Jornalistas e poetas.

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A recente decisão do STF sobre a profissão de jornalista está a polemizar a mídia, suscitando revoltas, incompreensões, ofensas gratuitas, ironias desnecessárias, quando em realidade, por princípio de nossa república, temos apenas que acatar: o supremo falou; tá falado!

 

Preliminarmente, até para poupar tempo dos que gostam de textos enxutos, direi que a decisão salvaguarda o bom exercício do múnus jornalístico.

 

Bom seria inclusive que o decidido se estendesse a outras profissões; a do advogado, por primeiro, a do professor, por pioneiro, a do enfermeiro e do curandeiro, a do odontólogo, talvez, a dos químicos por minha vez, e tantas outras surgidas da desfaçatez dos que idealizam guetos e profissionais em cada jaez.

 

Somos uma república cartorial; temos, sem exceção, uma necessidade de adquirir, mediante decreto, decisão ou portaria, uma boa sinecura.

 

E os jornalistas, como os bacharéis de outros cartéis, sem que lhes acusassem de impostura ou de mera usura, estavam tentando a sua exclusiva avocatura, no uso da comunicação, aí incluídos a diagramação e a editoração, sem falar dos teimosos emissores de opinião, estes pelos quais são vendidos os jornais.

 

E assim eu ouvi esta pérola: “basta que alguém saiba escrever, ou escrever bem melhor, para roubar do jornalista o seu espaço no jornal.”

 

E aí eu me escudo no pouco que estudo ao relembrar de tantos e quantos destacados jornalistas, sem diplomas e sem muletas, “escrevendo bem melhor”, em meio a tantos certificados vazios.

Vacuidade que me faz relembrar o começo de minha vida profissional quando no início dos anos 70 candidatei-me a professor de Física da Universidade Federal de Sergipe, em concurso de provas e títulos. E eu embora soubesse Física em suficiência, e aquelas provas o demonstraram então, era graduado em Química e não em Física; uma suprema heresia para os Físicos em vozearia de xenofobia.

 

Os Físicos de então, sem se capacitarem em melhor extensão, denunciavam por espoliação de rapaces, engenheiros que lhes eram mais capazes. E foi com o giz e com a unha, que a cota se fez nota, desfazendo conchavos de cotas e de patotas, tendo só Deus como grau, e a banca por testemunha. Nada especial ou extraordinário; passou quem sabia mais e melhor, como só os concursos deveriam ser, exclusivamente.

 

E o resto é vacuidade de títulos vazios, como o meu de Químico também, cujo diploma perdi ou rasguei, porque jamais o utilizei ou emoldurei, mas que paguei por uma vida, por um exercício profissional nunca exibido.

 

Assim, ao vazio agora instilado na carreira do jornalista, não seria bem melhor democratizar o exercício de toda e qualquer profissão? A modernidade não deveria ensejar a livre concorrência e a ausência de regulamentações, no lugar dos conglomerados que querem para si a exclusividades de cartéis?

 

E eu me pergunto enquanto leitor e até ladrão de um espaço no jornal. Sim, porque no âmago de toda tristeza dos agora derrotados no supremo, estão aqueles que abominam a idéia do articulista esporádico, que toma gosto e se torna inconveniente por frequente, e agradar a muita gente.

 

E assim eis em parêntese de explicação abusada, declarar minha única razão de adquirir um jornal. Nos tablóides e diários, muito mais que os relatos e noticiários, interessam-me as colunas de opinião, sobretudo vindas de colaboradores a mostrar mais percuciência que o pensamento dos jornais. Abomino os editoriais pasteurizados, inócuos e bem comportados, curtinhos e enxutinhos, que não marcam, não opinam nem sugerem. São textos nascidos mortos que deveriam ocupar os obituários, alongando-lhes os restritos rasos do escaninho, que mais ossuário que mausoléu, viram mostruários lançados

Carta mensal do Governador Odilon, monocromática e com oito páginas, confeccionada por mim em outubro de 1997 em sua totalidade
ao léu. Sem falar do incréu noticiário político, com tanta divulgação de opinião e retratos em manchetes vazias, transparecendo mais uma informação publicitária dissimulada e mal alinhavada, que uma apreciação isenta de compromissos.

 

Ora, o fato político deveria ser relatado de dois modos somente; ou desabridamente em isenção, ou corajosamente externando a intenção viril, de ser parte e assumir a posição. Exemplo: é-se governo ou oposição; que ninguém se remunere para elogiar ou ofender fingindo-se isento, asséptico, científico e independente.

