JUDAS – Traição ou Utopia? Por Vírman

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Cauê sempre tivera muita simpatia por Aquele Menino nascido numa gruta e colocado na manjedoura – o prato dos animais. Local humilde e com cheiro de pureza.

A festa de aniversário sempre fora comemorada em sua casa com um sentimento de alegria e leveza, pois representava a chegada de uma mensagem de esperança e a notícia de que Deus não esquecera do seu povo. Aquele hino, então, que falava de uma noite feliz, de um Deus de amor, e desejava que o menino dormisse em paz quase lhe fazia chorar de doce felicidade.

Quando crescia, em Nazaré, cabeça deitada no colo para uma gostosa carícia do maternal cafuné, deve ter comentado com Maria sobre suas intimidades com o Pai e demonstrado suas habilidades, sem o que sua Mãe não teria tido tanta certeza no atendimento ao seu pedido, quando mandara que os serviçais, nas bodas de Caná, fizessem tudo o que Ele dissesse. Ainda que tivesse feito alguma peraltice, como quando ficou em Jerusalém por três dias, escondido de Maria e José, sempre lhes fora obediente e submisso. Quanto à aparente peraltice, por certo lhes explicara posteriormente: havia completado doze anos, atingido, portanto, a maioridade, e precisava começar a tratar dos assuntos do seu Pai, ouvindo e discutindo com quem pensava que sabia das coisas. Fora o que fizera.

Como todo judeu – crescido, iniciara a construção da sua casa, isto é, escolhera os que haveriam de formar sua família. Em seguida, plantara sua vinha – pela comunicação da palavra e toda gama de bens que fizera ao povo, e, por fim, casara – quer dizer, criara um grupo, a sua igreja, contra a qual dera poderes até contra satanás.
Quando iniciara seu trabalho, a não ser as críticas severas feitas aos hipócritas, suas palavras eram doces e suaves. Enaltecera os mansos e os humildes – aqueles que não eram violentos nem se consideravam melhores que os demais; os misericordiosos – que se apiedavam dos outros; os puros de coração – que tinham a alma de criança, e os pacíficos – aqueles que promoviam a paz.
E, apesar de só ter feito o bem, depois de cumprir sua missão, fora traído e morto na cruz com terríveis sofrimentos.

Por isto, aquela antipatia por quem, de um algum modo, lhe tivesse feito algum mal. Cauê não fora diferente das outras crianças. Alegrara-se – e como! – ao ver, nas noites de sábado de aleluia, aquele boneco de pano, feio e maltrapilho, apanhar, ser xingado e depois ser totalmente queimado até o último trapo, sendo ainda seus restos chutados com desprezo de um lado para o outro. Ele sentia-se feliz, porque seu Menino estava sendo vingado.

