, estranha sociedade em que, como diria o poeta, a felicidade é uma arma. Poderosa arma que, contaminante, se espalha silenciosa, através de sorrisos, abraços, subterrâneos gestos de amor. A felicidade avança. E resiste a uma era que pretende nos fazer indiferentes e insensíveis seres humanos. No pasarán!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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