FICAR ATENTO É PRECISO

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Não é preciso estar antenado para perceber a imensa rede de solidariedade que se forma em torno do Natal, seduzindo a todos para que dela participe, ainda que a paquera/convite seja apenas uma pequena doação material. Este ano o presente-solidário mais solicitado, repetindo a tendência do Natal anterior, tem sido o conhecido alimento não perecível, embrulhado como destaque em centenas de campanhas humanitárias. Presentear um necessitado com um NATAL SEM FOME tem se tornado o sonho solidário dos voluntários de dezembro, fazendo da motivação e da mobilização social verdadeiros despertadores sociais.


Em todo lugar se destaca alguém trabalhando na busca de alimentos ou presentes para os mais necessitados, talvez embalado pela ainda confusa proposta de FOME ZERO do Governo Lula. Vozes famosas da televisão e do rádio, bem assim dos megafones anônimos, repentinamente entraram na mesma sintonia natalina apenas divergindo no destino dos alimentos colhidos. Matriculas são trocadas por alimentos, ingressos de show e exposições se transformam em comidas e até passagens áreas fazem pousos suaves no globo solidário brasileiro convertendo-se em dinheiro para aplacar a crônica fome de milhões de brasileiros.


E não se pode estranhar esta atitude, pois Natal é sinônimo de compartilhamento, de dar e receber simultaneamente a felicidade, pouco importando o valor ou a ordem da coisa presenteada. Natal é ainda momento de congraçamento, é participar de todas as campanhas de solidariedade, não interessando se apenas com alguns alimentos, mesmo porque lembrar dos que têm fome é mais do que cumplicidade. Natal é, em síntese, uma boa oportunidade para agir, é fazer do NATAL SEM FOME uma realidade, ainda que digam que isso é pouco ou quase nada, pois o que consola o doador é saber que ele fez a sua parte.


E por que esta rede de solidariedade se torna tão visível na época de Natal? Será que a solidariedade é um desses raros presentes que ficam congelados no Pólo Norte, somente podendo ser revelado e desembrulhado quando Papai Noel nos visita? Ou a solidariedade sempre esteve por aí, não sendo agora percebida porque estávamos entretidos com outra coisa, ainda que de conteúdo igualmente nobre?


Já que estamos na época do vestibular, não permitindo deixar perguntas sem respostas, faço a minha opção pela última alternativa. E esclareço a minha resposta com uma metáfora que comumente gosto de citar, pedindo que, por favor, não a confunda com uma dessas ilustrações presidenciais. Nada contra a forma do presidente comunicar-se com o povo através de símbolos verbais, mesmo porque sei que é difícil explicar em bom português algumas reformas ou expulsões partidárias.


Mas voltemos à minha resposta e ao exemplo que utilizarei, mantendo, desta forma, a promessa didática assumida. No momento em que compramos o primeiro carro, principalmente se “zero de fábrica”, temos a sensação que adquirimos um modelo exclusivo, especialmente fabricado para o nosso especial consumo. No entanto, assim que saímos orgulhosamente para estrear a nossa suada aquisição, abismados, somos forçado a perceber que existe circulando pela cidade centenas de carros idênticos ao nosso, inclusive da mesma cor.


É exatamente este o fenômeno que ocorre no Natal, pois dezembro é o mês em que as pessoas costumam sair de suas frias garagens para circular pela cidade, mesmo que não saibam dirigir, buscando se aquecer no calor humano da solidariedade. Como elas estão atentas nesta questão, percebem facilmente que outras pessoas também estão fazendo exatamente a mesma coisa, inclusive participando da mesma rede solidária. É dizer: basta um pequeno olhar de soslaio em nossa volta para descobrirmos que vários passageiros estão juntos no mesmo veículo e na mesma vontade de construir um mundo mais justo e socialmente correto.


E se continuarmos atentos depois do Natal, esticando um pouquinho mais este nosso olhar solidário, perceberemos, outra vez, que continua circulando em nossa volta uma multidão de corações solidários. Então concluiremos, felizes, que é realmente impressionante a quantidade de pessoas que, diária e incansavelmente, fazem da solidariedade o seu veículo de vida. Perceberíamos, por exemplo, que a AÇÃO DA CIDADANIA CONTRA A FOME, A MISÉRIA E PELA VIDA já luta para que a fome seja excluída do cardápio do Brasil real.


Ficarmos atentos para as pessoas que estão à nossa volta, especialmente as mais necessitadas, certamente será o melhor presente de Natal que poderemos oferecer. Afinal, ficar atento é poder encontrar milhares de pessoas que pensam e que já estão fazendo alguma coisa para que o mundo fique melhor. Basta-nos um pouco de atenção para nos motivar a fazer com que a solidariedade natalina seja transportada nos nossos corações durante todos os dias do calendário chamado vida.


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(*) Cezar Brito é advogado, conselheiro Federal da OAB e presidente da Sociedade Semear.
cezarbritto@infonet.com.br

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