Hoje, depois de muito ter vivido e, recordando seus tempos de malvadeza, quando capava sapo (1) e servia de guardador de lagartixa (2) para os irmãos mais velhos, Cauê fica se questionando o que seria dele se seu anjo da guarda não o houvesse tantas vezes protegido, e fazia suas as palavras do Papa Francisco: Quem sou eu para julgar?
Judas era oriundo, segundo se comentava, de Iscariot, pequena aldeia do sul de Israel, lá para as bandas de Hebron, sendo pois o único apóstolo que era judeu. Diferentemente dos demais, os evangelhos não explicam como ele fora incluído no grupo. E, nas duas vezes em que é mencionado, seu nome consta em último lugar e já com a pecha de traidor.
Talvez, na sua busca por seguidores e dispondo de pouco tempo na sua curta vida pública de três anos, Jesus o vira circulando entre as mesas dos cambistas que já haviam transformado o templo – a casa de Deus – em covil de ladrões, e o chamara.
– Não posso preocupar-me nem quero que meus seguidores se interessem pelo vil metal, pois o meu reino não é deste mundo. Nossa preocupação deve ater-se à pregação da palavra, levando a mensagem do meu Pai a todos que a quiserem ouvir. Este ali já está acostumado com o tilintar das moedas e parece gostar de ouvir seu som. Poderá ser o administrador dos nossos parcos recursos, dissera de per si o novo líder religioso.
Crianças não são intolerantes. Os meninos brancos não têm preconceito contra os meninos negros. Via de regra, os homens também não são totalmente maus. Tanto é assim que costumam enaltecer outros homens, especialmente quando já estão mortos. Haja vista os santos da nossa igreja. No entanto, enquanto vivos, estes tiveram lá seus defeitos dos quais se arrependeram e foram perdoados, o que fica evidenciado que o importante para o perdão é o arrependimento. E o perdão deve ser dado até setenta vezes sete vezes…
Ninguém, em Israel, foi mais importante que o rei Davi e nenhum governante israelita agradou mais a Deus e seguiu suas leis com mais amor. Por outro lado, poucos teriam cometido crime mais hediondo que ele.
Encontrava-se Israel em guerra contra os amonitas, povo que morava além do Jordão. Joab comandava as tropas e, entre seus generais encontrava-se o general Urias, de origem hitita, povo guerreiro lá das bandas da Anatólia, casado com a formosa Betsabée. Davi não fora para o campo de batalha e acabara de tirar seu cochilo depois do almoço, quando, ao espreguiçar-se no terraço do palácio, dera de cara com a moça, a qual se banhava.
A mãe de Cauê sempre dizia: “mente parada é tenda do diabo”. Não deu outra.

