LUTAR SEM FRAGMENTAR

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       Os médicos ginecologistas e obstetras e os planos de saúde estão em pé de guerra, isso em São Paulo.  Os médicos reclamam dos preços pagos pelas consultas, do reajuste dos honorários abaixo da inflação nos últimos dez anos e denunciam que alguns planos ainda usam como referência tabelas de honorários antigas. Na semana passada, eles publicaram anúncios sob a chancela da associação paulista da especialidade,  cobrando o aumento das consultas de R$ 25 para R$ 100 e dos valores pagos pelos partos de R$ 200 para R$ 1 mil. Se não chegarem a um acordo até outubro, ginecologistas e obstetras vão parar de atender os planos  de saúde em São Paulo.

     Vamos por partes. Se todos os convênios resolvessem adotar a CBHPM – Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos, na sua última edição, o valor da consulta seria de R$ 54,00. É verdade que já existe operadora de plano da saúde (a  Assistência Supletiva da Petrobrás), remunerando a consulta eletiva, para todas as especialidades, em R$ 80,00. Cobrar pelo parto o valor de R$  1 mil, parece-me razoável,  mas como fica a remuneração dos demais procedimentos contidos na CBHPM? Não haveria a quebra de sua  espinha dorsal no processo de alinhamento horizontal com os procedimentos de outras especialidades?
      O processo de elaboração da Classificação foi fundamentado  no princípio da hierarquização dos procedimentos, em função da complexidade, do risco, do tempo despendido e de outros atributos. Através das informações dos especialistas, a FIPE/USP pôde elaborar uma tabela hierarquizada, num trabalho pioneiro mundialmente, conduzida pela professor Hélio Zylberstajn. Na época eu comandava a Diretoria de Economia Médica da Associação Médica Brasileira e mantive os primeiros contatos com a equipe técnica da FIPE na Faculdade de Economia da USP. 

      Dessa forma, preocupa-me sobremodo a  mobilização e luta segmentadas, desencadeada apenas por uma especialidade, sem o aval das entidades médicas nacionais.  Concordo que os médicos brasileiros estão aviltados em sua remuneração por parte da maioria dos planos de saúde, mas segmentar a luta, no entanto, considero uma prática perigosa. Seria mais coerente, a meu ver, desvincular qualquer procedimento que envolva o ato médico da intermediação dos convênios. Por sua vez, estes dariam assistência somente aos procedimentos em regime de internação, incluindo todos os recursos diagnósticos e terapêuticos  necessários para o adequado atendimento do paciente. No entanto, para isso funcionar, torna-se necessário promover revisão dos contratos atualmente existentes, retirando desses as coberturas dos procedimentos acima referidos.

       Um passo importante será dado em 13 de julho próximo, logo após a Copa, quando a Comissão Estadual de Honorários Médicos receberá todos os presidentes de Sociedades de Especialidades locais, na Sociedade Médica de Sergipe, para discutir o assunto e preparar as bases para a convocação de uma grande assembléia geral da categoria.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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