Lula ainda está no páreo

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Se já estava dividido, agora o Brasil foi rachado ao meio. Parcela significativa da população está indignada com a condenação de Luiz Inácio Lula da Silva. E não somente por ser ele um ex-presidente da República, um dos mais importantes dirigentes que tivemos e ser ainda o maior líder popular, disparado o preferido a retornar ao poder.

As pessoas estão indignadas porque são tantos políticos comprovadamente ladrões que estão soltos por aí, cinicamente rindo da cara da justiça, mas acharam de condenar a 12 anos de cadeia aquele sobre quem não há certeza cristalina, concreta, irrefutável de que tenha cometido um crime.

Como nada acontece por acaso, na manhã seguinte à quarta-feira 24 os jornalões estampavam nas manchetes o sentimento de alívio dos que temem o julgamento das urnas: “Tribunal tira Lula do jogo eleitoral”, ufanava o Valor Econômico, secundado por manchetes semelhantes do Estadão, d’O Globo e da Folha.

Lá fora, o linguista e filósofo Noam Chomsky foi uma das personalidades que se pronunciaram a favor do ex-presidente. "Com tudo indicando que Lula é a figura mais popular do Brasil e muito provavelmente seria eleito em eleições justas, é no mínimo apropriado que ele seja permitido a se candidatar", disse, em vídeo gravado uma semana antes do julgamento.

Segundo o cientista norte-americano, "o Brasil pode ser um protagonista nessa batalha para criar um novo mundo de justiça e paz, mas para fazer isso deve cumprir seus princípios democráticos e garantir que a voz das pessoas não seja silenciada".

Pelo que Lula foi condenado? Uma suposta sugestão de que receberia um apartamento em troca de facilitar a vida da empreiteira OAS no seu governo. Havia uma promessa de compra por parte do presidente e sua esposa Marisa quando o condomínio foi lançado por uma cooperativa habitacional. Depois, o imóvel já pertencente à tal empreiteira, o casal desistiu do apartamento, jamais registrado em nome deles.

Você pode até supor que a OAS queria dar aquele presentinho ao presidente, mas são vagas as alegações de que ele aceitou promessa de vantagem indevida. “É como se o apartamento tivesse sido colocado em nome de um laranja”, sustentou o relator Gebran Neto.

Assim, o julgamento dos desembargadores de Porto Alegre manteve as contradições do juiz Sérgio Moro. Usou-se mais uma vez a teoria do domínio do fato. Doutos especialistas afirmam que, no direito penal, ou se tem a prova, fatos concretos, ou então não se pode imputar culpa a alguém por achar que ele sabia de eventual crime.

Foi a vitória do powerpoint do Dellagnol: Lula está sendo condenado porque era o chefe. Dois a zero para o procurador.

A verdade é que o ex-presidente não foi flagrado com conta na Suíça, com mala de dinheiro, com o nome no rol dos corrompidos pelas empreiteiras que assaltaram o país. Bem diferente das provas robustas contra os capas-pretas que estão flanando por aí.

Veja-se o caso Aécio Neves, o homem que desencadeou o processo que resultou na cassação de Dilma Rousseff por não se conformar com a derrota nas urnas. O senador tucano foi gravado pedindo R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista e foi formalmente acusado pelos crimes de corrupção passiva e obstrução de justiça. Além desse, é alvo de outros oito inquéritos no STF.

Michel Temer, denunciado duas vezes, é acusado dos crimes de organização criminosa e obstrução da Justiça. Em prova gravada, deu aval para Joesley comprar o silêncio do doleiro Lúcio Funaro e do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha.

O presidente golpista é apontado como o chefe do “quadrilhão do PMDB na Câmara”, grupo formado pelos ministros da Casa Civil, Eliseu Padilha, e da Secretaria de Governo, Moreira Franco, além dos ex-ministros Geddel Vieira Lima (dos R$ 51 milhões no apartamento) e Henrique Eduardo Alves, do Cunha e do Rocha Loures (aquele flagrado às pressas arrastando uma mala de R$ 500 mil que seriam do próprio Temer), dentre outros sujos.

Mas enquanto Lula era julgado em Porto Alegre, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pedia ao Supremo o arquivamento do inquérito para investigar o senador José Serra (PSDB) pelo crime eleitoral de caixa 2. Joesley afirmou ter “acertado pessoalmente com Serra” uma contribuição de R$ 20 milhões para a campanha presidencial de 2010, dos quais R$ 7 milhões foram repassados por meio de notas fiscais fraudulentas. A procuradora entende que o caso prescreveu.

O benefício deve valer para o governador Geraldo Alckmin (PSDB), que também incorreu no mesmo crime. Ele já aparecia em vários escândalos envolvendo principalmente obras de infraestrutura nos seus governos. E Serra, apontado como chefe de quadrilha internacional, já tinha se tornado milionário desde que participou ativamente da Privataria Tucana, no governo FHC.