(1) – Capar sapo: Sobrepor uma tábua a uma pedra, de forma que uma extremidade a ultrapasse um pouco. Encaminhar o sapo para a outra extremidade, fazendo com que suas patas dianteiras fiquem apoiadas na tábua. Dar forte pancada na primeira extremidade.
(2) – Guardador de lagartixa: irmão mais novo, que não sabe ainda usar a atiradeira e quer acompanhar os mais velhos.
– Uh! Lá! Lá! pensara o rei. Informado de quem se tratava e usando das prerrogativas reais, mandou que a trouxessem a palácio, dormiu com ela e a engravidou.
Como justificar tal gravidez, se seu marido encontrava-se na guerra a quilômetros de distância? Para encobrir o adultério e proteger a moça, Davi arquitetou um plano diabólico: aproximar o casal, dando a falsa impressão de que os dois mantiveram contato.
A título de inteirar-se do que ocorria no campo de batalha, mandou que Joab lhe enviasse Urias, fez-lhe várias perguntas sobre a guerra e a tropa e mandou-o para casa a fim de que descansasse e se deleitasse dos confortos próprios de um homem casado. Bem o merecia, já que vinha de longa, perigosa e trabalhosa jornada. E, para demonstrar-lhe a simpatia de que era merecedor, mandou-lhe o rei pratos especiais que não foram saboreados, pois Urias resolvera passar a noite junto a outros oficiais no próprio palácio. Inquirido por Davi porque agira dessa forma, ele respondera que não era justo que, estando a arca de Deus embaixo de uma tenda, e seu comandante Joab e seus soldados dormindo na terra nua, ele comesse, bebesse e dormisse com sua mulher no maior conforto.
Sabendo que contra fatos não há argumento, percebeu Davi que só a morte do fiel soldado seria capaz de calar a voz da verdade e mandou que Joab o colocasse na posição de maior perigo e lhe tirasse toda proteção para que ele fosse morto. Talvez, na carta que enviou a Joab, devidamente selada com o selo real, o tivesse acusado de desobedecer suas ordens.
Deus enviou-lhe o profeta Natan para jogar-lhe na cara o crime infame, o que fez Davi arrepender-se do crime de tal forma que orou e jejuou com rigoroso jejum por vários dias.
Se Deus, pelo grande arrependimento, perdoou tal crime a quem d´Ele recebera enormes favores, era sinal de que um coração arrependido sempre recebe o perdão.
É certo que todo o sofrimento de Jesus fora uma opção de vida. Ele parecia essencialmente masoquista, isto é, só sentia-se bem, sofrendo, talvez para nos ensinar a sofrer sem lamentações intermináveis. Já havia preparado toda sua trajetória de sofrimentos e mandara que seus profetas alardeassem isto aos quatro ventos, desde seiscentos anos antes daquela noite feliz, em Belém. Mas nascer numa manjedoura, não ter onde descansar a cabeça, passar a vida toda ajudando os outros e morrer morte dolorosa e desprezível – sendo dono de tudo – só podia ser coisa de quem gostava de sofrer e fazer os outros sofrerem, pois terminamos penando por Ele. Quem não se apiedaria?
A bem da verdade, com o tempo, os poucos recursos do grupo foram aumentados com os bens que eram vendidos pelos novos seguidores, especialmente as mulheres, e destinados à manutenção de todos. Talvez a ideia de poder e riqueza houvesse tomado conta da mente do banqueiro que já existia dentro de Judas. Afinal de contas, ele entrara em uma empreitada e não queria perder. Aquele que o chamara não fazia coisas incríveis? Não viera para salvar Israel do domínio estrangeiro? Por certo, mais tarde, iriam precisar de recursos financeiros e cumpria a ele, encarregado do Tesouro, fazer aumentar esses recursos. Talvez, por isto, Judas desse a impressão de tendência à avareza e negligenciasse a doutrina. Mas não seria forte demais João acusá-lo de ladrão? João, por acaso, era sem defeito? Não demonstraram presunção – ele e seu irmão Tiago – naquela conversa de beira de estrada, a respeito de uma colocação no novo reino?
Apesar da declaração de Pedro de que Cristo era o Filho do Deus vivo, que ideia real de divindade teriam os apóstolos com relação a Jesus? Claro está de que não era a de um Deus todo poderoso. Caso contrário, Pedro não teria duvidado, quando andara sobre as águas, tomando tremendo susto, nem teriam todos fugido quando Ele foi preso.
As coisas pareciam encaminharem-se para o cumprimento das promessas feitas por Deus. Batista, seu primo e homem santo, quando preso, já não lhe mandara perguntar se Ele era o que havia de vir? E qual foi sua resposta, com certeza ouvida por todos, inclusive Judas?
– “Ide contar a João o que ouvistes, e vistes. Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos limpam-se, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres anuncia-se-lhes o Evangelho: e bem-aventurado aquele que não for escandalizado em mim”, isto é: sou sim.
Que dúvida podia haver? O Libertador, o Filho de Davi, chegara! Era Ele, gente!
