Legados, a título de comparação

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Política é o diabo, como diria um velho político sergipano. E eleição, então, é o inferno. É o vale-tudo do capeta. Na renhida disputa presidencial, a coisa já desceu ao lamentável nível de uma ser chamada de “sapatona” e o outro de “cheira Neves”. E claro, os maiores cabos eleitorais de Dilma e Aécio não se furtam à confusão. E nem podem fugir das comparações.

“As pessoas se cansaram de empulhação e corrupção, da mentira”, disse FHC, no sábado, na convenção do PSDB que homologou a candidatura de Aécio Neves a presidente da República.

“Ele deveria dizer quem é que estabeleceu a maior promiscuidade entre Executivo e o Congresso Nacional, quando ele começou a comprar votos para ser aprovada a reeleição, em 1996″, respondeu Lula, domingo, na convenção em que o PT oficializou o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha como candidato ao governo de São Paulo.

Na barganha da reeleição, vários deputados federais receberam R$ 200 mil para votar a favor da emenda à Constituição. (Veja o que Fernando Rodrigues escreve agora sobre o assunto:

http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2014/06/16/conheca-a-historia-da-compra-de-votos-a-favor-da-emenda-da-reeleicao/)

Mas FHC carrega no currículo escândalo bem mais grave, o da privatização das estatais brasileiras, que teria consumido bilhões de reais dos cofres públicos. Os detalhes estão no livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr. (http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Privataria_Tucana)

O escândalo do Mensalão do PT, de 2005, teria custado R$ 55 milhões. Já oescândalo investigado na Operação Navalha, em 2007, que envolve políticos e empresários sergipanos, teria custado R$ 610 milhões.

Esqueçam-se os escândalos e as paixões. O grande legado de FHC foi conseguir domar o monstro da hiperinflação, que corroia a economia do país desde os últimos governos militares. Ele conseguiu isso criando, ainda no governo Itamar Franco (29 de dezembro de 1992 – 1º de janeiro de 1995), uma moeda nacional estável, o Real. Terminou o mandato de oito anos, em 2002, com apenas 26% de aprovação.

Na comparação governo a governo, Lula se sai melhor.Além do ditador e depois mártir GetúlioVargas, ninguém que governou o Brasil republicano ombreou-se ao operário que nasceu no sertão nordestino, escapou da fome num pau-de-arara para recomeçar a vida numa favela paulista, foi mutilado num torno mecânico, perseguido e preso pela ditadura militar, chegando à Presidência da República para sair de lá como entrou, nos braços do povo. Talvez Juscelino Kubitschek, talvez.

Até os mais renitentes reconhecem que é desproporcional, para não dizer inútil, a comparação entre Lula e o seu antecessor. Pelo que há de notável em cada uma das trajetórias pessoais e, principalmente, das gestões. Os números finais de cada governo, especialmente quanto à aprovação popular, confirmam que não há termo de comparação. Lula saiu com 87% de aprovação. Um parêntese: ele saiu mais bem avaliado do que o mito Nelson Mandela quando deixou a presidência da África do Sul (82%) e do que o salvador da pátria Franklin Roosevelt, o homem do New Deal, que morreu durante o quarto mandato à frente do governo dos EUA (66%).

Getúlio Vargas foi o homem que ordenou o Estado organicamente, criando as leis sociais e trabalhistas inovadoras das relações entre os brasileiros enquanto cidadãos ou trabalhadores. Melhor, ele incluiu na agenda política um agente antes excluído, o trabalhador. Tornando possíveis grandes empresas nacionais, como a Petrobras e a Companhia Vale do Rio Doce, para citar apenas as que são hoje os dois gigantes multinacionais, ele deu um impulso ao desenvolvimento do Brasil que, proporcionalmente, só deve encontrar analogia antes em 1808, com a chegada ao Rio de Janeiro de D. João VI e a família real portuguesa. Mas sobre ele haverá sempre a mancha da ditadura implantada no Estado Novo.

Juscelino Kubitscheck foi o desenvolvimentista que soube navegar na maré de progresso econômico dos anos dourados, um homem que se tornou inesquecível pelo seu charme pessoal e suas realizações políticas, principalmente na presidência, sendo a mais notável a fundação de Brasília, um sonho que virou a realidade da capital federal e impulsionou o crescimento do Brasil para além do litoral. JK foi o presidente que fez o brasileiro perder seu complexo de vira-lata e acreditar na própria capacidade de realização. Para muitos é o brasileiro do século XX. Mas sobre sua biografia pesa o desajuste fiscal e a inflação semeada pela construção desenfreada de Brasília. Se hoje já não temos o glamour, a leveza e a fantasia que encantaram o final dos anos 50, nos livramos das raízes daquela escalada inflacionária (graças a FHC) e da dívida externa (graças a Lula) que levariam o País à bancarrota.

Lula uniu o que aqueles dois grandes antecessores tinham de melhor: a visão social e o espírito desenvolvimentista. Foi o presidente da inclusão social e também o modernizador do capitalismo nacional, superando desconfianças, conquistando o coração dos empresários e fazendo com que voltassem a investir e acreditar no futuro. O operário cotó de um dedo dobrou os plutocratas, fazendo-os compreender que o acesso dos pobres aos instrumentos do capitalismo é a garantia da longevidade do capital. Seu ciclo de oito anos se encerrou com crescimento chinês do PIB de quase 8%. Para completar, Lula controlou a inflação, reduziu a dívida pública e encerrou o mandato com o índice de desemprego no menor índice de sua série histórica, impressionantes 5,7%. A taxa de desemprego na Espanha superava os 20%, em Portugal era de 11% e nos EUA beirava os 10%.

E Lula conquistou a sua popularidade em plena democracia – tendo a sabedoria de rejeitar a tentação do terceiro mandato.Mas, certamente mais importante, nenhum presidente teve a representatividade de Lula. Representatividade política, como manifestação de vontade, e social. Representou e tornou factível o anseio e a esperança do povo brasileiro. Que representante político demonstrou conhecer tanto da alma desse povo? Por experiência própria, garantiu o acesso dos estudantes pobres às universidades públicas e privadas. O Programa Universidade Para Todos (Prouni) já beneficiou mais de 5,3 milhões de universitários e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), mais de 1,1 milhão. Será que ainda é preciso dizer que o torneiro mecânico formado no Senai recuperou a importância das universidades federais e das escolas técnicas, que herdara inteiramente sucateadas?

O segredo de Lula foi confiar no povo e priorizar os mais pobres, disse Marcelo Déda, quando foi empossado no segundo mandato de governador, em janeiro de 2011: “Foi entender a necessidade de um projeto nacional, integrador, capaz de reduzir desigualdades, aumentar a auto-estima do brasileiro e inserir de forma soberana o Brasil no mercado internacional e na política mundial”.

Pregando como um velho hippie a paz e o amor, sem empunhar nenhuma arma letal, retirou mais de 20 milhões de brasileiros da miséria e elevou outros 30 milhões à classe consumidora, à deslumbrada classe média. Como disse Elio Gaspari, que um dia afirmou que o Brasil era uma Belíndia, “Lula retirou da Índia brasileira o equivalente à população de toda uma Bélgica”.

Nunca antes na história deste País, graças a Lula, o povo foi protagonista. E por conhecer o povo como só um igual conhece, dos deserdados até os trabalhadores e os empresários, Lula conquistou para a sua causa aqueles que ideologicamente o seguiam e realizou aquilo que a esquerda sonha desde antes de Marx: a revolução. Mas uma revolução adaptada ao novo milênio, iniciado no século XXI.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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