Por que querem cancelar o vestuário cangaceiro?

Felipe Trindade de Souza

Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS/UFS)

Integrante do Laboratório de Estudos do Poder e da Política (LEPP/UFS)

Disponível em: http://7flechasejurema.blogspot.com/2017/09/cangaceiros.html?m=1

Com a chegada das festas juninas, é hora de vestir a camisa xadrez, a calça remendada, o vestido colorido, a bota e o chapéu de palha para festejar. Ou, se preferir, optar pelo extravagante traje cangaceiro. Vestuário que encantou e inspirou estilistas como Zuzu Angel, que, em sua primeira coleção, intitulada “Lampião e Maria Bonita, os Reis do Cangaço”, retratou os elementos do cangaço. Porém, mesmo de beleza reconhecida, há quem defenda seu cancelamento. 

Vamos aos motivos.

Os defensores do cancelamento argumentam que os trajes representam um passado de violência contra os sertanejos nordestinos. Época em que cangaceiros roubavam, matavam, emasculavam, estupravam e agrediam qualquer pessoa que se opusesse aos seus desejos. Nesse sentido, vestir-se como cangaceiro seria tão reprovável quanto usar uma farda da SS nazista por julgar ser bonita. Assim, qual o sentido de usar uma vestimenta que remete aos algozes de tantos pobres inocentes?

Se o leitor já considera cancelar o vestuário cangaceiro, antes, avalie alguns aspectos.

O guarda-roupa do cangaceiro é diferente do vaqueiro nordestino. Não se deve confundir os dois assim como fez nos anos 1940 o diretor artístico da rádio Nacional, Floriano Faissal, ao saber que Luiz Gonzaga trocaria o smoking pela indumentária do vaqueiro em suas apresentações. Na ocasião, o diretor disse ao músico que “Marginal, não. Roupa de cangaceiro, aqui, não”.

Assim como Faissal, deve-se evitar a generalização. O vestuário do vaqueiro é composto por perneira (calça), gibão (jaqueta), chapéu de forma baixa e abas largas dobradas no meio, peitoral, luvas e botas, tudo em couro. Já o guarda-roupa do homem cangaceiro no bando de Lampião era constituído de uma camisa cor cáqui ou azul, calça de cós alto e pernas curtas, permitindo o uso de perneiras de couro. Calçavam meias grossas e alpercatas de couro.

As mulheres tinham dois tipos de roupa. Um vestido de batalha resistente, com mangas compridas e na altura do joelho, meias grossas e perneiras de couro para proteger dos espinhos da caatinga. Eventualmente, trocavam as alpercatas por botas de cano curto. No coito, usavam comportados vestidos de seda. 

Nas mãos, homens e mulheres usavam luvas quase sempre enfeitadas com motivos florais. Na cabeça, os chapéus de couro dos homens diferiam de acordo com status na hierarquia do bando. Quanto mais elevada a posição do cangaceiro, maior e mais ornamentado era sua cobertura. O de Lampião, por exemplo, tinha abas ornamentadas em alto relevo, estrelas de oito pontas e setenta peças de ouro. O chapéu das mulheres, por sua vez, era de feltro e também indicava a importância do seu companheiro no bando de acordo com a quantidade de enfeites.

Ao invés da camuflagem, o vestuário era imponente e chamava atenção de longe, contrariando um estilo de vida que exigia a fugacidade discreta. Por outro lado, possuía utilidade prática, permitindo a mobilidade sem que acessórios ficassem pelo caminho. A funcionalidade era física e também espiritual, uma vez que cangaceiros acreditavam que os enfeites os protegiam. Ornamentavam as roupas com o signo de Salomão, flor de lis, cruz de Malta, estrelas de número variado de pontas e outros itens que conferiam o que pesquisador Frederico Pernambucano de Mello denominou de “blindagem mística”.

Porém, foi só a partir de 1932 que as vestimentas surgiram da maneira que conhecemos. O estilo começou a mudar quando a cangaceira Dadá presenteou Lampião com um conjunto de bornais adornados. Em pouco tempo, todos imitaram o líder. Com isso, rompeu-se com uma tradição de comedimento do banditismo sertanejo, optando por uma estética ostentatória. Enquanto grupos anteriores, como o de Sinhô Pereira e Luís Padre, tinham um guarda-roupa minimalista, o do Rei do Cangaço era opulento e exibicionista.

Essa moda seduziu até soldados das volantes, que se vestiram de maneira semelhante. Em 6 de dezembro de 1935, o Diário de Pernambuco noticiou que os soldados das forças volantes, “mesmo os que vieram ao Recife, usam alpercatas, calças sem perneiras e chapéo typo Lampeão” [sic]. Mimetismo tão escancarado que, segundo Zé Sereno, sua fuga do cerco das volantes no massacre que vitimou Lampião em Angicos só foi possível porque ele e os soldados estavam com roupas parecidas.

Em síntese, a vestimenta cangaceira difere do vaqueiro, possui valor estético e simbólico, além de ser representativamente complexa, já que os oponentes dos cangaceiros a usavam. Caracterizou dois grupos antagônicos, embora seja mais associada aos criadores. Atualmente, os usuários a transformaram num signo de valentia em que a brutalidade e a opressão, praticadas principalmente contra mulheres, são deixadas de lado. Por isso, sua representação é polissêmica, assim como a “bandeira confederada”, vista por afro-americanos como símbolo de racismo, mas defendida por sulistas como emblema das tradições dos estados do sul dos Estados Unidos. Ou, ainda, como a “bandeira do Sol Nascente”, considerada nas Coreias e na China como uma insígnia de massacres do imperialismo japonês, mas aceita por parte da sociedade japonesa.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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