Para completar, ultimamente, o Filho de Davi tornava-se mais ousado a cada dia, discutindo abertamente com os fariseus e, chamando-os de hipócritas; curava em dias de sábado, contrariando a Lei, veementemente defendida por aqueles; alardeava, com frequência, ser filho de Deus, o que era uma blasfêmia, motivo que, por si só, justificava a condenação à morte. Pressentia-se que Ele já estava cansado desta vida e ansioso por voltar. Por isto, apesar de, como homem, ficar temeroso do sofrimento, como Deus desejava, ardentemente, retornar ao Pai e voltar a sentar no seu trono. Dera o pontapé inicial à Sua missão e deixaria amigos encarregados de levarem até o fim do mundo Sua mensagem a todos os homens de coração aberto, que quisessem aceitar suas verdades.
Parecia que estava disposto a tomar atitude. Teria chegado o tempo de o rei instalar seu reino? João e seu irmão Tiago já não haviam pedido que Ele lhes desse posições privilegiadas – um à sua direita e outro à sua esquerda? Israel não era o povo eleito de Deus e não tinha uma história de vitórias contra seus antigos inimigos? O que custava a Ele tomar o governo e libertar o povo do domínio romano? Se ele – Judas, pudesse dar sua cota de contribuição, não iria furtar-se ajudar na execução de obra de tamanha envergadura. Assim, tornar-se-ia um herói nacional e possivelmente ocuparia uma posição de destaque no novo governo. Por isto, entraria em acordo com os chefes dos judeus para, aparentemente traindo, poder dar chance a Jesus de demonstrar do que era capaz. Jamais poderia pensar que seu ato fosse dar origem ao degradante papel de traidor e a um sofrimento tamanho a quem só vivera para acabar com os sofrimentos alheios.
Alguém – Judas ou outro – teria que desempenhar o papel de traidor, pois estava escrito. Pode-se até dizer que Judas, abusando da liberdade que lhe dera Deus, alimentara maus pensamentos, permitindo que satanás dele se apossasse. Que, apesar de estar prescrita a execução do fato, não teria que ser ele, obrigatoriamente, o executor do ato.
Mas não teria que ser alguém? Por que alguém teria que se prestar a isto? Por que Ele, que decidira morrer de morte tão humilhante, não se entregara aos que O odiavam e lhes dirigira, frente a frente, insultos fortemente ofensivos, instigando-os a que O crucificassem? Desta forma, a humanidade seria redimida sem que a pecha de traidor recaísse sobre alguém.
Abandonar o amigo nas horas de dificuldade não é também uma forma de traição? E o que fizeram os outros apóstolos no Horto das Oliveiras? Por que só Judas é acusado, até hoje, de traidor? E por que só ele é condenado se Pedro que o negou três vezes e Tomé que duvidou de sua ressurreição foram perdoados? Até Dimas, um criminoso, foi considerado um bom ladrão e perdoado nos últimos momentos de vida por seu arrependimento. Quem sabe até Gestas que Lhe atirou indiretas na cruz?
A crucificação era uma pena demais dolorosa, pelo que o condenado devia pedir a Deus que lhe mandasse logo a morte. Mas, tal qual na caixa de Pandora, restava sempre uma esperança. A verdade é que jamais queremos a morte. O que desejamos é não sofrer.
Ao ver os soldados portando os bastões e se encaminhando para as cruzes para quebrar-lhe as pernas, já vendo a cara da morte, quem pode garantir que Gestas não teria pensado:
– Oh, Yahweh! Tenho vivido uma vida de crimes, mas é chegada minha hora. Perdoa-me!
Cauê sempre achara que Jesus fosse diferente de um país de faz-de-conta: descoberto por acaso, quando se sabe que Cabral já tinha ciência da sua localização, e cuja independência foi declarada por seu próprio governante. Regra geral, ele acreditava em um Jesus humano, que deve ter dado boas gargalhadas com os repentes dos apóstolos, especialmente Pedro. Na última ceia, apesar do ambiente de tristeza, especialmente para Jesus, ciente do que estava por acontecer, depois de ter se negado a deixar que Jesus lhe lavasse os pés, mas advertido de que se não o deixasse não teria mais parte com Ele, Pedro pedira que o Mestre lhe lavasse não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça.
Por isto, Cauê acreditava no que Ele dissera, segundo Mt 19:29 – E todo o que deixar por amor do meu nome a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou as fazendas, receberá cem por um, e possuirá a vida eterna.
E Judas não fizera isto? E não se arrependera? Que arrependimento maior pode haver que o que leva uma pessoa a tirar-se a vida? Por que negar-lhe o arrependimento e o perdão?
Tanto é aceitável que sua intenção não fora a de simplesmente trair e afligir sofrimento ao Mestre, que houvera dado uma senha e fizera uma recomendação aos soldados: “Àquele a quem eu der um ósculo, esse é que é, prendei-o e levai-o com cuidado. (Mc 44). Mas quando viu que Jesus sofria, percebeu a fantasia que criara e arrependeu-se.

Vírman
Tobias Barreto/SE
10/07/2020

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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