FELIPE, O HOMEM

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Certa vez o filósofo Diógenes saiu pelas ruas de Atenas, apenas com uma lanterna acesa na mão, a procura de um homem que fosse digno de assim ser chamado. É claro que não procurava apenas um exemplar qualquer da espécie que pertence ao gênero dos primatas, pois, deste modo, a busca terminaria na primeira esquina que dobrasse. O que realmente desejava era encontrar um exemplo a ser seguido e não um exemplar a ser encontrado ou, escrevendo em outras palavras, o Homem e não apenas um homem.


A história não diz com clareza se Diógenes encontrou o Homem que tanto buscava, entretanto ele, com certeza, nos deixou o legado de que devemos buscar o sentimento de humanidade que nos diferencia entre os mais diversos animais. Também é certo que a busca pela perfeição humana não é fácil, ainda mais em uma sociedade assumidamente plural, em que os valores e padrões de comportamento se alteram conforme o tempo ou costume do lugar. Não raro, incentivado pela própria necessidade de evolução da própria humanidade, especialmente quando corretamente faz romper os dogmas de algumas comunidades ou desmascarar a falsa propaganda de outras.


O tempo mostrou que o rei francês Felipe IV, que na sua época era chamado de “O Belo”, fez de seu reinado um amontoado de intrigas, assassinatos, perseguições e prisões, das quais não escaparam os Templários e o próprio papa. O rei macedônio Felipe II, pai do famoso Alexandre, conhecido mundialmente como “O Grande”, igualmente não escapou da mesma fúria, ganância e intrigas palacianas que vitimou o seu rebento. E assim aconteceu com vários outros personagens que se pretenderam afirmar como exemplo maior da humanidade, todos eles acreditando que o “ter” é o melhor caminho para a conquistar a tão buscada dignidade.


Trilhando caminho oposto, crendo na supremacia do “ser” sobre o “ter”, destacou-se um outro Felipe, antes diferenciado pelo Aguiar que carregava no nome, um jovem sergipano que se fez Homem aos dezesseis anos de idade. E esta mágica transformação se fez quando menos dele se esperava, mais exatamente quando descobriu que um invencível câncer se apoderou de seu corpo. A partir deste exato instante, como somente acontece com aqueles destinados à encantar o mundo, cuidou ele de demonstrar que “ter” o seu corpo não significava usurpar o “ser” que nele provisoriamente habitava. 

 

E enquanto ali residiu, fez de tudo para acalentar o coração daqueles que chorariam quando a Batalha do Corpo fosse vencida, fazendo-os realmente acreditarem que depois se sagraria vencedor, agora quando fosse travada a definitiva Batalha dos Espíritos. Para isso, fortaleceu a resistência amorosa dos pais e solidificou a trincheira da esperança nos parentes que não aceitavam a perda de apenas uma das batalhas. Mais ainda, ampliou a aliança dos resistentes, conclamando os amigos a lutarem o “bom combate” que, altruísta e corajosamente, assumiu para si.

 

É o que fez através dos e-mails que mandou para os amigos, fazendo constar o seguinte brado de guerra: “Para que levar a vida tão a sério, se a vida é uma alucinante aventura da qual jamais sairemos vivos?”. É o que fez, quando conversando com a minha filha Manuela no MSN Messenger, brincava com ela arrancando com facilidade os poucos cabelos que lhe restavam na cabeça, após uma desgastante quimioterapia a que havia sido submetido. É que fez quando, depois de todo sofrimento físico, saiu com os seus jovens aliados para se juntar à multidão que dançava alegremente ao som da banda baiana Chiclete com Banana.

 

O nosso Felipe, agora corretamente batizado como sendo “O Homem”, demonstrou que a busca pela humanidade não é uma causa perdida, mesmo quando todos os sinais apontam que é impossível seguir em frente. Demonstrou, também, que a esperança nunca pode ser vencida, especialmente quando se faz do “ser” a maior referência da vida, mesmo quando se sabe que o “ter” permanece louvado como sendo a grande divindade terrena. Demonstrou, ainda, que a idade ou a dor não impede que a busca de Diógenes chegue ao seu fim de forma absolutamente digna, não mais se desprezando o verdadeiro sentido da expressão Humanidade.

 

E quando todos compreenderem o correto significado da palavra Humanidade, poderemos, com certeza, permitir que o sol da vida aqueça e faça brotar a semente de um mundo melhor. E quando o broto esboçar os primeiros sinais de que a árvore humana não mais poderá ser cortada, multiplicando-se em outras árvores, bosques e matas. E quando a floresta estiver formada, todos serão modelos buscados e dignos, encontrados fartamente nas esquinas da vida, alguns apelidados de Felipe, Diógenes, Alexandre, Manuela, José, Maria, Cristina, João ou outro nome qualquer.

 

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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