Aliás, o sociólogo FHC foi outro que se deu muito bem no governo, saiu rico, comprou fazendas e apartamento de luxo em Paris, mas até hoje é considerado um intocável.

E assim os tucanos desmentem solenemente o desembargador Leandro Paulsen, que ampliou a pena de prisão para Lula, segundo o qual “ninguém será condenado por ter costas largas, nem absolvido por ter costas quentes”. Pois sim!

O jogo desigual ainda não acabou, muitos recursos nos tribunais hão de vir, haverá insegurança jurídica, mas Lula acredita no peso político da massa inconformada e que sempre o impulsiona a resistir. O homem não foi derrotado e continua no páreo.

João Alves e o peso da idade

O pretenso candidato a governador Mendonça Prado (DEM) revelou numa entrevista ao jornalista e deputado Gilmar Carvalho, na quarta-feira, que seu ex-sogro, o outrora empreendedor João Alves Filho, está doente e passa a maior parte do tempo sem lembrar de nada, sem reconhecer as pessoas. Até pouco mais de um ano atrás o Negão cumpria seu segundo mandato à frente da Prefeitura de Aracaju, quando, inclusive, sofreu acusações nada lisonjeiras do discípulo, aliado e vice-prefeito José Carlos Machado. E por supostos erros cometidos na mesma gestão, mas não necessariamente por causa do amigo ingrato, João foi denunciado pelo Ministério Público de Sergipe.

Sem FHS a saúde pararia

O Ministério Público Federal firmou o quarto e último acordo judicial com a Secretaria da Saúde, em ação civil pública que questiona o contrato do Estado com a Fundação Hospitalar de Saúde. Agora válido somente até 31 de março de 2019, o período do contrato será usado para a negociação de uma solução sobre os funcionários da FHS.

O procurador Regional dos Direitos do Cidadão, Ramiro Rockenbach, afirmou que até o fim do contrato o Estado só poderá transferir para a FHS recursos para pagamento de despesas de pessoal, encargos e outras de caráter provisório.

Há muito tempo o MPF questiona a legalidade dos contratos firmados pela Secretaria com a Fundação e exige que os funcionários sejam todos concursados. A FHS tem um passivo que chega aos R$ 400 milhões e abriga a maioria dos servidores que trabalham nas unidades de saúde do Estado. Como informa o secretário Almeida Lima, sem esses servidores hoje a saúde para. Portanto, a solução agora é mais do que urgente.

A fortuna do Crediamigo

Em tempos de vacas magras chama atenção o montante que o Banco do Nordeste investiu em Sergipe em 2017 através do programa de microcrédito Crediamigo. Foram contratadas mais de 125 mil operações e emprestados R$ 245 milhões para mais de 69 mil clientes.

Classificado como o maior programa de microcrédito produtivo orientado da América do Sul e segundo da América Latina, o Crediamigo, no mesmo período, contratou R$ 8 bilhões junto a microempreendedores de sua área de atuação, que compreende toda a Região Nordeste e o norte dos Estados do Espírito Santo e de Minas Gerais.

Todo esse volume de dinheiro foi distribuído em mais de 4 milhões de operações de microcrédito. Ao todo, foram atendidos 5,1 milhões de clientes no período. O valor médio das contratações foi de R$ 2 mil. Para 2018, a meta de aplicações do Programa é de R$ 8,7 bilhões.

Jornal do Dia faz 13 anos

Fazer jornal nunca foi fácil, agora está mais difícil do que nunca. No entanto, é preciso continuar. Como um diário pode sobreviver no tempo da notícia instantânea? É isso que dois obstinados idealistas, os jornalistas Elenilton Pereira e Gilvan Manoel, buscam equalizar todos os dias, desde que fundaram o Jornal do Dia em 2005.

Já no seu nascimento, em pleno governo João Alves Filho, se transformou numa voz divergente. Ousou não apenas denunciar e criticar a administração estadual, como também abriu espaços para vozes da oposição, os sindicatos e a gestão do prefeito de Aracaju, Marcelo Déda, do PT.

No ano seguinte, se transformou no veículo que mudou as regras na campanha para o governo estadual e se transformou no jornal mais utilizado pelos candidatos da oposição nos programas eleitorais. Em 2007, quando Déda foi empossado governador, o jornal denunciou manobras para engessar a administração e deu ampla cobertura a escândalos de repercussão, como a Operação Navalha.

E o mais importante: o Jornal do Dia é um veículo democrático, que respeita opiniões e mantém um diversificado número de colaboradores. O mais jovem diário aracajuano está antenado com o seu tempo, ganha espaço na internet, mas continua respeitando a máxima de que o papel do jornalismo é desconfiar sempre do poder público, ao mesmo tempo que reverbera o pensamento da coletividade, informando com a necessária rapidez, analisando a notícia com a máxima profundidade e isenção e prestando serviço à sociedade.

Viva o Jornal do Dia!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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