Os torpedeamentos de agosto de 1942 na imprensa sergipana

Profª. Drª. Andreza Maynard

Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)

 

Entre os dias 15 e 17 de agosto de 1942, cinco embarcações brasileiras foram torpedeadas pelo submarino alemão U-507, provocando a morte de centenas de pessoas. Em Sergipe, a imprensa desempenhou papel decisivo na divulgação dos acontecimentos e na construção da memória sobre a tragédia.

Os motivos dos ataques ainda eram pouco compreendidos pela maioria dos brasileiros. Naquele momento, as informações sobre os países envolvidos no conflito, os objetivos da guerra e os responsáveis pelas agressões de agosto de 1942 chegavam por diferentes meios de comunicação. O rádio desempenhava papel fundamental na divulgação das notícias. Os cinemas também contribuíam para a formação da opinião pública por meio dos filmes de longa-metragem e dos cinejornais. Ao mesmo tempo, jornais e revistas ajudavam a informar a população e a construir uma representação dos inimigos do Brasil na Guerra.

A imprensa enfatizou o caráter deliberado da agressão contra civis brasileiros. Em Sergipe, jornais como o Correio de Aracaju, Folha da Manhã, O Nordeste e Sergipe Jornal destacavam o número crescente de mortos e desaparecidos, o sofrimento de mulheres e crianças a bordo e a necessidade de uma resposta nacional à agressão. A repercussão foi intensa. Manifestações populares pressionaram o governo de Getúlio Vargas a abandonar a neutralidade.

No caso sergipano, a cobertura ganhou características singulares. À medida que corpos, sobreviventes e destroços chegavam ao litoral, os jornais passaram a acompanhar os acontecimentos quase em tempo real. O Correio de Aracaju, publicado diariamente, chegou a lançar três edições em um único dia. Os repórteres se dirigiam ao Hospital de Cirurgia para entrevistar sobreviventes e publicar seus relatos.

Além dos afundamentos dos navios Baependy, Araraquara e Aníbal Benévolo, ocorridos em Sergipe, os periódicos noticiavam a chegada de cadáveres às praias, o resgate de sobreviventes, a busca por supostos colaboradores dos alemães em Aracaju e as manifestações populares contra cidadãos dos países do Eixo. Havia também o temor de novos ataques à costa brasileira, sentimento que encontrou ampla repercussão nas páginas dos jornais.

Segundo José D’Assunção Barros, o historiador não busca o jornal apenas para obter informações, ele busca, sobretudo, discursos. Estudos sobre a imprensa do período da Guerra indicam que muitos jornais recorreram a uma linguagem emocional e nacionalista. Os ataques eram apresentados como uma “barbárie” e uma agressão covarde contra civis indefesos. Não raro, os chamados “súditos do Eixo” eram apontados como potenciais responsáveis indiretos pela tragédia, reforçando um ambiente de suspeita e hostilidade.

Naqueles dias de incerteza, a imprensa sergipana registrou as consequências dos torpedeamentos e elaborou um discurso que ajudou a moldar a forma como aquela fatalidade foi compreendida pela sociedade. Entre a censura imposta pelo Estado Novo e a intensa comoção popular provocada pelos ataques do U-507, os jornais impressos desempenharam um papel fundamental na mobilização da opinião pública e na construção da memória sobre o envolvimento de Sergipe com a Segunda Guerra Mundial.

 

Para saber mais:

BARROS, José D’Assunção. O jornal como fonte histórica. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2023.

MAYNARD, Andreza Santos Cruz. De Hollywood a Aracaju: antinazismo e cinema durante a Segunda Guerra Mundial. Recife: EDUPE, 2021.

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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