 

Isenção, assepsia e independência fazem parte do rigor da ciência, e o jornalista político que se quer aberto a todos os pensamentos e idéias, tem que se habituar a não torcer, para não enveredar no campo esportivo, e nem se venalizar sob pena de descredenciamento por pistolagem intelectual. Isso só para enfeixar e concluir agora na minha apreciação do fosco relato policial, e do pouco eloquente comentário esportivo; temas de meus desgozos, desafastamentos e desagrados.

 

Mas, em meio a tantos desdouros explicitados e mal ajambrados, como leitor crítico de muitos jornais, daqui e de fora, reclamo dos cadernos de variedades; sem poema, sem conto, sem crônica e sem um ensaio de melhor valia a revelar inanição e afasia, sobretudo com a repetição tola do pensamento importado do sul maravilha, tão diferente e tão descrente da nossa gente.

 

E há tantos, e há tanta gente por aqui, que escreve muito bem e bem melhor, e não tem espaço nos jornais! Será que isso é fruto de apodos e censuras de bacharéis jornalistas, que ousam calar os daqui para reverberar o tolo que vem de fora?

 

Cabe então a pergunta incômoda, esquecida bem acima nos meus circunlóquios estultilóquios: quem ganharia se o supremo oficializasse a obrigatoriedade do diploma de jornalista? Seria toda a sociedade, ou somente a categoria (Que nominho terrível, de gestação amoniacal e sindical dos de baixa e de bem mais baixa classificação!) dos bacharéis jornalistas que arrebanharia mais um gueto, um cartório burocrático a tolher a criação?

 

Como ficaria o blog, esta conquista da modernidade, sem peias nem teias, aberto a todos que desejam externar suas opiniões e gostos? Continuaria o blog a ser um espaço aberto a todos e ao cidadão comum, sem butim nem espadim? Não restaria um sítio delimitado tolhido e sufocado por portarias e resoluções?

 

Ora, é tão verdadeira tal desconfiança que estou a relembrar um tempo em que eu fazia parte do Rotary Club, e ficara responsável por vários anos pela confecção do boletim do clube, uma tarefa que os jornalistas profissionais, mediante paga, agora só a querem para si.

 

Relembro que nos anos setenta eu preparava o material e levava para impressão na gráfica de Ivan Valença ou nas oficinas do Cinform do companheiro Bonfim. Da redação dos textos, das manchetes, à seleção de fotografias, tudo era preparado por mim, e a gráfica fazia a “boneca” para impressão, muitas vezes usando prensa e linotipia.

 

Depois, com o advento, dos programas de editoração computacionais, tipo Pagemaker, Coreldraw, Publisher ou similares, a coisa se tornou facílima com a impressão em cores inclusive. E eu fazia tudo isso a custo zero para o clube, afinal a tiragem era restrita, sem caráter de lucro ou empresarial, levando já diagramado em disquete de zipdrive, CD, hoje na praticidade de pendrive ou da internet, por mais rápido, editorado e bem ilustrado para a gráfica fazer a impressão.

 

Diferente de meu tempo, hoje alguns clubes regrediram em termos de colaboração, tendo necessidade de remunerar um profissional jornalista para publicar um simples boletim de clube, sem falar da carência e da insuficiência do material apresentado. Ou seja, os boletins que hoje são feitos com mau profissionalismo e pior perfeccionismo, tenderiam a piorar ou a não existir se o supremo pensasse diferente, pois no vácuo do bacharel jornalista viriam outros tropéis de bacharéis; o editor, o diagramador, o revisor, o revisor do revisor, o fotógrafo, o revelador, o scanneador e o fotocompositor, tudo que um grande jornal já possui, por necessidade, sem obrigações nem imposições.

 

Assim, sem ousar comparar jornalistas com mestres-cuca, artistas de pouca cuca ou poetas pouco estetas, prefiro os jornalistas-poetas aos patetas formalistas.

 

E nesta luta de poucas alforrias, externo as minhas alegrias, por continuar a poder escrever sem onerar sangrias, nem arreganhar honrarias.

 

Melhor é poder, sem diploma de jornalista e sem redoma de poeta, que os jornais se abram para os emissores de opinião e os literatos de ocasião. Ganha a imprensa, a palavra e a sociedade. O bom profissional sempre sairá vitorioso, o resto é a peia que apeia, mas que falseia e sufoca o livre fluir dos sonhos e dos vôos.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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