JOÃO DO MOUCO E O AFEIÇOAMENTO COM O BEM ALHEIO

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Gosto de lembrar e dizer que não sou um autodidata nas coisas da vida, tampouco da minha própria vida. O que sei ou o que sou é o resultado do que ensinaram, viveram, experimentaram ou aprenderam nos tempos passados, somado ao que diretamente filtrei como importante nas minhas andanças e convivências. No máximo, a única coisa que me faz diferente dos outros é a porção que misturei de cada coisa que colhi ou ensinamento que solvi ao longo da vida, como de resto faz todas as pessoas no que se refere às suas próprias vidas.

 

Estes dias, por exemplo, revivi a oportunidade de colher os imperdíveis ensinamentos do grande professor-poeta Wagner Ribeiro, também mestre na arte do bom humor. Lembrou-me ele de um personagem bastante conhecido na minha querida Propriá, constantemente citado nas conversas e brincadeiras que pautaram a minha infância. Tratava-se de João do Mouco, que tinha como maior especialidade, além de consertar relógios, narrar as histórias e contar os causos por ele vividos e atestados como fossem rigorosamente verdadeiros.

 

O fato transposto para o presente era uma passagem da vida de João do Mouco que o relojoeiro adorava contar, fazendo birra quando ousavam dela debochar e insinuar não ter acontecido. Dizia ele, com a seriedade contumaz, que “os objetos, assim como os animais, se afeiçoam às pessoas, delas se tornando amigas e íntimas”. E para comprovar a sua tese, citava o seu próprio exemplo, mais especificamente a sua relação com um rádio que possuía desde os tempos de menino, conservando-o ao seu lado mesmo quando surgiram os modernos e portáteis rádios de pilha.

 

Assim o fazia porque o seu rádio era um companheiro fiel e inseparável, presente em sua vida desde o despertar do dia, quando o esquentar de suas válvulas somente descansava quando ambos iam dormir. Foi exatamente esta relação afetiva quem o convenceu de sua teoria, mesmo porque o seu amigo-rádio nunca lhe faltava nas horas que mais dele precisava, especialmente quando “escolhia” tocar as músicas que seu coração necessitava em cada momento.  A certeza de sua teoria gostava ele dizer, somente teve quando um ladrão resolveu visitar a sua casa enquanto dormiam, certamente contando com a cumplicidade da noite para concretizar o seu fim ilícito.

 

Nesta noite, o escudeiro-rádio, percebendo a intrusa presença do gatuno, voluntariamente começou a tocar de forma estrondosa. O inusitado grito de alerta despertou o seu amado dono, fazendo com que pudesse reagir e defender o seu patrimônio. Não precisa dizer que, em face da surpresa e do alerta provocado pelo vigilante-rádio, o assustado ladrão fugiu rapidamente, nunca mais voltando a visitar a casa do agradecido João do Mouco.

 

 E para quem dele duvidava, mostrava o rádio a tocar alegremente na sua estante, tratado como se filho fosse. Pouco importava se o chamavam de mentiroso, o velho João do Mouco jurava que o seu rádio lhe salvara do ladrão, e o fizera em retribuição ao afeto que lhe dedicava. Concluindo que os bens materiais não são insensíveis aos carinhos patrocinados pelos homens, cuidava ele de zelar para que não faltasse nada ao seu amigo, mesmo porque tal afeto não causava qualquer prejuízo a terceiros.

 

Verdadeiro ou não o fato contado pelo ribeirinho João do Mouco, a idéia da afetividade por ele defendida parece ser a “razoável justificativa” utilizada por aqueles que causam um dos grandes problemas enfrentados pela sociedade brasileira. Falo do instituto da corrupção, um grave crime que se recusa a fazer parte do passado nefasto da História do Brasil. Basta que se observe a última pesquisa divulgada pela insuspeita Transparência Internacional, onde se lê que o Brasil ocupa o desonroso qüinquagésimo nono lugar no ranking dos mais corruptos paises do mundo, com a degradante nota inferior a quatro, em uma escala que vai até dez.

 

É que, sendo verdadeiro o afeiçoamento do homem pelos bens materiais, e vice-versa, a crônica corrupção que atinge vários políticos e governantes tem uma razão de ordem emocional, não se tratando, portanto, de um frio crime que martiriza milhões e milhões de brasileiros. Nesta ótica, os corruptos agiam porque se afeiçoam aos bens por eles administrados, não podendo suportar a idéia deles se distanciarão quando deixarem os cargos que provisoriamente ocupam. Pouco importa se os bens afeiçoados são alheios, mas, diferentemente da afeição defendida pelo saudoso João do Mouco, os cidadãos sofrem por suas destrutivas e mentirosas paixões.

 

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB

cezarbritto@infonet.com.br.

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